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segunda-feira, junho 8, 2026

Gueorgui Gospodinov: a perigosa caverna do tempo – Revista Cult

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Ganhador do International Booker Prize de 2023, o escritor búlgaro Gueorgui Gospodinov — já conhecido nos círculos de estudos eslavos e de línguas leste-europeias — aponta duas influências centrais em sua obra: as histórias que sua avó lhe contava quando era criança — “baba, como chamamos as avós em búlgaro”, explica — e os contos de Jorge Luis Borges.

Não apenas em sua obra, mas também na literatura contemporânea do Leste Europeu, a literatura fantástica latino-americana tem recebido especial atenção de autores como o romeno Mircea Cărtărescu, que teve seu livro “Solenoide” traduzido para o português no ano passado pela editora Mundaréu.

Em “Refúgio do Tempo”, lançado no Brasil pela Estação Liberdade, com tradução de Milena M. Mincheva, Gospodinov oferece aos leitores brasileiros mais uma amostra da força que a literatura fantástica tem adquirido mundo afora.

Para o autor, trata-se também de um retorno à narrativa, que implica um gesto fundamental em tempos de desinformação e polarização. “Se conseguirmos sobreviver em um mundo como o atual — um mundo de notícias falsas, pós-verdade, teorias conspiratórias e ideologias populistas — será porque conseguiremos desenvolver uma forma de pensamento crítico. E o desenvolvimento desse pensamento crítico começa pelo uso das palavras corretas e pela capacidade de contar as histórias certas”, afirma.

Em entrevista à Cult, Gospodinov comenta “Refúgio do Tempo”, a permanência do passado e da nostalgia na sociedade contemporânea, os usos políticos da memória e a importância da melancolia no mundo de hoje.

 

Logo no começo de Refúgio do tempo há uma menção a Gabriel García Márquez. Isso me fez pensar nos paralelos entre o realismo mágico latinoamericano e a recente literatura vinda do leste europeu que chega até nós, no Brasil – particularmente seus livros e os de Mircea Cărtărescu. Você enxerga essa aproximação? A literatura latinoamericana é importante na formação da sua linguagem?

Sim, se você me perguntar quais foram os autores que realmente moldaram a minha escrita, eu diria que duas pessoas cujos nomes começam com a letra B: Borges e minha avó. Em búlgaro, chamamos a avó de baba. Então, minha avó e Borges. E também Márquez, é claro, foi muito importante para a minha escrita.

Há algo em comum entre eles na maneira de contar histórias. Refiro-me à forma de narrar das pessoas mais velhas, dos nossos antepassados do século 20, e também à maneira como os idosos do meu país e da minha família gostavam de contar histórias.

Eu era completamente apaixonado por essa forma de narrar. Era como um labirinto. Você começa em um ponto, depois para, passa a falar de algo completamente diferente, e então retorna à história principal.

Lembro-me claramente das histórias da minha avó, que eram uma mistura de magia e cotidiano. Era uma espécie de realismo mágico nativo. Ela sempre contava histórias sobre animais míticos que viviam atrás da casa.

Também falava sobre um vizinho nosso que tinha algo parecido com asas debaixo dos braços e possuía um superpoder mágico. Quando éramos crianças, meu irmão e eu sempre tentávamos observá-lo pela janela quando ele se despia, tentando enxergar essas asas.

Isso foi muito importante para mim e para a minha escrita: essa mistura delicada e muito natural entre a vida cotidiana e o sublime. Vivi durante o período do sistema comunista totalitário, portanto, essa maneira de pensar — porque é uma forma de pensar e também uma forma de escrever — era, de certa maneira, uma reação ao realismo socialista.

Era uma forma de alcançar um tipo diferente de realidade — uma realidade da qual nós precisávamos.

 

Em seus livros, os conflitos bélicos atuais parecem ocupar um lugar muito importante. “O mundo parece caminhar cegamente para o abismo”, como você declarou em uma palestra na santa magdalena foundation. Como e por que continuar a fazer literatura nesse mundo?

A narrativa — o ato de contar — é importante porque cria empatia, pois, quando você conta a história de alguém, ou quando conta sua própria história para outra pessoa, ou ainda quando pede a alguém que conte a sua história para você, torna-se muito mais difícil ferir o outro.

Se conseguirmos sobreviver em um mundo como o atual — um mundo de notícias falsas, pós-verdade, teorias conspiratórias e ideologias populistas — será porque conseguiremos desenvolver uma forma de pensamento crítico. E o desenvolvimento desse pensamento crítico começa pelo uso das palavras corretas, pela capacidade de contar as histórias certas, e de recapturar aquilo que nos foi tomado pela propaganda.

Em suma, me interessa apontar a diferença entre a boa literatura e a propaganda: a literatura permanece sempre ao lado da humanidade; a propaganda, por sua vez, se alimenta dela. A propaganda tenta polarizar. Procura convencer de que você deve odiar o outro: outra sociedade, outro grupo. Acredito que a literatura seja o antídoto contra a propaganda, pois ela cria memória.

A memória é essa linha vermelha que conecta o passado ao presente. E estamos vivendo hoje em um mundo que já não sabe muito bem onde essa linha está. Quero dizer: o passado invadiu o presente.

Os populistas utilizam o passado como instrumento de propaganda. Mais do que isso: prometem-nos um futuro que, na verdade, é apenas um passado disfarçado.

 

Você escreve em Refúgio do tempo que o passado pode se tornar “um órgão atrofiado”, que deve ser extirpado. Ao mesmo tempo, parece que o presente vive obcecado pela nostalgia. Você acredita que hoje sofremos menos por excesso de futuro e mais por excesso de passado?

Sim. Em Refúgio do tempo eu tentei entender por que isso acontece. A resposta é clara: se vivemos em um presente estressante, cheio de medos, e se o futuro também está cheio de medos e de expectativas negativas, resta apenas uma direção para caminhar: voltar-se para o passado e procurar nele uma caverna, um abrigo.

Pessoalmente, sou bastante nostálgico. Por isso não foi fácil escrever esse romance. Mas eu o fiz, pois acredito que a nostalgia não pode ser apropriada pelos nacionalistas, políticos ou populistas. Por isso, procurei explicar como a nostalgia pode se tornar perigosa.

Todos nós somos nostálgicos. Acho que cada um de nós retorna ao seu passado pessoal duas, três ou cinco vezes por dia. O problema surge quando alguém tenta inventar uma nostalgia coletiva para toda a sociedade e seduzí-la para essa caverna do passado.

 

Penso que a Bulgária e outros países do bloco socialista vivem uma relação muito peculiar com o passado. Essa relação ambígua com a história se reflete de que forma na sociedade búlgara? 

Heráclito dizia que nunca se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Hoje, infelizmente, somos capazes de reinventar e reencenar o passado muitas vezes. Podemos ter as mesmas guerras duas, três ou quatro vezes. Esse é um dos problemas da história.

A questão da história está muito próxima da questão do nacionalismo. Muitas vezes reinventamos o passado e o transformamos numa fonte de identidade nacional — ou melhor, de nacionalismo. Talvez porque nos sintamos perdidos por não sabermos exatamente quem somos. Essa incerteza pode ser facilmente explorada.

É nesse momento que surgem discursos que afirmam: “Somos a maior nação do mundo”, “Somos o povo mais inteligente”, “Fomos os primeiros nisso ou naquilo”. O problema começa quando esse passado inventado passa a ser apresentado como futuro. Diz-se às pessoas que elas voltarão a ser felizes, voltarão a ser grandiosas, recuperarão aquilo que supostamente perderam. Em outras palavras, promete-se um futuro que é apenas uma versão idealizada do passado.

A parte búlgara de Refúgio do tempo trata justamente dessa relação complicada com a história. Quando uma sociedade entra em crise e a ideologia deixa de funcionar — como aconteceu nos últimos anos do comunismo —, torna-se evidente que o sistema já não consegue sustentar a si mesmo. Nesses momentos, o último refúgio dos sistemas falidos costuma ser o nacionalismo.

Me parece que esse mesmo mecanismo volta a operar hoj. Não apenas na Europa, mas em diferentes partes do mundo.

 

Você é um escritor conhecido por atribuir uma importância particular à melancolia em sua obra. Gostaria de entender se existe algo politicamente importante na melancolia para você? Hoje somos constantemente pressionados à produtividade, à velocidade e ao otimismo. Sua literatura parece defender algo diverso disso.

A tristeza é uma condição humana. Faz parte de nossos corpos e mentes. Vivemos em uma época que se afirma positiva demais, mas, ao mesmo tempo, é um mundo tão triste que qualquer pessoa minimamente sensível deveria sentir alguma melancolia diante dele — pelas guerras, pelo sofrimento dos outros e por si mesma.

Quando comecei a escrever The Physics of Sorrow, tentei compreender um tipo de tristeza especificamente búlgara. Costumo compará-la à saudade portuguesa e ao sentimento denominado hüzün em turco, mas há uma diferença importante. Saudade e hüzün são, em certa medida, tristezas de impérios que perderam aquilo que possuíam. A tristeza búlgara é a tristeza por um mundo que nunca chegamos a possuir.

Durante o comunismo, por exemplo, não podíamos viajar para o Ocidente. O mundo existia sobretudo na nossa imaginação. Meus pais nunca estiveram em Paris ou Roma, mas falavam dessas cidades com uma espécie de ternura melancólica. Por isso digo que existe uma tristeza búlgara de segundo grau: a nostalgia por lugares que você nunca visitou e sabe que talvez jamais visite.

Mas a melancolia que mais me interessa talvez não seja exclusivamente búlgara. É a melancolia pelas coisas que nunca aconteceram — na vida de uma pessoa, de uma sociedade ou de um país. Muitas vezes, aquilo que não aconteceu nos molda mais profundamente do que aquilo que aconteceu. A história búlgara está repleta dessas possibilidades interrompidas, desses acontecimentos não realizados. Temos um verdadeiro tesouro de coisas que nunca aconteceram.

Há ainda outra fonte de tristeza, intimamente ligada a essa: as histórias que nunca ousamos contar. As histórias não vividas e as histórias não contadas estão profundamente conectadas. Ambas produzem uma espécie de vazio que continua a nos acompanhar.

Espero que The Physics of Sorrow também seja publicado no Brasil. Ficaria muito feliz em colocar a tristeza búlgara em diálogo com a tristeza brasileira e descobrir o que elas têm em comum.

 

Ao longo de toda a história do Brasil, dizia-se que nós seríamos um país do futuro, mas esse futuro nunca chegou…

Durante o comunismo, sempre nos prometiam que o verdadeiro comunismo chegaria no futuro. Mas esse futuro era constantemente adiado. Por isso aprendi uma lição simples: desconfie de quem promete o futuro. Quase sempre essas promessas servem mais para justificar o presente do que para construir algo novo.

 

Que importância você atribui à literatura e à narrativa em um mundo em que parece que apenas trocamos monólogos e gritamos uns para os outros?

De certa forma, a literatura é uma espécie de cola. Ela mantém o mundo unido e impede que ele se desintegre. As histórias ajudam a preservar a integridade da nossa experiência e a manter alguma ideia de totalidade em um mundo cada vez mais fragmentado.

Por isso acredito que a literatura pode — ou deveria — ter um grande futuro. Não estou prometendo isso, porque já aprendemos a desconfiar de quem promete o futuro. Mas acredito que ela se tornará cada vez mais importante.

As novas guerras são travadas nas histórias e nas palavras. São guerras de narrativas, de versões concorrentes da realidade. Nesse contexto, a literatura pode funcionar como um escudo contra a simplificação do mundo e contra os novos drones da propaganda.

 

Você está trabalhando em algum novo livro ou projeto?

Sim, acabei de começar um novo romance. No início, escrever um livro é como criar um mundo. Nada está completamente claro. É preciso separar o dia da noite, decidir o que será a terra, o que será a história, o que pertencerá a esse universo.

Ainda não posso dizer muita coisa sobre o romance. Mas há algo que já encontrei: a voz do livro. A voz do narrador. E isso é muito importante para mim. Quando encontro essa voz, sinto que o livro começou a existir.

 



[Fonte Original]

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