A 79ª edição do Festival de Cinema de Cannes teve início com o júri, liderado pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook, defendendo a importância de a arte e os artistas se posicionarem politicamente diante do que acontece no mundo. Mas nas telas, ao menos neste primeiro dia de evento, a política surgiu apenas de soslaio; as questões individuais tiveram prevalência nos filmes apresentados nesta quarta, dia 13.
Na competição, Nagi notes, do japonês Koji Fukada, é uma estranha narrativa sobre uma arquiteta que deixa Tóquio e vai passar uns dias em um vilarejo, onde servirá de modelo para sua ex-cunhada, uma exigente artista plástica, criar uma escultura. A cidadezinha se localiza em uma área ingrata, de solo pouco fértil, o que força os moradores a aceitar que o governo japonês utilize uma região próxima para fazer exercícios militares, vivendo da renda paga pelo usufruto daquelas terras.
No começo, parece que o filme terá por foco o contraste entre valores da cidade grande e do campo. E também que o cineasta tem por intenção fazer uma denúncia sobre militarismo e expansão bélica. Mas não demora até percebermos que o que realmente mobiliza a sensibilidade de Fukada são as questões sentimentais dos personagens. E entre a gama das que o longa nos apresenta estão amores não correspondidos, romances que deram errado, paixões platônicas e pré-adolescentes em descoberta da própria homossexualidade.
O gosto pelo melodrama já se fazia notar em obras anteriores de Fukada, como Love life, de 2019, um filme tão esquisito quanto fascinante: partia de um evento trágico, a morte de uma criança, para criar uma narrativa melodramática subsequente – e preenchia seu filme com tantas ideias inusitadas que por vezes parecia reinventar o melodrama enquanto gênero.
Fukada nos surpreende várias vezes, em geral positivamente. Mas o filme é um bocado irregular na execução das cenas, e ainda que haja belos achados estéticos (como quando a protagonista observa a briga do jovem casal queer por meio de uma câmara escura), eles sempre parecem ser apenas toques de beleza desenraizados, meros enfeites na tessitura geral do filme; não se integram à narrativa. É um longa de interesse, sem dúvida, mas sua dispersão temática contribui para a dispersão emocional do espectador.
O segundo filme da competição apresentado foi La vie d’une femme, dirigido pela francesa Charline Bourgeois-Tacquet. A protagonista é Léa Drucker, uma das maiores atrizes francesas em atividade, que aqui tem um filme à altura de seu talento. Ela é Gabrielle Conti, cirurgiã de alto gabarito que comanda uma equipe especializada em realizar a reconstituição facial em pacientes com doenças ou acidentados.
Extremamente segura do que faz, ela também exige de sua equipe dedicação e disciplina, e embora muitas vezes seus subalternos vacilem nesses quesitos, ela mantém o vigor o tempo todo. É dura com quem acha que não está dando tudo de si, mas jamais perde por inteiro a ternura; é uma mulher solar, agradável, cheia de energia e pulsão de vida, além de aberta a experimentações sexuais.
Gabrielle é casada, mas nunca quis ter filhos, embora volta e meia a sociedade a julgue mal por isso. Mas um dos grandes diferenciais do filme é justamente mostrar essa mulher não como uma vítima, ou alguém que sofre todo tipo de pressão para se manter no topo. Ela pode até sofrer, mas o que o longa ressalta não é tanto a vulnerabilidade dela enquanto mulher – e, logo, enquanto alguém socialmente oprimido por um mundo de homens. A grande opressão que recai sobre Gabrielle é o fato de todos a acharem sempre tão forte e infalível que, quando ela desliza, ninguém se sente capaz de ajudá-la, achando que ela saberá se recompor por si só. “Você é uma mulher forte”, é o que lhe dizem o tempo todo, e resta a ela de fato ser uma.
Bourgeois-Tacquet ficou conhecida por Os amores dela, de 2021, filme gracioso que trazia Anaïs Demoustier como uma personagem magnificamente cativante – era uma pena que, na segunda metade, ela dividia o protagonismo com a de Valeria Bruni-Tedeschi, bem menos interessante, então o longa perdia o fôlego. Desta vez, a diretora acerta ao permanecer o tempo inteiro em uma personagem apenas.
Há um interessante aproveitamento de atores veteranos em pequenos papéis, com destaque para Marie-Christine Barrault, como a mãe senil de Gabrielle. Mas o filme é de Drucker, que revela tamanha espontaneidade e fineza na composição da protagonista que ela se torna maior que o próprio longa. Embora a obra se beneficie de uma performance tão magnética: termina dando a impressão de ser bem mais completa do que de fato é.
Na mostra paralela Quinzena dos Cineastas, Butterfly jam marca a estreia do russo Kantemir Balagov em um filme em língua inglesa. Ele ficou conhecido por Uma mulher alta, que fez merecido sucesso na seção Um Certo Olhar, na edição de Cannes de 2019. Em Butterfly, ele até aprimora seu estilo, ao narrar o drama familiar de imigrantes de uma região da Rússia, no Cáucaso, chamada Circássia – nos EUA, eles abrem um pequeno restaurante, servindo pratos típicos de sua terra de origem.
Quem comanda tudo é Zalya (Riley Keough), embora os saborosos pratos sejam preparados por seu irmão, Azik (Barry Keoghan), um crianção que despeja sobre o filho adolescente, Temir (Talha Akdogan), todas as expectativas de sucesso da família: o garoto tem notável talento para a luta livre, e seu pai fantasia que, um dia, o rapaz se torne campeão olímpico.
Azik sonha com grandeza, desde que ele próprio não precise lidar com ela. Quando o dono de um grande restaurante o convida para ser chef no estabelecimento, ele é incapaz de dar esse passo adiante – não tem coragem de deixar a irmã na mão, mas sobretudo prefere continuar em sua rotina desajustada e irresponsável, uma existência desimportante aos olhos da sociedade, mas que é muito conveniente ao seu próprio temperamento inseguro e algo covarde.
Em um primeiro momento, o filme parece seguir a linhagem dos dramas familiares tipo Sindicato de ladrões, de 1954, em que o personagem de Marlon Brando se ressente de não ter tido a chance de ir longe na carreira de lutador como o seu potencial indicava. Azik, ao contrário, tem a chance de se destacar enquanto chef, mas opta por não fazê-lo, terceirizando ao filho a tarefa de trazer honra à família circassiana.
Keoghan é um ator que parece sempre tão integrado aos personagens que interpreta que sua técnica se torna praticamente indetectável; mais do que atuando, ele parece estar apenas “sendo” diante de uma câmera. O que por vezes coloca seus companheiros de cena em maus lençóis – desta vez, quem sofre é Harry Melling, no papel de seu melhor amigo —, porque evidencia as estratégias dramáticas dos outros, enquanto tudo o que ele faz parece brotar com naturalidade.
Mas quando ele e Keough (teriam sido escalados para serem irmãos pela semelhança de sobrenomes?) contracenam, eles parecem de fato irmanados. Ela surge com a figura amadurecida, sem a formosura mais banal de “it girl” que tinha há alguns anos, mas com uma beleza mais elegante, sem exuberância. Agora, sua presença expressiva preenche a tela sem ela precisar mover um músculo da face – e quando ela move, mostra que se aperfeiçoou também enquanto atriz dramática.
O filme prossegue com grande domínio nas mãos de Balagov, mas depois do clímax na morte de Azik (não é spoiler: na primeira cena do longa, já sabemos que ele vai morrer), o longa toma rumos inesperados, com resultados discrepantes. São bem-vindos alguns toques de nonsense, como o surgimento de um pelicano de estimação, uma rua repleta de carros cujos alarmes disparam simultaneamente, uma máquina de algodão-doce emperrada que de repente jorra a guloseima para todos os lados. Mas esses elementos de subversão antes dissipam o que o filme vinha tentando mostrar do que propõem alguma novidade. Sim, são um símbolo de quebra de uma lógica – uma metáfora do quanto o jovem Temir quer romper com o ciclo de atitudes erradas e infantilizadas provavelmente perpetuadas em sua família há décadas, mas talvez tenham surgido no filme um pouco tarde demais. Ainda assim, Balagov consegue levar seu longa a cabo com dignidade e a comprovação de que é um nome a ser seguido de perto.