Após um hiato de quase dois anos, o Brasil retomou visitas políticas à Venezuela e planeja promover no mês que vem uma missão do Itamaraty com empresários a Caracas. Três semanas atrás, foram abertos contatos exploratórios no terreno com o governo interino de Delcy Rodríguez, por uma autoridade enviada pelo Ministério das Relações Exteriores, pela primeira vez.
Com discrição, o governo Luiz Inácio Lula da Silva remeteu no fim de abril a Caracas o embaixador Laudemar Gonçalves de Aguiar Neto, secretário de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura do Itamaraty.
A decisão carrega simbolismo por duas razões. Aguiar exerce função com foco em promoção de comércio e não na relação estritamente política. Além disso, o momento em que a Secretaria de Estado decidiu realizar a viagem, enquanto paira uma dúvida sobre o grau de autonomia e legitimidade do governo Delcy, que substituiu o ditador Nicolás Maduro após uma operação militar americana. A presidente interina tem o apoio da Casa Branca e coopera abertamente com Donald Trump.
A viagem do enviado brasileiro ocorreu no terceiro mês após a captura de Maduro por uma operação militar dos EUA – a ação das Forças Armadas americanas foi duramente contestada pelo governo brasileiro.
A visita do embaixador Aguiar foi a primeira de uma autoridade despachada de Brasília desde julho de 2024, quando o ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial de Lula, e uma equipe de diplomatas visitaram Caracas para observar de perto as eleições fraudadas por Maduro para se manter no poder.
Após a fraude, Lula se distanciou de Maduro – um apoio histórico que se mostrava impopular em pesquisas de opinião – , mas não condenou publicamente a manobra chavista para se manter no poder, com a justificativa de que se trataria de uma questão interna venezuelana.
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Aguiar passou dois dias na capital venezuelana, em reuniões com integrantes do governo Delcy Rodríguez, empresários brasileiros e venezuelanos, e representantes de setores econômicos locais, como a Federação Venezuelana das Câmaras e Produção (Fedecámaras) e o Conselho Nacional de Comércio e Serviços. Ele participou acompanhado da embaixadora residente Glivânia Maria de Oliveira, que comanda a embaixada brasileira na Venezuela.
Segundo o Itamaraty, o “objetivo da visita foi identificar novas oportunidades comerciais e de investimentos, no contexto da recente evolução do cenário econômico venezuelano”.
Entre os dias 26 e 30 de abril, o embaixador manteve reuniões com ministros e vice-ministros de cinco pastas: Comércio Exterior; Relações Exteriores; Turismo; Transportes; e Ciência e Tecnologia.
Eles passaram uma visão de continuidade do regime Maduro, em que pese a agenda de reformas e de certa abertura política que atrai visitas diplomáticas, políticas e empresariais do Ocidente. Ela já recebeu o presidente colombiano Gustavo Petro e viajou a Granada, Barbados e aos Países Baixos. Delcy vem sendo elogiada por Donald Trump e foi convidada para uma visita à Casa Branca, em data a ser combinada.
O governo Delcy busca passar uma imagem de normalização e abertura, com libertação de presos políticos e visitas internacionais, e tenta atrair capital – apesar das sanções americanas ainda vigentes. Entre as principais mudanças legais, estão as reformas dos setor de petróleo e gás e da mineração.
O país acumula uma dívida da ordem de US$ 150 bilhões, dos quais cerca de 2% (US$ 1,8 bilhão) com o Brasil, fruto do não pagamento de antigos serviços de engenharia, principalmente as obras do metrô de Caracas.
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A União teve que acionar o Seguro de Crédito à Exportação, lastreado no Fundo de Garantia às Exportações, para cobrir calotes da ditadura da Venezuela em operações financiadas pelo BNDES.
Desde a reabilitação de Maduro promovida com um recepção dele no Palácio do Planalto, em 2024, o governo Lula tentou viabilizar a retomada de pagamentos. No entanto, os venezuelanos abandonaram a mesa de negociação criada entre as autoridades financeiras, na esteira do distanciamento político com Lula e do veto brasileiro ao ingresso da Venezuela no Brics.
Relatos de diplomatas dão conta de que os EUA mantém o controle de acesso a recursos e autorizam o ingresso de US$ 1,2 bilhão por mês nos cofres chavistas. Qualquer ambição de retomada nos pagamentos dependeria desse controle e de sanções de flexibilizações por parte do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac).
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O governo venezuelano reatou com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e os EUA retiraram parte das sanções, sobre Delcy e sobre o Banco Central da Venezuela.
Aguiar também esteve em seminários de investimentos, como o Caracas Investment Week, inclusive com empresas brasileiras, e outro com cerca de 40 brasileiros presentes, a maioria ligada a petróleo e gás e mineração. Entre eles, estavam executivos da J&F, da Maha Capital e da Alvorada Heavy Industries.
A J&F, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, possui interesse em adquirir um campo de petróleo, por meio da Fluxus, e se tornar em breve sócia da PDVSA na Petrolera Roraima. A negociação está avançada e encontros ocorreram três semanas atrás a respeito da aquisição do campo de petróleo.
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Nos seminários promovidos por Datanálisis e Orinoco Research, analistas compartilharam cenários sobre a situação política e econômica. Pesquisas mostradas a investidores revelam uma preocupação maior da população venezuelana com aumento de renda e queda da inflação, um foco na economia, do que com novas eleições, uma segunda demanda importante. Quem esteve em Caracas relata um clima generalizado de “otimismo”, parte dos empresários com mais cautela ou realismo, dadas as necessidades de reforma e investimentos na renovação da infraestrutura do país.
“Os brasileiros que chegarem agora vão ter mais oportunidades”, disse o embaixador Aguiar. “Obviamente há desafios e limitações por causa das sanções americanas, mas a roda está se movendo rapidamente. Há otimismo e o clima é positivo.”
O afluxo de visitas empresariais é constante, sobretudo dos EUA e de países europeus, além de colombianos. Enquanto o embaixador brasileiro visitava a capital, a empresa aérea American Airlines retomava os voos diários de Miami para Maiquetía, no Aeroporto Internacional Simón Bolívar.
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O Itamaraty planeja agora uma missão empresarial que deve espelhar a visita de Laudemar e também passar, além da Venezuela, por Suriname e Guiana. A janela provável é de meados de junho, em caráter exploratório com empresas brasileiras que não estão ainda presentes nesses mercados.
Como o Estadão mostrou, deputados da oposição conseguiram aprovar na Câmara a realização de uma visita parlamentar a Caracas. A iniciativa é liderada por Eduardo Pazuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro. No entanto, relatos obtidos pela reportagem dão conta de que a ideia teve pouca receptividade diplomática e política de autoridades chavistas para agendar e concluir a missão. Pazuello cobrava ação similar por parte do Itamaraty.