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domingo, maio 24, 2026

O que o algoritmo aprendeu sobre o desejo? A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ na era do capitalismo de dados – Revista Cult

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Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças. A data tornou-se símbolo global de combate à LGBTQIAPN+fobia ao marcar que o patológico não estava nos corpos dissidentes, mas nos regimes de saber que os classificavam como doença. Trinta e cinco anos depois, a questão é mais complexa: o que significa combater a LGBTQIAPN+fobia quando ela opera em sistemas automatizados invisíveis, administrados por corporações não eleitas e alimentados por dados cedidos sem plena consciência? Essa discussão está no centro do que se convencionou chamar de violência algorítmica.

Há uma frase de Mark Fisher que resume a armadilha contemporânea: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Nas plataformas digitais, o capitalismo encontrou sua forma mais sofisticada de reprodução. Trata-se de um regime que já não depende apenas de coerção explícita, mas da captura de desejos, afetos e identidades inclusive daqueles que historicamente desafiaram suas normas.

Michel Foucault mostrou que o poder moderno não atua apenas reprimindo o sexo. Ele também o produz, classifica e administra. O dispositivo da sexualidade organiza os corpos dentro de uma matriz de inteligibilidade, separando o normal do abjeto, como argumenta Judith Butler. Durante séculos, esse dispositivo operou por meio de instituições como a medicina, o direito penal e a família. Foi ele que, até 1990, classificou a homossexualidade como transtorno. E foi contra ele que o 17 de maio se consolidou como data de luta.

Hoje, as plataformas digitais atualizam esse dispositivo em escala global e velocidade algorítmica. Corpos dissidentes, antes parcialmente protegidos pelo anonimato, passaram a habitar ambientes em que cada clique, tempo de tela ou pausa em um vídeo gera dados para sistemas automáticos de classificação. O capitalismo de vigilância, conceito formulado por Shoshana Zuboff, transforma rastros digitais em produtos preditivos negociados em mercados de comportamento futuro.

Judith Butler argumenta que a performatividade de gênero ocorre dentro de uma matriz normativa que define o que pode ser reconhecido como corpo, desejo e sujeito. O que talvez não pudesse prever é que essa matriz ganharia uma camada infraestrutural baseada em algoritmos capazes de determinar quem aparece, quem permanece visível, quem pode monetizar sua existência e quem será enquadrado como conteúdo sensível.

As plataformas tornaram-se espaços centrais de expressão identitária para pessoas LGBTQIAPN+. A visibilidade conquistada nas redes, porém, produziu também hiperexposição. Corpos dissidentes converteram-se simultaneamente em nichos de mercado e alvos preferenciais de vigilância. Pesquisas indicam que, enquanto 59% dos usuários em geral relatam ter sofrido violência na internet, entre pessoas LGBTQIAPN+ com alta visibilidade o índice chega a 82%.

Para esses sistemas, identidades dissidentes são economicamente inconvenientes porque escapam às categorias binárias que estruturam os modelos preditivos. Tecnologias biométricas são calibradas com base em pressupostos binários de gênero e heterossexualidade compulsória. Quem não se encaixa aparece como “falha do sistema”. A diferença converte-se em variável operacional, e as hierarquias reaparecem sob aparência de neutralidade técnica.

O caso da boxeadora Imane Khelif, alvo de uma campanha transfóbica durante a Olimpíada de Paris-2024, ilustra esse mecanismo. Ao questionarem a legitimidade do corpo de uma mulher intersexo, figuras com grande alcance digital acionaram uma engrenagem algorítmica que lucra com indignação e engajamento. A patrulha de gênero, antes restrita a espaços físicos, adquiriu dimensão descentralizada e digital, transformando usuários em fiscais voluntários das fronteiras de gênero.

O fenômeno aparece também nas políticas de moderação. Plataformas como YouTube e TikTok classificam vídeos educativos sobre identidade de gênero como inadequados para anunciantes, desmonetizando criadores, enquanto discursos de ódio seguem disponíveis e monetizáveis. Não se trata apenas de falha técnica. A pesquisadora Amanda Chami chama esse processo de seletividade programada: uma discriminação estrutural inscrita na arquitetura das plataformas.

O aspecto mais opaco talvez esteja nos sistemas de inteligência artificial generativa. Neles, os vieses são mais profundos e menos transparentes. O LLaMA 4, da Meta, chegou a recomendar “terapia de conversão” a usuários que buscavam informações sobre homossexualidade. O resultado não decorreu de programação explícita, mas da reprodução de padrões presentes nos dados usados no treinamento do modelo. Trinta e cinco anos depois de a OMS deixar de considerar a homossexualidade uma doença, uma inteligência artificial ainda sugeria sua “cura”. A violência histórica reaparece inscrita no código.

É nesse ponto que a análise de Fisher ganha força. O capitalismo de dados não apenas explora identidades dissidentes como nicho de mercado. Ele também as produz, classifica e regula dentro de uma estrutura que preserva lógicas históricas de opressão. A novidade não está na violência em si, mas na opacidade de seus mecanismos.

Ao mesmo tempo, é nessa opacidade que surgem brechas. Coletivos como Código Não Binário, projetos como Archivo Inexistente que utiliza IA generativa para reconstruir memórias queer latino-americanas apagadas e ferramentas como TybyrIA desenvolvem formas de “hacking epistemológico”. Ao interferirem nas infraestruturas digitais, expõem seus mecanismos e propõem alternativas.

O 17 de maio, portanto, exige ampliar o campo de combate. A LGBTQIAPN+fobia contemporânea não se limita à violência física, embora ela continue presente. Também opera em feeds, sistemas de moderação, modelos de linguagem e bases de dados que definem, de forma opaca, quem pode existir e circular com dignidade no espaço público hiperconectado.

Se o pessoal é político, como ensinaram os feminismos, o digital também é. Não apenas como metáfora, mas como dimensão material de produção de subjetividades e exercício de poder. O dispositivo da sexualidade não desapareceu com a decisão da OMS, em 1990. Ele ganhou nova camada infraestrutural, codificada em algoritmos e monetizada em mercados de comportamento futuro. E o desejo esse excesso que sempre escapa às tentativas de captura continua sendo campo de disputa.

Bruna Irineu é assistente social, escritora, ativista pelos direitos LGBTQIAPN+, professora e pesquisadora do Departamento de Serviço Social, do Programa de Pós-Graduação em Política Social e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Larissa Pelúcio é antropóloga, livre-docente em Estudos de Gênero, Sexualidade e Teorias Feministas. Atua como professora no Departamento de Ciências Humanas e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp).



[Fonte Original]

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