O primeiro volume de Lost Fantasy tinha potencial, mas ele acabou sendo, para mim, acanhado demais na forma como sua história foi desenvolvida, especialmente no que se refere à mitologia macro desse universo em que um mundo mágico existe abaixo do nosso, com alguns representantes chamados de Grandes Caçadores, que salvaram a Terra de uma invasão de criaturas mágicas no passado, fazendo as pontes entre essas realidades. Se o whodunnit que o jovem de cabelos brancos Henry Blackheart, filho adotivo de Cyrus Blackheart, um dos Grandes Caçadores e fundador do Clã Blackheart, foi desinteressante, culminando com a aparente morte de Cyrus no final do arco inicial, o segundo foca exclusivamente nisso, voltando um pouco no tempo para começar nos mostrando o embate entre Cyrus e um jovem com rosto escondido por capuz e echarpe que empunha duas enormes espadas mágicas que não acaba exatamente em morte, mas em um ferimento aparentemente grave e a manutenção do Grande Caçador em estase em um local gelado distante.
Henry, então, sai ao encalço do misterioso personagem ao longo das quatro edições, passando por um grupo de motoqueiros mágicos, por um sujeito que é uma nada discreta homenagem a Hellboy, um Wendigo e, finalmente, seu alvo que diz se chamar apenas Edge e que lhe revela que a tomada de poder no mundo mágico pelos Grandes Caçadores foi muito diferente da que foi contada para ele, inclusive sua própria origem. Essa visão sobre o que aconteceu no passado, porém, não ressona direito no roteiro de Curt Pires e Franklin Jonas, pois essa época pregressa teve pouquíssima exploração anterior, não mais do que um breve prólogo, pelo que novas revelações – que, claro, não necessariamente são verdadeiras ou foram contadas na integralidade – parecem somente mais blá, blá, blá artificial para criar dúvidas e conflitos e servir de desculpa para a pancadaria mágica que vemos com o uso liberal de gigantescas espadas.

Não só isso, mas o segundo arco repete a estrutura do anterior de investigação e conflito final para, então, soltar um cliffhanger não necessariamente conectado com o que veio antes que nos apresenta a mais um guerreiro mortal chegando para enfrentar Henry, ainda que Henry, ao que tudo indica, não seja seu alvo. A sensação de déjà vu é grande e a impressão de que a história anda de lado, no máximo na diagonal, é maior ainda. Pires e Jonas criaram um universo de premissa pouco original, o que não seria um problema, mas têm dificuldade em mostrar o diferencial e esse sim é um problema grave, que torna tudo protocolar e cansado, do tipo “já vi isso antes” e não ajuda que os dois primeiros arcos sejam quase gêmeos univitelinos. Mesmo que a grande revelação sobre o passado de Cyrus e Henry seja verdadeira, ela não é suficiente para fazer Lost Fantasy funcionar para além do básico, pois o investimento em criação sólida de mitologia é muito pequeno, o que impede o leitor de se conectar com o que lê e vê.
A arte, nesse arco, ficou dividida desigualmente entre o argentino Maxi Dall’o, que trabalhou em toda a edição #5 e em parte da #6, com o italiano Luca Casalanguida, do primeiro volume, retornando para pegar parcialmente a edição #6 e integralmente as duas seguintes. Os estilos dos dois artistas são complementares e não muito distantes, com a pegada mais crua de Casalanguida sendo mantida por Dall’o, ambos muito claramente refestelando-se com toda a pancadaria que o roteiro exige que eles coloquem nas páginas, com direito a armas brancas imensas, monstros terríveis e uma boa quantidade de sangue e magia. Mas a impressão de que o que vemos é puramente estilo sobre substância persiste fortemente aqui, talvez seja até amplificada diante da repetição narrativa que mencionei. O leitor sabe o que esperar a cada página que vira e a arte não consegue compensar o problema, algo que nem é, na verdade, sua função.
Lost Fantasy não empolga, não atiça a curiosidade, pelo menos não depois de dois arcos de apenas quatro edições cada (saudades do padrão de outrora com arcos com seis edições sempre) e é normalmente o começo de uma nova história que tem o ônus maior de engajar e prender o leitor. Ainda acho que há potencial na premissa – e Pires acabou de expandir a mitologia com mais uma publicação mensal no mesmo universo – e vou continuar insistindo por pelo menos mais um arco, mas é essencial que sua criação vá além desse caminho básico que vem seguindo. Espadas gigantes jamais compensarão histórias pequenas e o que vi até agora não passa de uma sucessão de exageros visuais para tentar esconder o vazio narrativo.
Lost Fantasy – Volume Dois (Lost Fantasy – Volume Two – EUA, 2025/26)
Contendo: Lost Fantasy #5 a 8
Roteiro: Curt Pires, Franklin Jonas
Arte: Maxi Dall’o (#5 e 6), Luca Casalanguida (#6 a 8)
Cores: Mark Dale
Letras: Micah Myers
Editoria: Chris Stevens
Editora: Image Comics
Datas de publicação: 19 de novembro e 31 de dezembro de 2025; 28 de janeiro e 04 de março de 2026; encadernado lançado em 19 de maio de 2026
Páginas: 144