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sábado, junho 13, 2026

Cannes 2026, dia 10: “Coward”, “Histoires de la Nuit” e “Histoires de la Nuit” – Revista Cult

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O belga Lukas Dhont ficou muito conhecido depois de falar sobre a descoberta do amor gay na pré-adolescência, em Close, que lançou em Cannes em 2022. Com Coward, retorna ao tema da iniciação sexual, mas em outro período histórico – a Primeira Guerra Mundial – e com foco em jovens já adultos, mas sem experiência no campo sexo-afetivo.

Um deles é Pierre, um jovem de origem pobre, que vai parar no front e se deixa abater pelo terror da guerra. Ele fica um pouco menos desolado quando conhece Francis, o rapazote que comanda o setor de entretenimento dos soldados – na verdade, os belgas deveriam se revezar entre diversas funções no front, mas como Francis tinha energia e talento artístico, em geral cabia a ele elaborar os espetáculos para divertir o pelotão.

Os dois rapazes se apaixonam e descobrem o amor em meio à guerra. Mas suas visões de mundo são muito distintas: enquanto Pierre não vê a hora de que o conflito acabe e não precise lidar com mortes, mutilações e destruição, o sonhador Francis espera que a guerra dure muito tempo. Afinal, ali ele consegue ser livre, de uma maneira como jamais seria no mundo fora de uma situação bélica.

Francis é uma representação do artista que leva tão a sério o seu papel no mundo que ele praticamente fica cego para todo o resto; é indiferente diante de toda a tragédia que o cerca – sua arte precisa prevalecer. Continuar seus espetáculos, em que ele pode dar vida a suas personagens femininas sem medo de qualquer represália, é muito mais importante do que se abrir a se sensibilizar diante dos horrores do conflito.

Dhont, ao que parece, é dessa mesma linhagem de artista que Francis; não perde muito tempo com as cenas no campo de batalha, que em geral são rápidas ou embaraçosamente artificiais (até a lama parece por demais desinfectadas). Seu interesse é muito maior pelos trechos de apresentações teatrais no front. Quando os soldados vão apresentar uma peça em um hospital cheio de vítimas da guerra, o cineasta expõe corpos mutilados e gemidos de dor, mas com finalidades espetaculares: sua lente estetiza tudo, e em vez de horror se vê um circo de horrores, com personagens utilizados antes como ferramentas de choque do que como um realçador do contraste entre o mundo real e a fantasia artística. É um uso sensacionalista da tragédia.

Mas ao menos enquanto romance o filme tem predicados. Na primeira cena em que vão para a cama, Francis percebe que Pierre tem pectus excavatum, condição física popularmente chamada de “peito de pombo”, e ele imediatamente, de modo carinhoso, dá um suave beijo no ponto mais côncavo do torso do amante. E a relação entre os dois tem outros momentos de delicadeza – ambos atingem o orgasmo juntos pela primeira vez sem necessidade de penetração. Têm desejo mútuo, mas um imenso cuidado com o bem-estar do outro. O filme é um belo retrato do início de uma relação verdadeiramente de amor.

Histoires de la Nuit, da francesa Léa Mysius, foi o único filme a receber vaias em uma projeção para imprensa nesta edição de Cannes. E com alguma razão: é um thriller de pouco impacto, por vezes um bocado irritante, sobre Nora, uma mulher que tenta esquecer o passado, quando se envolveu com o mundo do crime, e recomeça uma nova vida. Vai para outra cidade, onde arranja uma nova família e um emprego diferente. Mas um dia, quando sua filha pequena posta na internet um vídeo em que ela, a mãe e o pai fazem uma dancinha, o filme viraliza, e o ex-marido de Nora reaparece para infernizá-la.

O filme não tem muita razão de existir, a não ser que a intenção da cineasta seja debater o quanto ficar mostrando a própria vida pela web pode trazer dores de cabeça a quem se expõe demais. Mas é um ponto de partida frágil para a história sem pé nem cabeça que ela apresenta. Benoit Magimel deveria agradecer que seu papel do ex-marido violento é tão ralo, porque a caracterização que escolheu para o personagem poderia se tornar uma enorme canastrice, e Hafsia Henzi, no papel de Nora, quase não consegue falar uma frase em uma dicção aceitável. Mais triste ainda é o papel reservado a Monica Bellucci, como uma vizinha artista plástica, que na total falta do que fazer no filme, lá pelas tantas começa a puxar assunto com o sujeito que invade sua casa e mata sua cachorra.

Em The Dreamed Adventure, a alemã Waleska Grisebach retorna ao local onde rodou o que provavelmente seja seu filme mais conhecido, Western, de 2017. Mais uma vez ela utiliza um ambiente rural da Bulgária, agora perto da fronteira com a Turquia, onde a União Europeia termina – por isso, pela região há vários traficantes de mercadorias e mesmo de refugiados, gerando a existência de conflitos entre bandos mafiosos por aqueles arredores.

A cineasta volta a contar com um elenco formado sobretudo de pessoas que ela conheceu na região. Desta vez, o foco é em Veska, uma arqueóloga nascida por ali, mas que deixou o local para se formar em uma cidade grande, retornando à terra natal para comandar escavações nos arredores de uma antiga torre. Ela inicialmente procura distância de se meter na vida dos outros, mas quando um amigo acaba se envolvendo com um dos chefes do tráfico local, ela acaba por tabela mergulhando também naquele meio criminoso, colocando sua própria integridade em risco.

A atriz que a interpreta, Yana Radeva, tem um rosto bastante cinematográfico, com um nariz alongado e os olhos puxados que parecem quase sempre estar sorrindo. Ela é uma mulher tranquila, com uma voz de grande serenidade, mas também tem uma postura bastante firme; nota-se logo que ela sabe se defender. Ela se torna ainda mais fascinante quando revela um pouco sobre si – há uma cena discreta, mas esplêndida, em que ela fala sobre um amor da adolescência, desnudando em pouco mais de um minuto o tipo de pessoa que ela é. Ela conta que era uma mulher forte, que gostava de brigar com os rapazes, mas que quando se apaixonou, fingiu perder uma briga com o rapaz de quem ela gostava simplesmente para que ele se sentisse mais viril e não se assustasse com ela. “Se ele fosse forte como eu, teria aceitado perder de mim na briga”, ela resume.

É graças a Radeva que o filme mantém o espectador focado, porque a estética meio desapegada da diretora por vezes resulta em um longa enfadonho – os personagens falam sempre frases evasivas, dificultando por um bom tempo que o público se inteire verdadeiramente sobre o que de fato está em jogo na tela. Mas é um filme que consegue se impor, apesar da longuíssima duração.



[Fonte Original]

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