Gostem ou não dele (e eu gosto bastante), Kevin Smith é o nerd dos nerds que, ao longo de sua vida, materializou todos os sonhos de um nerd: construiu seu próprio universo cinematográfico antes disso virar moda, escreveu e dirigiu filmes fora desse universo, atuou em alguns, criou personagens inesquecíveis, escreveu quadrinhos para terceiros além de para seu selo próprio, o Secret Stash Press, produziu séries animadas, é anfitrião de podcasts e de reality shows, além de ser dono de uma famosa loja de quadrinhos e, recentemente, de um cinema de rua. Suas criações mais famosas, os inseparáveis vagabundos drogados inúteis Jay e Silent Bob, que originalmente deram as caras em seu primeiro longa-metragem, O Balconista (Clerks), de 1994, e ganharam as feições e os trejeitos imbatíveis de Jason Mewes (Jay) e do próprio Smith (Silent Bob), já protagonizaram HQs próprias e já deram as caras, como easter eggs, em diversas publicações da Marvel Comics, mas o one-shot sob análise marca a primeira vez em que eles efetivamente fazem um crossover com o Universo Marvel.
Como Smith diz no final do one-shot, essa é a realização de um sonho que foi discutido pela primeira vez com o próprio Stan Lee, quando Smith filmava sua participação em Barrados no Shopping (Mallrats), em 1995: Jay e Silent Bob, mesmo que muito rapidamente, compartilham as mesmas páginas que célebres heróis e vilões da Casa das Ideias em um crossover bizarro que lembra coisas talvez ainda mais bizarras que aconteceram, como quando a banda Kiss lutou contra o Doutor Destino lá atrás, em 1977. E a citação ao crossover com a banda de roqueiros com os rostos pintados em questão não é sem querer e o próprio Smith a menciona, pois a premissa de sua história é justamente o Doutor Destino, depois de um encontro com Kang, saindo para caçar Jay e Silent Bob em New Jersey em razão do que eles podem representar para a linha temporal do universo. A lógica por trás da premissa é rasteira até não poder mais, só que ela não importa de verdade. O que vale é a execução e Kevin Smith muito claramente se divertiu demais escrevendo um roteiro que não passa de uma infinidade de referências e citações a praticamente o que deu na telha, algumas funcionando bem, outras não, mas todas criando a irreverência necessária para uma história em que Jay e Silent Bob são praticamente observadores da pancadaria que come solta ao redor.

Usando trocadilhos mil, piadinhas infames, brincadeiras óbvias e outras nem tanto, tiradas de sarro, correlações enlouquecidas e tudo o mais que sua mente conseguiu espremer em uma edição única, Jay & Silent Bob: Jays de um Futuro Esquecido (minha tradução ruim para o título tirado do clássico arco dos X-Men, Dias de um Futuro Esquecido ou Days of Futures Past), Kevin Smith escreve o que basicamente é um “não-roteiro” que existe apenas na base do porque sim ou, talvez mais claramente afirmando, porque a Marvel, hoje em dia, parece estar particularmente aberta a todo tipo de crossover, vide os com Godzilla, Predador e Alien, o que, convenhamos, não é uma exclusividade da editora, já que vivemos em uma era em que isso, ao que tudo indica, virou regra e não mais a exceção. Mas a vantagem de Jays de um Futuro Esquecido é que o one-shot é uma bobagem completa que sabe muito bem que é uma bobagem completa, o que gera um nível de descompromisso tão grande que sua apreciação se torna fácil, algo que amplificado pela arte de qualidade acima da média de Giuseppe Camuncoli, que se aproveita do espaço para fazer páginas inteiras e páginas duplas vistosas que parecem idiossincráticas justamente por ter o falastrão Jay e o silencioso Bob em algum canto e, também, para recriar momentos icônicos na história da editora.
No final das contas, Kevin Smith não só sabe escrever quadrinhos, como sabe muito bem ser escrachado com o conhecimento que tem da indústria, pelo que, mesmo descontando a besteirada toda, o resultado final é exatamente o que se pode esperar de uma HQ dessas, ou seja, nada mais do que algumas páginas divertidas que capturam a essência dos personagens que retrata, mas que não tem vergonha alguma de esculhambar com todos eles, com direito a um final que provavelmente todos os leitores reconhecerão como uma bem dada estocada na premissa particularmente idiota de um razoavelmente recente filme do Universo Cinematográfico Marvel e que funciona muito melhor aqui do que lá. Não sei se o projeto de Smith e da Marvel é fazer desse acontecimento algo recorrente, pois eu confesso, também sem vergonha alguma, que eu leria com prazer, mesmo que seja um Jay & Silent Bob Destroem o Universo Marvel!
Jay & Silent Bob: Jays de um Futuro Esquecido (Jay & Silent Bob: Jays of Future Past – EUA, 2026)
Roteiro: Kevin Smith
Arte: Giuseppe Camuncoli
Arte-final: Cam Smith, Roberto Poggi
Cores: Marcio Menyz, Erick Arciniega
Letras: Travis Lanham, Joe Sabino
Editoria: Kaeden McGahey, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora: Marvel Comics, Secret Stash Press
Data original de publicação: 10 de junho de 2026
Páginas: 44