O governo da Espanha afirmou nesta quinta-feira que o presidente americano, Donald Trump, suavizou sua retórica em relação ao país poucas horas após ameaçar interromper o comércio com o aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) porque foi informado do forte aumento das contribuições de Madri para a aliança nos últimos anos.
Durante uma cúpula da Otan em Ancara na quarta-feira, Trump classificou a Espanha como uma “parceira terrível” e ordenou a interrupção imediata de todo o comércio com o país, após divergências sobre gastos com defesa e a guerra com o Irã.
No voo de volta aos Estados Unidos após a cúpula, ele disse a jornalistas a bordo do Air Force One: “Eu tive problemas, e ainda tenho. Mas a Espanha mudou completamente hoje. A Espanha foi muito generosa hoje.”
Questionado sobre o que a Espanha havia feito, respondeu: “Eles atenderam a um pedido de muitos pagamentos, e, se não tivessem feito isso, nós nem teríamos conversado com eles.”
Um porta-voz do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, disse que a declaração foi interpretada como uma referência ao cumprimento, por Madri, da antiga meta da Otan de destinar 2% do Produto Interno Bruto (PIB) aos gastos com defesa.
Na cúpula, Sánchez destacou que a Espanha atingirá esse objetivo neste ano, após mais que dobrar nominalmente seus gastos com defesa, de 0,98% do PIB em 2017 para quase 33 bilhões de euros (37,7 bilhões de dólares). Ele minimizou o desentendimento e afirmou ter tido uma conversa “muito cordial” com Trump durante o encontro.
Mas Trump tem criticado repetidamente a Espanha por não concordar com a nova meta da Otan para que os países-membros destinem 5% do PIB à defesa até 2035. O governo de esquerda espanhol afirma que prefere responder a ameaças reais, em vez de aumentar os gastos por si só, já que isso implicaria cortes em benefícios sociais.
Ainda não estava claro o que a mudança de tom de Trump poderá significar para sua ameaça de interromper o comércio.
Questionado sobre os próximos passos após a determinação de Trump, um funcionário do governo americano em Washington disse à Reuters que as agências federais competentes apresentarão ao presidente uma “lista de opções” de produtos espanhóis que poderão ser alvo de embargo.
Especialistas em direito comercial afirmam que Trump poderá recorrer à Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional para impor um embargo total ou parcial às importações espanholas. Durante seu primeiro mandato, Trump impôs uma tarifa antidumping de 30% sobre a azeitona preta espanhola em 2018.
Segundo a agenda do governo espanhol, a ministra da Defesa, Margarita Robles, tinha previsto reunir-se ainda nesta quinta-feira com o embaixador dos Estados Unidos, Benjamin Leon, para uma “reunião de trabalho”, sem divulgar mais detalhes.
Fontes da delegação espanhola em Ancara, citadas pelo jornal El Mundo, disseram que Madri comparou a disputa a uma briga encenada, sem conflito real, e que autoridades espanholas não identificaram consequências econômicas nem redução dos investimentos no país nos últimos anos, apesar das críticas de Trump.
Alguns integrantes do principal partido de oposição, o Partido Popular (PP), responsabilizaram Sánchez pelo desentendimento, mas afirmaram estar ao lado do país.
Um dirigente do PP destacou a interdependência entre empresas espanholas e americanas, o que significa que “a realidade econômica prevalece sobre as declarações grandiloquentes [de Trump], feitas para atacar a Espanha”.
Na região de Aragão, governada pelo PP — onde grandes empresas americanas de tecnologia, como Amazon e Microsoft, investiram bilhões de dólares em centros de dados —, autoridades disseram que os negócios seguem normalmente.
Santiago Abascal, aliado de Trump e líder do partido de extrema direita Vox, afirmou que as tensões com Washington são “absolutamente dramáticas” e acusou Sánchez de “destruir a credibilidade da Espanha no cenário internacional”.