No último dia 7 de maio, a Editora Senac São Paulo apresentou ao público sua nova sede, em Santo Amaro, em evento que integrou as comemorações pelos 30 anos da editora e os 80 anos do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. Reunindo autores, educadores e artistas, o encontro procurou refletir sobre o papel da educação na sociedade contemporânea, articulando diferentes campos do conhecimento — da música à ciência, da cultura à formação profissional.
Participaram do encontro os autores da coleção Educar Para: Rita Lobo, Gabriel Chalita, Mary Del Priore, João Carlos Martins e Jean William, reunidos em uma conversa aberta ao público sobre educação, cultura e formação humana. O debate também serviu de apresentação para a coleção, organizada por Chalita, que propõe pequenos volumes dedicados a temas contemporâneos sob a perspectiva da educação.
Nesta entrevista à Cult, o diretor da Editora Senac Luís Américo Tousi Botelho relembra os êxitos da atuação da editora nessas três décadas, aliando educação e inovação e discute o papel da tecnologia no futuro do mercado editorial. Ao comentar os desafios contemporâneos do mercado editorial, Botelho defende que “a inteligência artificial veio para ficar” e que o papel das editoras, hoje, passa por incorporar novas ferramentas sem abandonar aquilo que considera central: “Nosso objetivo continua sendo levar informação e conhecimento para as pessoas”.
Como você vê o legado da editora, que completa agora os seus 30 anos de existência?
O legado da editora é o jeito Editora Senac de publicar. Ou seja, transformar vidas através do conhecimento e da leitura. Quando a Editora Senac surgiu, há 30 anos, tínhamos a perspectiva de entregar material de apoio aos nossos alunos e docentes em sala de aula. Por isso, temos um cunho muito institucional e educacional. Em um curto espaço de tempo, porém, ganhamos o mercado editorial também; começamos a trabalhar em livros pensados não apenas para nossos alunos, como também para o mercado editorial. E hoje os dois públicos caminham juntos. O legado que vejo em tudo isso é transformar vidas através da educação. Somos uma editora classificada como CTP: voltada às publicações científicas técnicas e profissionais. Ou seja, não publicamos, romance, ficção, autoajuda, etc. Seguimos nessa área de atuação com excelência.
Que papel a editora Senac busca ocupar no mercado editorial?
Nosso objetivo continua sendo levar informação e conhecimento para as pessoas. O Senac vem do “Sistema S”, que oferece muitos cursos gratuitos com o intuito de inserir os jovens no mercado de trabalho. O que nós buscamos é continuar trabalhando nesse sentido, aliando à nossa prática valores como inovação, diversidade e inclusão – valores que praticamos e inserimos dentro das nossas publicações. Por isso, nossos livros não são apenas transposições diretas dos originais que vêm dos autores; nós provocamos o autor para que o texto com uma provocação, uma pergunta. Para que o texto capte a atenção do leitor e não seja maçante. Porque, hoje em dia, com as redes sociais a atenção está sempre em disputa. Nossa ideia é sempre trazer esse tipo de novidade para o leitor e propor temas atuais e importantes para abrir uma linha de entendimento e discussão instigante. Esse é o caminho que vemos trilhando ao longo desses 30 anos
Quais desafios você vê no futuro da educação e como a editora pode atuar para superá-los?
Hoje, vivemos em um mundo com um protagonismo imenso do meio digital. Houve muita discussão no passado sobre a possibilidade do livro digital substituir o livro físico, algo que nunca vai acontecer. Os dois formatos estão ganhando forças juntos. E o livro digital pode ter alguns recursos que o livro físico não tem. Mas também achamos que o livro físico ainda é importante e incentivamos que a educação não fique apenas no digital, como hoje acontece, por exemplo, em muitas escolas. Nossos alunos, pelo contrário, ganham os livros, e nós incentivamos a leitura deles. Esse é um dos desafios que enxergo na educação atual. Por isso, é importante que uma instituição como o Senac tenha uma editora que trabalhe em seus livros valores de acordo com a missão da instituição: valores de inclusão, diversidade e inovação.
Como a editora tem se preparado para atuar em um futuro cada vez mais permeado por ferramentas de inteligência artificial?
A inteligência artificial veio para ficar. E nós precisamos utilizar a tecnologia a nosso favor. Não adianta querer competir com ela. No início, era duro ver que um leitor podia pedir à inteligência artificial um resumo de um livro e ler apenas o resumo – e ainda converter esse resumo em áudio. É duro para o editor, que trabalha tanto para produzir um livro em todos os seus detalhes: diagramação, capa, projeto gráfico… Precisamos que a Inteligência artificial esteja a nosso favor. Hoje, por exemplo, nossa plataforma de livros digitais, pode exibir o mesmo livro publicado como material impresso, mas pode também transformá-lo em um audiobook. A nossa própria plataforma trabalha com ferramentas de IA capazes de resumir o livro, fazer mapas do conteúdo e aplicar jogos de pergunta e resposta sobre o assunto. Esses e outros recursos, como ferramentas de anotação e marca-texto fazem com que a leitura dos nossos livros cresça. Esses recursos são válidos, é Importantes.
Como você avalia o período em que esteve à frente da direção da editora?
Estou à frente da direção da editora há cinco anos. Dos 30 anos da Editora, estou nela há 15 anos e eu passei por todas as áreas. Desde o setor administrativo, até o comercial, a comunicação e eventos. Toda essa trajetória foi marcada pela adoção de sistemas de controle, de gestão e de monitoramento do mercado. Também migrei para a produção editorial, onde me debrucei no conteúdo dos livros, em reuniões com os autores e lançamentos de livros. Criamos também uma equipe de livros digitais, que considero um dos destaques dessa trajetória, assim como a criação da nossa biblioteca digital, que antigamente trabalhava com livros em formato PDF, que foi modernizado com o formato EPUB. Foi uma mudança de paradigma aliada a uma série de inovações que vêm sendo postas em prática nos últimos anos, e que nós acompanhamos sempre muito próximo das novidades que o mercado propõe.