O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% no primeiro trimestre do ano, em relação ao último trimestre de 2025, reagindo à estagnação do fim de 2025. O resultado reflete os estímulos oficiais à demanda, convergindo para uma alta de 1,8% em relação ao mesmo período do ano passado e de 2% na comparação de quatro trimestres contra quatro anteriores. Em um ano eleitoral, o governo federal tem trunfos nas mangas: na comparação trimestre contra trimestre, a economia cresce 1,8% ao ano, de forma estável desde meados de 2025. A percepção de redução do ritmo de expansão das atividades é baixa, enquanto o desemprego aumentará pouco e gradativamente. Boa parte das consultorias, em função do desempenho do primeiro trimestre, elevou a previsão de expansão da economia para perto dos 2,3% registrados no ano passado.
Para além do período eleitoral, o PIB do primeiro trimestre não traz muitas boas notícias. Embora a letargia do fim de 2025 tenha ficado para trás, a tendência geral é de desaceleração. Além disso, a inflação, que a política fiscal expansionista alimenta, está em alta e poderá surpreender.
O PIB do primeiro trimestre cresceu até mais do que o esperado porque o resultado do último trimestre do ano passado foi reestimado para cima (0,3% ante 0,1%).
O fiel da balança é o consumo das famílias, quando se considera a demanda da economia. Ele aumentou 1% no início do ano, depois de magro 0,2% nos três meses finais de 2025, segundo cálculos de Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs. Com isso, a demanda doméstica, em que aos itens convencionais se acrescenta a variação de estoques, aumentou 1,3%, bem acima do 0,3% do trimestre anterior.
O espelho da demanda doméstica é, em termos de oferta, a evolução do setor de serviços, ambos responsáveis por mais de dois terços da performance do PIB, e, na ponta, ela melhorou seu desempenho. Refletindo o investimento no futuro, em especial nos serviços digitais, informação e comunicação cresceram 2,4%. Outras atividades de serviços, item que contempla oferta ligada mais diretamente ao aumento da renda da população, avançou 0,8% nessa comparação e 2,4% em relação ao mesmo trimestre de 2025. Dessa forma, o valor adicionado dos serviços cresce hoje ao mesmo ritmo do início de 2025, e o consumo das famílias refluiu, mas não muito, para 1,7%, ante 2,2% no início do ano passado.
Mais importante para o futuro da economia é a relação entre os investimentos (formação bruta de capital fixo) e a taxa de poupança. Na perspectiva de curto prazo, os investimentos cresceram 3,5%, revertendo queda de igual magnitude (3,4%) em fim do ano passado. Esse indicador, porém, é menos animador em prazos mais longos. Quando se consideram quatro trimestres em relação aos anteriores, a desaceleração é preocupante e ocorre há cinco trimestres consecutivos. O crescimento desaba de 8,4% nos primeiros três meses de 2025 para 0,4% em idêntico período de 2026. Com variações bens mais suaves, o desaquecimento ocorre no consumo das famílias (4,4% ante 1,2%) e serviços (3,4% e 1,8%, respectivamente).
Maus presságios decorrem ainda da queda simultânea da taxa de investimentos e de poupança da economia. Ambas sempre foram baixas, muito aquém do necessário para impulsionar um crescimento robusto e sustentável, como o dos países emergentes que têm maiores e constantes taxas de expansão. Ambas deveriam evoluir acima pelo menos de 20% do PIB, mas desde o início da década passada ficaram bem abaixo disso no país. No primeiro trimestre de 2025, a taxa de investimentos foi de 17,5%, caindo para 16,5% agora. No caso da poupança, o recuo é de 15,8% para 15,5% do PIB.
Os estímulos do governo alimentam a inflação porque o consumo continua crescendo a uma velocidade bem superior à dos investimentos que ampliarão a capacidade produtiva para atendê-lo. Alguma defasagem temporal sempre ocorre, mas no longo prazo a relação explica em parte por que a inflação reluta em cair e a produtividade brasileira continua sendo muito baixa. Tomando por base o ano de 1995, as despesas de consumo das famílias subiram, do primeiro trimestre de 2013 até o primeiro de 2026, perto de 17%, enquanto os investimentos declinaram 3%.
O comportamento do consumo das famílias e dos serviços hoje define o ritmo da economia e também o da inflação. O de serviços avança 6,2% ao ano (dado de abril), o dobro da meta de 3% que o Banco Central persegue. O aumento da renda das famílias, impulsionado pelo baixo desemprego e os reajustes reais de salários, fez com que o item “outras atividades de serviços”, que espelham diretamente o maior poder aquisitivo, fosse um dos que mais crescem no segmento, ao lado dos serviços de informação e comunicação, que, por seu lado, indicam gastos para ampliar a produtividade.
O desempenho do PIB sugere assim mais um “voo de galinha” à frente. Sem ampliação de investimentos, hoje impossível diante de taxas de juros muito elevadas e do estoque da dívida pública em marcha acelerada, as consequências serão mais inflação e, mesmo com estímulos, menor crescimento.