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terça-feira, julho 14, 2026

Como a decomposição termomagnética pode destravar investimento em resíduos sólidos: a leitura de Marcello José Abbud

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O mercado de tratamento de resíduos sólidos urbanos vive um paradoxo. Existe tecnologia disponível para tratar resíduos de forma mais eficiente do que o aterro convencional, e existe capital global em busca de ativos de infraestrutura ambiental. O que falta, na maior parte dos casos, é a ponte entre os dois lados. Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, tem se dedicado a discutir justamente essa lacuna, usando a decomposição termomagnética como exemplo prático de tecnologia que já existe, mas ainda enfrenta dificuldade para escalar no país.

O que é decomposição termomagnética, e por que ela é diferente do aterro convencional?

Decomposição termomagnética é um processo de tratamento de resíduos sólidos urbanos que opera em temperaturas controladas, convertendo parte significativa do material em subprodutos reaproveitáveis, como combustível e gás, em vez de simplesmente destiná-lo a um aterro sanitário. É uma abordagem que trata o resíduo como matéria-prima em potencial, não como rejeito final, o ponto de partida conceitual que orienta boa parte do discurso técnico de Marcello José Abbud sobre o setor.

“O aterro sanitário resolve o problema imediato de onde colocar o resíduo, mas não resolve o problema de longo prazo, que é o que fazer com o valor que esse material ainda tem. Tecnologias como a decomposição termomagnética atacam exatamente esse segundo problema”, explica Marcello José Abbud.

Por que tecnologia validada nem sempre significa tecnologia financiada?

Ter uma tecnologia tecnicamente comprovada não garante, sozinha, acesso a capital de investimento. Projetos de tratamento de resíduos sólidos costumam exigir análise de viabilidade que envolve retorno sobre investimento, valor presente líquido e taxa interna de retorno, indicadores que investidores de infraestrutura utilizam para comparar diferentes oportunidades antes de comprometer recursos. Uma usina termomagnética bem dimensionada tecnicamente ainda precisa demonstrar esses números para atrair capital de longo prazo.

Essa etapa de estruturação financeira costuma ser subestimada por empresas do setor ambiental. “Muita empresa boa tecnicamente não sabe traduzir isso em linguagem de investidor. O projeto pode ser tecnicamente perfeito e ainda assim não conseguir financiamento, porque não foi apresentado da forma que um fundo de infraestrutura precisa avaliar”, pondera Marcello José Abbud.

O que diferencia uma usina termomagnética de uma usina de incineração convencional? A decomposição termomagnética opera em temperaturas mais controladas que a incineração tradicional, reduzindo a formação de compostos tóxicos associados à queima em altas temperaturas e recuperando maior proporção do material tratado como subproduto reaproveitável, em vez de simplesmente eliminá-lo por combustão.

O papel do ESG na atração de capital para o setor

Instrumentos como fundos ESG e green bonds vêm ganhando espaço entre investidores interessados em projetos que reduzem emissões e promovem economia circular. Projetos de tratamento de resíduos sólidos que conseguem demonstrar, com dados consistentes, redução de emissões de metano e recuperação de materiais têm se tornado candidatos mais competitivos a esse tipo de financiamento, à medida que critérios ESG passam a integrar decisões de investimento de forma mais estruturada.

Marcello José Abbud avalia que essa tendência ainda está em consolidação no Brasil, mas já orienta parte da conversa entre empresas do setor ambiental e o mercado financeiro. “O relatório ESG deixou de ser peça de comunicação institucional e virou instrumento de análise de crédito. Empresas que conseguem medir e comprovar seu impacto ambiental de forma consistente entram em uma conversa de financiamento diferente da que tinham há poucos anos”, afirma o especialista.

O que organismos internacionais já sinalizam sobre o setor?

Organizações como o Banco Mundial e a ONU vêm reforçando, em publicações e fóruns técnicos, a urgência de investimento em infraestrutura de tratamento de resíduos sólidos, especialmente em países em desenvolvimento, onde grande parte dos resíduos urbanos ainda recebe destinação inadequada. Esse tipo de sinalização internacional tende a influenciar também a forma como bancos de desenvolvimento e fundos multilaterais avaliam projetos de infraestrutura ambiental em países como o Brasil.

Para Marcello José Abbud, o Brasil tem características que deveriam facilitar essa atração de capital: volume relevante de resíduos gerados, desafios concretos de gestão ainda sem solução em boa parte dos municípios, e legislação que já prevê, desde 2010, a eliminação de lixões e a busca por soluções mais eficientes de destinação final. “O arcabouço legal já aponta na direção certa. O que precisa evoluir é a capacidade de transformar isso em projeto financiável, replicável, e não em exceção isolada”, diz.

Um mercado que tende a amadurecer nos próximos anos

Na avaliação de Marcello José Abbud, a combinação entre tecnologia validada, pressão regulatória por eliminação de lixões e crescente exigência de ESG por parte de investidores deve, gradualmente, reduzir a distância entre tecnologia disponível e tecnologia financiada no setor de resíduos sólidos brasileiro. Não como mudança repentina, mas como movimento que se consolida à medida que mais projetos conseguem demonstrar, na prática, que o modelo funciona tanto do ponto de vista ambiental quanto do ponto de vista financeiro.

[Fonte Original]

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