Quando Entourage estreou na HBO em 2004, poderia facilmente ter sido apenas mais uma fantasia masculina sobre fama, dinheiro e mulheres bonitas. A premissa, afinal, parece saída de um desejo adolescente: um jovem astro de Hollywood vive cercado pelos melhores amigos de infância, circula por festas exclusivas, encontra celebridades a cada esquina e transforma praticamente qualquer problema em uma oportunidade. O curioso é que a série entende perfeitamente essa superficialidade e, desde cedo, encontra algo mais interessante escondido sob ela com quatro amigos caminhando em um novo mundo.
O grande acerto da temporada está justamente na dinâmica coletiva, com alguns elementos baseados na vida de Mark Wahlberg, que serve de produtor no projeto. Vince Chase (Adrian Grenier), o superastro que arrasta o grupo para todo lado é, paradoxalmente, o personagem menos interessante. Sua função narrativa é quase gravitacional, sendo o centro ao redor do qual todos os outros orbitam. Quem realmente movimenta a série são Eric, Turtle e Drama. Eric Murphy (Kevin Connolly) funciona como a consciência pragmática da história, constantemente dividido entre a lealdade ao amigo e a necessidade de protegê-lo de decisões impulsivas. Turtle (Jerry Ferrara) é um sujeito que está vivendo um sonho que jamais teria alcançado sozinho, se aproveitando de cada segundo. Já Johnny Drama (Kevin Dillon) é um ator que teve algum sucesso, mas que agora observa o irmão mais novo se tornar exatamente aquilo que gostaria de ser, com a série extraindo boa parte de seu humor dessa insegurança permanente.
A tensão entre sucesso e fracasso atravessa praticamente toda a temporada. Embora a série seja frequentemente lembrada pelas festas, pelos carros e pelas participações especiais, o roteiro de Doug Ellin demonstra uma percepção bastante afiada sobre a instabilidade de Hollywood. Vince é tratado como a grande promessa do momento, mas basta uma crítica negativa, uma escolha errada de projeto ou um agente rival para que tudo pareça ameaçado. É aí que Ari Gold entra em cena.
Jeremy Piven praticamente rouba a temporada inteira. Ari poderia ser apenas o típico agente explosivo e sem escrúpulos, mas a interpretação transforma o personagem numa força caótica irresistível. Cada aparição dele adiciona energia à narrativa. Ari é a personificação de Hollywood como máquina de pressão: agressiva, manipuladora, competitiva e permanentemente obcecada pelo próximo negócio. O interessante é que, apesar de seus excessos, o personagem raramente é tratado como um vilão. A série compreende que Ari faz parte do ecossistema que sustenta Vince.
Narrativamente, a primeira temporada funciona quase como uma coleção de pequenos episódios sobre a vida de celebridades. Não há um grande arco dramático dominante como em muitos dramas televisivos da época. Em vez disso, acompanhamos encontros, audições, festas, romances passageiros, negociações de carreira e conflitos profissionais relativamente modestos. Em outra série, isso poderia gerar uma sensação de vazio. Em Entourage, funciona porque o foco nunca está realmente nos eventos, mas nas reações do grupo diante deles.
Existe uma naturalidade muito grande nos diálogos. Os episódios frequentemente parecem menos preocupados em construir grandes viradas e mais interessados em observar a convivência desses quatro amigos. É quase uma sitcom disfarçada de drama hollywoodiano. A amizade entre eles é o verdadeiro motor da série, e talvez seja por isso que a temporada continue funcionando mesmo quando suas histórias individuais são relativamente simples.
Visualmente, Entourage também revela uma identidade muito clara desde o início. A direção aposta em um estilo leve, ágil e quase documental. As câmeras acompanham os personagens pelas ruas de Los Angeles, por restaurantes, eventos e estúdios como se estivéssemos caminhando ao lado deles. Há uma sensação constante de movimento. A fotografia ensolarada ajuda a vender a ideia de uma Hollywood idealizada, mas sem transformar a cidade em um cartão-postal artificial.
Outro elemento importante é o uso das participações especiais. Celebridades interpretando versões de si mesmas poderiam soar como puro exibicionismo, mas a série utiliza esses encontros para reforçar a impressão de que estamos observando os bastidores de um universo inacessível. A presença de figuras conhecidas não serve apenas como fan service, ajudando a construir a atmosfera que torna Entourage tão específica.
Em alguns momentos, a própria estrutura episódica faz com que certos conflitos desapareçam tão rapidamente quanto surgem, reduzindo o peso dramático de algumas situações, e gerando às vezes uma sensação de repetição ou superficialidade. Ainda assim, a primeira temporada de Entourage possui um charme difícil de reproduzir. Talvez não seja um grande estudo sobre Hollywood, mas é um retrato surpreendentemente eficiente sobre o que acontece quando o sucesso de uma pessoa passa a definir a vida de todas as outras ao seu redor. E é essa dinâmica que transforma uma fantasia de celebridade em algo muito mais duradouro e divertido do que parecia ser.
Entourage – 1ª Temporada | EUA, 2004
Criação e desenvolvimento: Doug Ellin
Direção: Julian Farino, David Frankel, Adam Bernstein, Dan Attias
Roteiro: Doug Ellin, Larry Charles, Rob Weiss, Stephen Levinson
Elenco: Kevin Connolly, Adrian Grenier, Kevin Dillon, Jerry Ferrara, Jeremy Piven, Debi Mazar, Perrey Reeves
Duração: 214 min. (08 episódios)