Nesta quinta-feira (18), dia em que apresenta sua nova sede a jornalistas (funcionários irão para lá na semana que vem), o QuintoAndar anuncia um investimento de R$ 2 bilhões em tecnologia. A gestão parece ter poucas dúvidas sobre o que esperar desse Capex, que será despendido em dois anos – ou nenhuma dúvida.
O CEO do QuintoAndar, Gabriel Braga, destaca que a esmagadora maioria desse montante de R$ 2 bilhões será direcionado para inteligência artificial (IA), visando aumento de eficiência e competitividade.
A tese é de que IA deve proporcionar dois principais ganhos globais para a empresa.
O primeiro, em UX, com um assistente mais moderno e funcional, novas features e uma eventual reformulação do aplicativo – algo antecipado na coletiva e que “ainda está no forno”, segundo os executivos.
O segundo, é o de aumentar a liquidez e aquecer ainda mais o mercado imobiliário, tanto no aluguel de imóveis quanto na compra e venda, dado que a empresa atua nas duas pontas.
Nesse sentido, a expectativa é de que os investimentos em tecnologia possibilitem um aumento substancial nas transações, inclusive ao facilitar o encontro e o fechamento do negócio entre locatários e locadores, ou proprietários e compradores.
“A IA junta as peças do quebra-cabeça e faz o mercado girar mais rápido”, defende Braga.
“Hoje 80% do nosso código já é feito com IA, a produtividade dos engenheiros está de 3 a 5 vezes maior, e a velocidade com que lançamos novas features e melhoramos os produtos acelerou e vai acelerar nos próximos tempos (…) não tenho muita dúvida sobre o retorno desse investimento.”
Na visão do executivo, ao ajustar as engrenagens da plataforma com melhorias de IA, os clientes devem ter uma percepção melhor sobre preços e demais variáveis relevantes que são analisadas na hora de fechar um negócio.
“A sensação de ‘estou fazendo um bom negócio’ é importante, e a IA vai aumentar isso.”
IA como catalisador para mais velhos e consumidores offline – e não o contrário
Em se tratando da questão geracional, a companhia acredita que IA deve aproximá-la de quem ainda não é tão adepto à tecnologia, e não o contrário.
“Queremos aumentar o mercado endereçável. O fato de sermos digitais pode ser uma barreira, intimida um pouco os clientes de mais idade, ou com um viés offline, mas acreditamos que a IA é mais amigável. Não é mais aquele bot meio duro de fazer funcionar. IA dá mais segurança”, diz Braga.
O tema ainda segue em discussão no mercado, dado que o boom da IA é relativamente e bastante recente.
A American Association of Retired Persons (AARP), maior organização de defesa dos direitos de pessoas acima de 50 anos nos EUA, com mais de 38 milhões de membros, mostrou, em sua edição mais recente, que o uso de IA entre adultos acima de 50 anos quase dobrou, saltando de 18% em 2024 para 30% em 2025.
Do total que já usa IA, 58% interagem com plataformas ou aplicativos específicos de inteligência artificial.
Um estudo publicado na JMIR AI, revista científica revisada por pares focada nas aplicações de inteligência artificial e machine learning, aponta que a IA possui grande potencial para melhorar o bem-estar digital dos idosos, mas esse potencial ainda não é plenamente explorado devido à menor maturidade da área e à fragmentação da pesquisa.
Os pesquisadores da Ariel University, de Israel, e da Universidade de Lisboa, em Portugal, sinalizam que investimentos e políticas públicas devem redobrar a atenção ao tema, provendo padrões de design inclusivos, alfabetização digital, maior colaboração internacional e supervisão ética das aplicações de IA.
Na visão da proptech, a IA também não deve substituir o corretor de imóveis, mas sim redesenhar o trabalho desses profissionais.
“Com a IA, o corretor já é dez vezes mais produtivo. Com um assistente virtual, no futuro, isso vai ainda mais além. IA vai turbinar muito mais o corretor do que substituí-lo”, defende o CEO.
Os R$ 2 bilhões também devem fortalecer os laços com imobiliárias locais, players os quais a companhia mantém como parceiros desde meados de 2022, via modelo de marketplace.
Nos moldes atuais, as imobiliárias continuam responsáveis pela captação dos imóveis e pelo relacionamento com os proprietários, enquanto utilizam a plataforma do QuintoAndar para ampliar a visibilidade dos anúncios e acessar uma base maior de compradores e inquilinos.
Os imóveis captados pelas parceiras são integrados ao sistema da empresa, permitindo que as negociações, visitas, propostas e boa parte da jornada comercial ocorram dentro da infraestrutura tecnológica da empresa – que fica com uma parte da comissão pelo negócio.
A estratégia escalou e se consolidou como uma das principais frentes de expansão do QuintoAndar, que agora reúne uma rede de centenas de imobiliárias parceiras e oferece acesso a um estoque superior a 250 mil imóveis, além de ferramentas de gestão, compartilhamento de negócios e comissionamento progressivo.
“A expansão geográfica, tanto no aluguel quanto na venda, é bem importante para nós. É uma das prioridades, e fazemos isso muito em parceria com as imobiliárias. Hoje nossa operação é mais focada em São Paulo, mas já estamos presentes em várias regiões que ainda são emergentes”, diz Braga.
Com a IA aumentando o potencial de transações, a companhia defende que haverá um ganho indireto para as imobiliárias.
A nova casa do QuintoAndar
Com a mudança de escritório, a proptech sai da Vila Madalena e vai para a Vila Leopoldina. A companhia agora centraliza suas operações em um imóvel horizontal, com lajes de 7 mil metros quadrados, de propriedade da Brookfield.

A Diretora de Recursos Humanos (CHRO) do QuintoAndar, Deborah Gouveia Abi-Saber, relata que a companhia começou a buscar uma nova casa na metade do ano passado, de olho justamente em um imóvel amplo – saindo dos moldes atuais, em que o escritório era dividido em vários andares.
“Queríamos uma laje única, algo autoral e que traduzisse nosso propósito”, diz.
A nova sede, batizada de Vila QuintoAndar, mais do que dobra o tamanho em relação ao escritório anterior. No total, são:
- 400 postos de trabalho
- 300 lugares no auditório
- 100 postos em salas colaborativas
- 48 salas de reunião
O local conta com dez salas voltadas para brainstorms e projetos multidisciplinares e uma praça interna destinada à convivência. O prédio também possui lobby compartilhado com outras empresas.
Sem mudanças no modelo de trabalho
A escolha da Vila Leopoldina representa um movimento fora do tradicional eixo corporativo da Faria Lima.
A empresa alega que o espaço foi concebido para refletir uma cultura de trabalho híbrida, global e baseada em colaboração presencial, mantendo espaço para equipes distribuídas em diferentes países.
Embora o endosso e o aumento da atratividade para o trabalho presencial, o regime de trabalho seguirá o mesmo. O QuintoAndar segue em regime híbrido, sem uma regra única de frequência semanal, que varia de equipe para equipe.

IPO à vista?
Cotada para ser um dos próximos IPOs da bolsa de valores, a gestão diz que embora seja um caminho natural, abrir capital não é algo que está no pipeline.
“Não temos data específica nem pressa para abrir capital. Provavelmente é o caminho que iremos seguir em algum momento, dada a trajetória da empresa”, diz o CEO.
O executivo adiantou ainda que o QuintoAndar “provavelmente vai fazer IPO fora do Brasil”.