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sexta-feira, julho 31, 2026

Toda ingenuidade será esmagada: Ulisses, Nolan e a arte de voltar – Revista Cult

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Independentemente das virtudes, ou dos limites, da adaptação cinematográfica, e à margem dos inúmeros debates que ela já suscitou em críticas, artigos e publicações, o que verdadeiramente desloca algo em minha sensibilidade ao assistir ao filme de Christopher Nolan é a grandeza filosófica e poética da Odisseia de Homero. O filme restitui uma intuição que atravessa séculos e permanece atual: toda ingenuidade será esmagada.

Mais do que narrar o retorno de um guerreiro à sua terra, a Odisseia nos oferece uma reflexão sobre a experiência humana e sobre a impossibilidade de atravessar o mundo sem que dele saiamos transformados. Os embates enfrentados por Ulisses (Odisseu, na adaptação de Nolan) podem ser transvalorados para as práticas de nosso cotidiano, sobretudo porque falam daquilo que todos experimentamos: o aprendizado da perda, da estratégia e da sobrevivência. O primeiro desses embates é o do regresso. Ao longo da vida, nos deparamos com batalhas de diferentes intensidades: algumas facilmente vencidas; outras, quase impossíveis de superar. Como cantou Elis Regina, na composição de Guilherme Arantes, “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo”. Ainda assim, aprendemos, pouco a pouco, a jogar com nossos próprios cavalos de Troia.

A narrativa mítica e arquetípica do episódio do canto das sereias evidencia justamente esse amadurecimento. Depois de anos de navegação e de incontáveis encontros com povos, culturas e divindades, Ulisses compreende que o mundo é muito mais complexo do que imaginava. A experiência do deslocamento, do contato com o outro e com o desconhecido transforma sua maneira de perceber a realidade. É desse aprendizado que nasce sua astúcia, não como um dom natural, mas como uma inteligência construída na travessia.

A inteligência do herói manifesta-se precisamente na capacidade de atravessar diferentes culturas e humanidades sem perder de vista a necessidade de inventar estratégias para sobreviver aos confrontos que cada encontro impõe. É essa trajetória que lhe permite ouvir o canto belíssimo e sedutor das sereias sem sucumbir ao destino reservado aos homens que as escutam. O perigo não está apenas na morte física, mas numa espécie de desmemorialização: quem se deixa capturar por aquele canto esquece quem é, perde a consciência de pertencer a uma família, a um povo, a uma história.

Como observa Mary Lafer (2020), em O canto da sereia, aqueles que sucumbem ao fascínio desses seres míticos acabam morrendo justamente porque se esquecem de sua própria identidade. A morte, nesse caso, não decorre apenas da destruição do corpo, mas do apagamento da memória que constitui o sujeito. As sereias, portanto, produzem um paradoxo. Seduzem pela beleza cristalina de suas vozes e, ao mesmo tempo, prometem um conhecimento absoluto a quem se dispõe a ouvi-las. Segundo Lafer, o discurso mítico das sereias faz coexistirem duas forças aparentemente inconciliáveis: elas são, simultaneamente, doadoras de esquecimento e de conhecimento. O mesmo canto que dissolve a memória oferece a promessa de um saber ilimitado.

Na Odisseia de Homero, é Circe quem ensina Ulisses a enfrentar esse paradoxo. Graças aos conselhos da feiticeira, o herói consegue ouvir as vozes divinas das sereias sem entregar-se completamente ao seu encantamento. É também na narrativa homérica que chama atenção o fato de as sereias praticamente não terem sua aparência descrita. Homero não lhes atribui uma forma definida; seu poder reside na voz. As sereias existem, sobretudo, como uma epifania sonora, cujo fascínio se exerce inteiramente pela escuta. O prazer que provocam instala-se nos ouvidos antes de alcançar qualquer outra dimensão do corpo.

Amarrado ao mastro de sua embarcação e impedido de agir segundo seus impulsos, Ulisses consegue, enfim, ouvir o canto das sereias sem perder a si mesmo. Sua estratégia produz uma inversão inédita: pela primeira vez, são as sereias que fracassam. Habituadas a seduzir todos aqueles que as escutam, deparam-se com um homem que experimenta seu canto, mas resiste a ele. É justamente essa inversão que interessa a Maurice Blanchot (2005). Em O livro por vir, o filósofo observa que Ulisses vence as sereias, mas o faz por meio de uma prudência calculada, protegendo-se previamente daquilo que deseja experimentar. Sua vitória, portanto, não decorre de um enfrentamento heroico, mas de uma estratégia que lhe permite aproximar-se do perigo sem se abandonar completamente a ele.

“É verdade, Ulisses as venceu, mas de que maneira? Ulisses, a teimosia e a prudência de Ulisses, a perfídia que lhe permitiu gozar do espetáculo das sereias sem correr risco e sem aceitar as consequências […]”

Mais do que julgar moralmente Ulisses, Blanchot evidencia uma questão decisiva: sobreviver ao encantamento exige sempre uma técnica de contenção. Não basta desejar ouvir as sereias; é preciso criar as condições para não desaparecer dentro de seu canto. A verdadeira astúcia do herói consiste em compreender que o conhecimento só pode ser alcançado quando não implica a perda de si mesmo.

Na adaptação de Nolan, entretanto, essa vitória sobre as sereias não representa o fim das provações, Ulisses atravessa incólume o episódio das sereias, mas acaba se rendendo às flores de lótus oferecidas por Calipso, que lhe impõem um esquecimento semelhante àquele que o canto das sereias poderia ter provocado. Em Homero, Calipso oferece a Ulisses a imortalidade e o mantém retido em sua ilha durante sete anos. Se as sereias seduzem pela voz, Calipso seduz pela suspensão do tempo. Ambas, contudo, interrompem a travessia e afastam o herói de seu destino.

Depois de anos perdido pelo mar e de sobreviver a guerras, monstros e divindades, a grande batalha de Ulisses deixa de ser a astúcia necessária para vencer Troia. O verdadeiro combate passa a ser outro: resistir ao esquecimento e encontrar, apesar de tudo, uma rota de retorno. Mas como se volta depois de perder o rumo, os vínculos e tantos afetos pelo caminho? Falo, aqui, também para aqueles que, como eu, migraram para outras cidades, estados ou países e que, por isso, abriram mão de uma das experiências mais belas da vida em comum: acompanhar de perto aqueles que amamos, vê-los crescer, envelhecer, transformar-se e celebrar suas próprias conquistas. Existem perdas que não se anunciam no momento da partida; revelam-se apenas com o passar dos anos.

Ulisses não vê Telêmaco crescer. Não presencia o momento em que o filho deixa de ser um menino para tornar-se homem. E talvez seja possível inverter, aqui, a célebre formulação de Simone de Beauvoir: ninguém nasce homem; torna-se homem. Também a masculinidade de Telêmaco é produzida pela travessia, pela ausência do pai e pelo tempo. É justamente nesse ponto que a Odisseia deixa de ser apenas a história de um herói grego para tornar-se uma meditação sobre a condição humana. Em algum momento da vida, todos precisamos voltar. Mas voltar para onde? Para onde regressamos quando já não somos os mesmos?

A casa é realmente um lugar ou apenas uma forma de regressar a si próprio? Ítaca talvez não seja apenas uma ilha, mas a possibilidade de reencontrar aquilo que ainda permanece em nós depois de tantos deslocamentos. Quem nos tornamos ao longo de nossos exílios, migrações e reterritorializações? Quem permanece em nossa vida: aqueles que ficaram ou aqueles que caminham conosco? Quem são, hoje, nossas Penélopes, nossas Circes e nossas Calipsos? Onde está nossa Ítaca? Quais batalhas justificaram os rompimentos com aqueles que amávamos? Quantos afetos tivemos de abandonar para continuar caminhando?

alvez todos habitemos, em alguma medida, um lugar de exílio. Vivemos em um tempo que exige desempenho permanente, produtividade incessante, mobilidade constante e a busca contínua por melhores oportunidades. Em troca, entregamos aquilo que temos de mais precioso: nosso tempo, nossa lucidez, nossos vínculos e, muitas vezes, nossos próprios corpos. É por isso que o episódio das sereias permanece tão atual. Seu ensinamento não se limita à prudência diante da sedução, mas à necessidade de preservar a memória de quem somos em um mundo que continuamente nos convida ao esquecimento. Toda travessia cobra um preço. E talvez a maior vitória de Ulisses não tenha sido retornar à Ítaca, mas voltar sem esquecer quem era.

Eduardo Reis é professor no curso de Cinema do Centro Universitário Jorge Amado (BA). Doutor em Artes Cênicas (UFBA), mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP) e graduado em Filosofia. Atua nas áreas de cinema, teatro, literatura e crítica cultural.



[Fonte Original]

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