Chegando à metade do ano, a situação nos mercados parece seguir o curso habitual.
A tensão com o Irã não passou de um incidente passageiro para os investidores, a ameaça de invasão da Groenlândia (lembra disso?) não deixou marcas visíveis, e todos os principais indicadores de desempenho do mercado de ações continuaram subindo, impulsionados — como sempre — pelo milagre das gigantes de tecnologia, as “big techs”. Está tudo uma maravilha, e os mercados sempre se mostram mais resilientes do que imaginamos.
Para a maioria de nós, isso é uma ótima notícia. Sei que costumo usar um tom sarcástico, mas falo sério: a interação da maioria das pessoas comuns com os mercados financeiros limita-se a investimentos passivos que acompanham índices em nossos planos de previdência; portanto, uma alta de quase 10% nas ações dos EUA e do mundo cai muito bem, obrigado. Não se preocupe, durma tranquilo.
No entanto, por trás dos indicadores gerais de desempenho do mercado, vale a pena observar dois pontos. O primeiro é que as placas tectônicas estão se movendo: os índices mascaram uma reavaliação profunda sobre a origem dos retornos de investimento nos próximos meses e anos. O segundo é que o coro de alertas sobre rachaduras nas bases do modelo de negócios de IA — com suas características típicas de bolha especulativa e seu papel central na sustentação dos mercados financeiros — está se tornando ensurdecedor.
Quanto a esse segundo ponto, as últimas semanas trouxeram uma série de sinais de alerta vindos de várias direções. Eles surgem nos mercados de dívida corporativa, onde novos títulos emitidos pela SpaceX, de Elon Musk, estão sentindo a pressão do ceticismo característico dos investidores de renda fixa. Esses títulos tiveram uma demanda muito forte no momento da emissão, mas alguns veem isso como um problema em si. O diretor de investimentos da Allianz descreveu a disposição do mercado em entregar dinheiro a Musk como um sinal claro de que passamos de “um boom saudável, um boom esticado… para o território de uma bolha”. Um sinal preocupante é que esses bonds perderam valor desde o lançamento.
Os banqueiros centrais também estão apreensivos. Claro, esse é o trabalho deles. Eles têm a tarefa de identificar riscos à estabilidade financeira — alguns se concretizam, outros não. Ainda assim, o mais recente relatório econômico anual do Banco de Compensações Internacionais (BIS) traz uma leitura que convida à reflexão sóbria, repleta de alertas de que a “exuberância” nos investimentos em IA pode se transformar em um colapso. Mesmo nos mercados de ações, é evidente que algo não vai bem. Por algum tempo, serviu de consolo para os investidores o fato de que a disparada nos preços das ações era sustentada por expectativas igualmente infladas de lucros corporativos. Mas e se as próprias expectativas estiverem em uma bolha?
A corretora Panmure Liberum observou na semana passada que, ao ajustar as métricas de avaliação aos excessos aparentes nas expectativas de lucro, depara-se com “uma bolha que supera, por uma margem extrema, qualquer coisa já vista na história dos EUA. Se as avaliações seguissem uma distribuição normal (o que não acontece, portanto não leve isso ao pé da letra), isso ocorreria em 0,00019% dos meses, ou uma vez a cada 43.432 anos”.
Nada disso significa que os mercados entrarão em colapso iminente, especialmente porque o arrefecimento — ainda que incerto, porém significativo — do conflito envolvendo o Irã derrubou os preços do petróleo e aliviou a pressão sobre os bancos centrais para elevar as taxas de juros. Se há algo capaz de estourar uma bolha, é um salto expressivo no custo do dinheiro.
No entanto, forças poderosas que atuam nos bastidores dos mercados sugerem que os investidores percebem que algo não fecha na conta. Há alguns meses, as gigantes de infraestrutura de computação em nuvem (“hyperscalers”) — que disputavam quem gastava quantias inimagináveis em IA — foram as principais responsáveis por impulsionar os índices acionários. Agora, ganha força o ditado de que, em uma guerra, os únicos vencedores são os vendedores de armas. As ações da Microsoft acumulam queda de quase 20% neste ano; as da Meta (dona do Facebook) recuam 11%. Os investidores simplesmente não estão mais convencidos de que a farra de gastos com IA gerará receitas reais no futuro, sobretudo porque as grandes empresas consumidoras dessa tecnologia já estão relutantes quanto aos custos elevados e optando por modelos mais baratos.
As outrora celebradas ações do grupo das Sete Magníficas — um indicador imperfeito, porém referência comum para o desempenho das gigantes de tecnologia — tiveram um desempenho ligeiramente inferior aos títulos públicos do Reino Unido na metade deste ano; um verdadeiro sinal de desonra. Enquanto isso, o Índice de Semicondutores da Filadélfia registra uma alta expressiva de 80%. O mercado sul-coreano, volátil e fortemente concentrado em chips, apresenta uma valorização ainda maior.
Os sinais de que uma nova narrativa de investimento está ganhando força não param por aí. As ações de mercados emergentes têm gerado o dobro do retorno das ações globais, em grande parte devido à febre dos chips. As ações de empresas de pequeno porte (“small-caps”) nos EUA estão superando amplamente suas gigantescas equivalentes do índice de referência S&P 500, sugerindo que os investidores acreditam que essas empresas menores — que chegaram mais tarde à nova onda tecnológica — podem acabar colhendo os maiores benefícios.
O período peculiar em que os mercados recompensavam empresas que corriam para gastar o máximo possível em tecnologias não testadas está chegando ao fim, e a euforia em torno dos chips agora perde força rapidamente. A antiga estratégia de investimento em IA morreu. Vida longa à nova estratégia de investimento em IA.
A ascensão suave, constante e aparentemente à prova de falhas dos mercados de ações dos EUA e do mundo é bem-vinda e profundamente reconfortante. Mas nada é tão estável quanto sugere.