A série Half man (HBO Max), do ator e roteirista Richard Gadd, teve seu último episódio exibido no final de maio. A produção é do mesmo criador do aclamado e autobiográfico Bebê rena (2024). Nesse novo trabalho, o artista nos apresenta uma releitura do status quo do paradigma da masculinidade. Não se trata de uma releitura comum; ao longo dos episódios, percebe-se que Gadd revela em sua dramaturgia algo que se desdobra no lado oposto de seus personagens, como se, aos poucos, pequenas granadas explodissem dentro de suas mentes, numa mistura constante de pólvora e poesia. Essa intensidade lembra a estranha e familiar visceralidade presente em Uma temporada no inferno, de Arthur Rimbaud (1873), especialmente no contexto de sua relação com Verlaine.
Niall e Ruben crescem juntos como irmãos; suas mães, Lori e Maura, formam um casal abertamente homoafetivo. O embaraço começa quando Ruben, após sair de uma instituição para jovens infratores, volta a morar na mesma casa e a estudar no mesmo colégio que Niall e, paradoxalmente, para esgarçar e aproximar ainda mais a relação de ambos, eles acabam dividindo o mesmo quarto. Há, nessa relação, um faiscar constante de pulsão e repulsa homoerótica, na qual a homofobia de ambos se emancipa no lado principal de seus avessos. São dois homens condenados a se atravessar continuamente, da adolescência à vida adulta; se arranham, se batem, se quebram, numa ânsia constante de se devorarem.
Enquanto Niall, o irmão aparentemente certinho e estudioso, conquista uma vaga na universidade, Ruben permanece na vida errante até que uma tragédia os separa novamente. Niall não contava que, ao convidar Ruben para passar uns dias na residência universitária, perderia a oportunidade de viver sua primeira experiência afetiva com outro homem. Seu irmão esmaga o rosto de seu colega e regressa, mais uma vez, ao sistema prisional. Isso se tornará uma constante na vida dos dois: entre idas e vindas mediadas por violência extrema, destruição mútua alimentada por desejo, ódio e aversão, eles fracassam na tentativa de apagar as fronteiras entre si.
Ruben dilacera brutalmente todos os que se arriscam a ultrapassar, mesmo que minimamente, seus pequenos limites. Age como se tivessem roubado um traço determinante de sua identidade, como se faltasse a metade de quem ele é, do que o constitui como homem, no sentido antiquado do termo. Por isso, qualquer sujeito que atravesse seu espaço estaria na iminência de ser aniquilado por seus atos impensados, pelo extravasamento de sua força bruta – nada muito distante da extensão das ruínas da virilidade, já amplamente conhecidas. A sensação é a de que tanto Niall quanto Ruben buscam reaver um padrão imaginário – ou melhor, imaginado – daquilo que eles não são, daquilo que nunca foram. Como numa espécie de Ecce homo nietzschiano, eles não se percebem naquilo que sempre foram ou fingem não saber que se tornaram aquilo que já eram.
O mais irônico nesse cenário é que os dois aparentam ter consciência e clareza de que lutam contra os próprios demônios. Não se trata de uma briga com o corpo social, com a moralidade ou com os estigmas religiosos que sentenciaram padrões de conduta de gênero, mas com o reconhecimento daquilo que eles próprios não suportam admitir em si. Como disse Caetano Veloso em sua canção “Dom de iludir”: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Trata-se, sobretudo, de um dom de autoilusão heteropatriarcal, mais comum do que se imagina.
Ruben materializa esse impasse em sua forma mais cruel. Mesmo sabendo ser infértil, sonha em ser pai para tentar corrigir o mal que seu pai lhe causou ao abusá-lo na infância e ao fazê-lo carregar a culpa por ter se excitado. Mas o pai de seu filho é seu irmão Niall, que acabou engravidando sua cunhada. A trama se estilhaça e se reconstrói o tempo todo, assim como os dois protagonistas, que tentam edificar o impossível: ser homem por inteiro. E o que é ser homem por inteiro? Ou será que a tragédia consiste justamente em perseguir uma inteireza que nunca existiu?
Um dos momentos mais impactantes de Half man ocorre no último episódio, quando os irmãos, na penitenciária, abrem seus cadernos secretos e expõem as próprias chagas entre soluços, risadas e choros intensos. É ali, frente a frente, separados apenas pelo vidro da sala de visitas, que Niall, ao se declarar gay, recebe de seu “meio-irmão” uma resposta desconcertantemente indiferente: “Não sinto nada”; “Por que eu ligaria?”; “Temos mães sapatões”; “Esse problema é seu, não tem nada a ver comigo”; “Sabe quem era o homofóbico na sua vida? Vou te contar: você”; “Desperdiçou sua vida dançando conforme a música dos outros, mas você nunca teve muito ritmo”.
Então, Niall pergunta: “Você não está bravo?”. E Ruben responde: “Não. Estou orgulhoso”.
Aqui parece haver uma trégua, uma possibilidade de reconciliação, mas ela dura pouco. Na sequência, Niall revela que é o pai biológico do filho de Ruben. A cena seguinte mostra os dois caídos no chão do celeiro, no dia do casamento de Niall, sugerindo que, enfim, o ciclo de violência entre eles chegou ao fim com a morte de Niall. Contudo, em outro episódio, a série indica que Ruben também morre. A questão permanece em aberto até a cena final, pois, durante a luta entre os dois, Niall, antes de morrer, esfaqueia o irmão no quadril.
A ambiguidade do desfecho parece menos interessada na morte de um dos irmãos do que no fracasso de ambos. Afinal, a tragédia não consiste em perder o outro, mas em descobrir que ele sempre esteve dentro de si. Como sugere Rimbaud, o eu é um outro; e Niall e Ruben passam a vida inteira tentando destruir justamente aquilo que os constitui.
Eduardo Reis é professor no curso de Cinema do Centro Universitário Jorge Amado (BA), especialista no cinema de Pedro Almodóvar e doutor em Artes Cênicas (UFBA, 2025). Pesquisador, dramaturgo e diretor, atua nas áreas de teatro, literatura e crítica cultural.