Pedro Almodóvar foi ovacionado ao chegar para a estreia de seu novo filme Natal Amargo, apresentado no Festival de Cannes na semana passada e com estreia prevista para 28 de maio no Brasil. A película reafirma um gesto recorrente do cineasta: retornar ao lastro da maternidade como eixo dramático e afetivo de sua obra. Ao trazer ao centro da narrativa uma publicitária que perde a mãe durante o feriado de Natal, o diretor retoma uma de suas obsessões mais persistentes. O filme também evidencia outro procedimento habitual de sua linguagem: o cruzamento de histórias e planos narrativos, marcado por entrelaçamentos que redesenham novas formas de continuidade fílmica. Nessa estrutura, Almodóvar parece frequentemente tocar os limites da autoficção, como se sugerisse que a vida, aquela que se vive fora das telas, também é feita de construções ficcionais.
A maternidade sempre foi uma das regiões centrais do cinema de Pedro Almodóvar. Em sua filmografia, mães raramente aparecem como figuras idealizadas ou confinadas ao arquétipo da proteção incondicional. Ao contrário: são personagens atravessadas por culpa, ausência, desejo, violência, ambiguidade e ruptura. Em diferentes momentos de sua obra, Almodóvar parece deslocar a figura materna de um lugar sacralizado para uma zona mais instável, contraditória e profundamente humana.
Ao observar sua filmografia, torna-se evidente que o diretor espanhol constrói uma tipologia de mães que tensiona o imaginário romântico da maternidade. São mulheres que, muitas vezes, falham, desaparecem, transgridem e se recusam a ocupar plenamente o papel esperado pela tradição familiar.
Em Mães Paralelas (2021), essa ruptura ganha força na personagem Teresa, interpretada por Aitana Sánchez-Gijón. Distante da ideia da mãe devotada, Teresa prioriza a vida profissional, delega cuidados e revela uma afetividade menos explícita. Almodóvar, assim, apresenta uma maternidade emancipada da função clássica do cuidado e questiona os limites entre papéis historicamente atribuídos ao masculino e ao feminino. Esse deslocamento dialoga com Ingmar Bergman, especialmente em No limiar da vida (1958) e Sonata de outono (1978), onde mães também rompem com expectativas sociais e afetivas. Em ambos os cineastas, a maternidade deixa de ser um território de pureza moral para se tornar espaço de conflito, ausência e desejo.
Mas essas fissuras já apareciam antes em Almodóvar. Em De salto alto (1991), Becky del Páramo (Marisa Paredes) é uma mãe cuja presença se impõe mais pelo desaparecimento e pela falta do que pelo cuidado. Em Volver (2006), Raimunda (Penélope Cruz) e Irene (Carmen Maura) radicalizam esse movimento: mães e filhas atravessadas por traumas familiares, violência patriarcal e crimes que tensionam moralidade, proteção e sobrevivência. A maternidade, aqui, não surge como pureza, mas como força contraditória, por vezes sombria.
O próprio Almodóvar afirmou que, em Mães Paralelas, pela primeira vez quis construir uma “mãe má”, uma mulher sem instinto maternal idealizado. Essa figura não representa uma negação da maternidade, mas sua complexificação. Teresa, Becky, Raimunda, Irene e, mais recentemente, Martha (Tilda Swinton), em O quarto ao lado (2024), revelam mães marcadas pela frieza, pela ausência ou pelo fracasso afetivo, sem deixarem de ser centrais em suas narrativas.
É possível pensar essas personagens à luz das provocações de Paul B. Preciado (2023), quando discute a crise das categorias fixas de gênero e identidade. Em Almodóvar, pai, mãe, filha, filho e família deixam de operar como papéis rígidos. O que emerge é uma zona de trânsito e deslocamento, em que vínculos afetivos e funções sociais parecem, metaforicamente, “trocar de pele
Talvez esse seja um dos gestos mais potentes de seu cinema: desmontar a maternidade como destino ou ideal moral e apresentá-la como experiência contraditória, porosa e política. As mães almodo-ovarianas não apenas amam ou cuidam. Elas falham, desaparecem, matam, protegem, abandonam, retornam e se reinventam. E, nesse movimento, também trocam de pele.
Professor no curso de Cinema do Centro Universitário Jorge Amado (BA), especialista no cinema de Pedro Almodóvar. Doutor em Artes Cênicas (UFBA, 2025), mestre em Literatura e Crítica Literária (PUCSP, 2019), licenciado em Letras e Filosofia. Pesquisador, dramaturgo e diretor, atua nas áreas de teatro, literatura e crítica cultural. É autor da tese Nas lentes de Pedro Almodóvar: a região-mãe e a poética do desaparecimento (UFBA, 2025), da qual deriva o livro Almodo-ovarianas: o cinema mater de Pedro Almodóvar, a ser lançado ainda em 2026
Eduardo Reis é professor no curso de Cinema do Centro Universitário Jorge Amado (BA), especialista no cinema de Pedro Almodóvar. Doutor em Artes Cênicas (UFBA, 2025), mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP, 2019), licenciado em Letras e Filosofia. Pesquisador, dramaturgo e diretor, atua nas áreas de teatro, literatura e crítica cultural. É autor da tese Nas lentes de Pedro Almodóvar: a região-mãe e a poética do desaparecimento (UFBA, 2025), da qual deriva o livro Almodo-ovarianas: o cinema mater de Pedro Almodóvar, a ser lançado ainda em 2026