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segunda-feira, maio 4, 2026

Crítica | Monstro do Pântano 1989: Morning of the Magician – Plano Crítico

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Eu fiquei extremamente surpreso quando a DC Comics anunciou que publicaria esta edição, que tem uma das histórias mais interessantes (e editorialmente tristes) dos quadrinhos oitentistas. Quando Alan Moore encerrou sua passagem por Monstro do Pântano na edição #64 (1987), ele indicou pessoalmente Rick Veitch, que havia desenhado parte daquela Era, como seu sucessor na escrita. Veitch assumiu a série sabendo que qualquer comparação seria inevitável e desfavorável, e sua solução foi começar questionando o conceito de “equilíbrio” e depois avançar para uma viagem, nos arcos seguintes, deslocando o protagonista para fora do tempo, usando a Garra de Aelkhund como motor de uma jornada pelo passado do Universo DC que atravessou cenários da Alemanha Nazista, da Revolução Americana e de Camelot, entre as edições #80 e 87. O clímax seria a edição #88, na qual o Pantanoso chegaria ao primeiro século da era comum e se tornaria participante dos acontecimentos da Paixão de Cristo. O roteiro foi aprovado pela editora Karen Berger e pelo vice-presidente e editor executivo Dick Giordano, mas a presidente Jenette Kahn, ao revisar o material, ordenou o cancelamento. Michael Zulli, em seu primeiro trabalho para a DC, chegou a desenhar 19 das 24 páginas previstas antes do cancelamento. A edição também foi letrada e colorida, e Veitch criou uma capa que mostrava o próprio Pantanoso transformado numa cruz vazia. Então, num telefonema noturno na primavera de 1989, tudo foi barrado, tendo como justificativa a “dificuldade de adequar uma figura tão poderosa como Jesus num Universo já cheio de seres poderosos” e, obviamente, o medo da editora em ofender os leitores, uma decisão tomada num momento em que A Última Tentação de Cristo, de Scorsese, lançado um ano antes, havia incendiado os grupos religiosos mais conservadores nos EUA.

Veitch se recusou a reescrever o roteiro do zero em três dias e demitiu-se. Neil Gaiman e Jamie Delano, que assumiriam a revista na sequência, desistiram do posto em solidariedade ao colega. Doug Wheeler foi quem acabou herdando a série e conduzindo a continuação da viagem temporal num arco regular (Sobrevivência do Mais Apto), sem o DNA do conflito que lhe deu origem, com o Pantanoso percorrendo os primórdios da humanidade numa jornada que tinha sua graça conceitual, mas não chegava aos pés daquilo que tinha sido prometido. A DC tentou, em 2019, publicar o material de Veitch, mas recuou quando a polêmica em torno de O Retorno do Messias (Second Coming), série do selo Vertigo escrita por Mark Russell e desenhada por Richard Pace, gerou uma petição da organização CitizenGo com mais de 230 mil assinaturas chamando o projeto de “inapropriado e blasfemo“, levando a editora a cancelar o título em fevereiro daquele ano e a enterrar qualquer possibilidade de publicar Jesus em seus quadrinhos por tempo indeterminado. A HQ mais famosa jamais publicada pela editora permaneceu assim por 37 anos, até que, anunciada na New York Comic Con de 2025 e lançada em 29 de abril de 2026, pelo selo DC Black Label, chegou às bancas sob o título Swamp Thing 1989 #1, com o roteiro original de Veitch, mantido palavra por palavra; Vince Locke finalizando os desenhos do já falecido Zulli (2024) e a publicação apresentada com conjunto-imagem original, papel facsimilar e anúncios da época. Uma revista história de verdade.

O que se lê neste primeiro número de uma minissérie de quatro partes é uma HQ que começa em pleno fluxo no hypertime, com o Pantanoso percorrendo civilizações, vendo rostos e eventos pelas bolhas de existência e resistindo à tentação de criar raízes em qualquer ponto específico do passado, até ser atraído, de forma misteriosamente magnética, para a Judeia romana. A entrada pela narrativa deste ângulo, sem o suporte imediato do arco Irmãos em Armas, dá uma sensação de deriva que o leitor não familiarizado com a fase de Veitch vai digerir com uma inquietação que pode demorar um pouco, até criar um bom ritmo. Fora do contexto da viagem original do Musguento, essa abertura e toda a reflexão do personagem em sua jornada pelas correntes e ondas dos tempos e dos universos parece um pouco solta, difícil de absorver de forma orgânica. Veitch escreveu este roteiro como peça de encerramento de uma corrida de três anos, não como porta de entrada, e a HQ não faz concessões a essa pequena contradição de ser hoje o primeiro número de uma nova publicação (que irá explorar as intenções do autor original para o encerramento daquela fase oitentista, mas como não há roteiro escrito, apenas a premissa, teremos uma abordagem consideravelmente diferente a seguir). A coisa só muda, realmente, quando o foco se fecha sobre a Última Ceia e, na sequência, sobre a reunião dos três Reis Magos com Belial, ponto em que o leitor é melhor conectado e integrado à história e começa a perceber a que nível de ambição pertencia este texto.

Ao fixar o palco da ação no primeiro século, o autor revela que as mesmas figuras que apareceram na estrebaria de Belém, décadas antes, não vieram adorar, mas vigiar uma ameaça ao domínio dos magos sobre a humanidade (na hora me veio à mente o enredo de A Batalha do Apocalipse, nos blocos referentes ao nascimento de Jesus). Os três Reis Magos que sacrificam os próprios olhos para invocar Belial, um dos grandes príncipes do Inferno, são o mesmo trio de adoradores do Natal cristão, agora descritos como feiticeiros que sempre serviram a forças demoníacas. Belial diz a seus servos que apenas instrumentaliza a maldade humana, e é nesse processo que o demônio implanta em Marcus Tiberius, um centurião romano e cliente de Maria Madalena, a semente de uma cria demoníaca que começa a rimar em suas falas. Com Simão Pedro cortando a orelha do centurião no Horto das Oliveiras e Jesus a curando e exorcizando a criatura, Veitch amarra dois dos maiores mitos ocidentais num único ato dramático que serve também como origem canônica de Etrigan dentro do Universo DC, ligando o personagem criado por Jack Kirby em 1972 diretamente a um dos momentos mais sagrados da tradição cristã. O contexto maligno por trás da morte de Jesus, com toda a sua engrenagem demoníaca, é excelente e aterrador, criando um engajamento real do leitor diante do que acontece, esperando novidades ocultas de um contexto amplamente conhecido.

O tratamento dado à figura de Jesus é, ao contrário do que a polêmica de 1989 dava a entender, de uma seriedade e de um respeito notáveis, e teria sido um verdadeiro marco se a editora tivesse publicado nos anos 80. Veitch não caricatura, não ironiza e não especula além do que o cânone permite, e o Jesus desta HQ medita, cura, expulsa demônios e age com a consciência de quem está se transformando antes do próprio sacrifício. O encontro do Pantanoso com Jesus é mostrado em diferentes etapas, com destaque para o Horto das Oliveiras, onde o Musguento chega carregando as memórias do químico Alec Holland (que era cristão), reconhece o que está diante de seus olhos e tenta intervir, sendo varrido de volta ao fluxo do tempo depois de um confronto que se encerra com a libertação espiritual do centurião. Há uma reflexão crítica, aqui, sobre sacrifício, amor, entrega e integração entre personagens que conseguem tocar o mundo da matéria e também os mundos além deste, uma espécie de colóquio de alquimistas, onde o Pantanoso é observador e interferidor menor, aprendendo também uma lição sobre a natureza do que veio ver.

Quando os quadrinhos se aproximam de figuras com peso de toda uma civilização, como Jesus ou qualquer personagem que um número suficiente de seres humanos trate como sagrado, o que está em jogo não é só liberdade criativa contra sensibilidade religiosa, mas a questão de saber se a ficção tem o mesmo direito que a literatura, o cinema ou a filosofia de lidar com o divino, o sagrado e a morte sem ser tratada como invasora de importante território alheio. A arte aqui é a expressão mais clara de que este projeto foi tratado com essa seriedade: Zulli era o mesmo artista que havia enviado para colorização as páginas de Despertar, arco final do Sandman de Neil Gaiman, e a mesma qualidade etérea que definia aquelas páginas aparece aqui, cheia de traços densos e um ar geral quase solene. A caminhada desta HQ, de um roteiro aprovado e depois enterrado, de um desenho feito e engavetado por décadas, circulando como lenda pela internet esses anos todos, mostra que o debate nunca foi sobre qualidade ou respeito, mas sobre a incapacidade de certos grupos de tolerar qualquer representação dos seus objetos de fé que não seja reverência pura, ainda que sejam exatamente os mesmos grupos que defendem, do alto de sua hipocrisia ridícula, uma suposta liberdade de expressão a todo custo — mas isso, aparentemente, é apenas quando o alvo é “o outro“. Ao ganhar a luz do dia, Morning of the Magician se mostra, vejam só, reverenciando o cânone que desconcertará quem esperava provocação pura. Para mim, é o tipo de abordagem boa o suficiente para ser levada a sério como criação artística legítima de uma figura religiosa ao lado de um Ser fictício que tem, por princípio, o respeito, cuidado e proteção da flora de todo o Universo. Só não vê beleza aí, quem não quer.

Monstro do Pântano 1989: Morning of the Magician — Swamp Thing 1989 (2026) #1 (EUA, 29 de abril de 2026)
Roteiro: Rick Veitch
Arte: Michael Zulli, Vince Locke
Arte-final: Michael Zulli, Vince Locke
Cores: Patricia Mulvihill
Letras: John Costanza, Todd Klein
Capa: Rick Veitch
Editoria: Karen Berger, Alex Galer, Chris Conroy
37 páginas



[Fonte Original]

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