A queda dos juros futuros deu fôlego ao Ibovespa nesta sexta-feira, em uma sessão em que os dados da produção industrial vieram mais fracos do que o esperado, o que ajudou a reforçar a percepção de parte do mercado de que o Banco Central poderá continuar com o ciclo de cortes.
Em meio a um pregão de liquidez bastante reduzida devido ao feriado antecipado do Dia da Independência nos Estados Unidos, o índice chegou a oscilar bastante no início dos negócios, mas apresentou alta firme no começo da tarde – movimento que se manteve até o fim do pregão. Com o apoio de blue chips, o Ibovespa encerrou em alta de 0,74%, aos 174.070 pontos, após variar entre os 172.790 pontos e os 174.664 pontos durante a sessão.
Já na semana, o índice teve alta de 0,45%, com os dados mais fracos do mercado de trabalho nos Estados Unidos ajudando a reduzir as apostas de um aperto na política monetária americana, o que tende a ser positivo para emergentes, como o Brasil.
Bancos foram destaque de valorização nesta sexta-feira, especialmente as units do BTG Pactual, que ganharam 2,38%. A exceção ficou para as ON do Banco do Brasil, que recuaram 0,10%.
Blue chips de commodities também encerraram no positivo: as ON da Vale subiram 0,77%, ao passo que as PN da Petrobras tiveram alta de 0,76%. O volume financeiro negociado pelo Ibovespa hoje foi de R$ 9,4 bilhões, bem abaixo da média diária de R$ 22,3 bilhões desde o começo do ano, e dos R$ 12,8 bilhões na B3.
Hoje, a produção industrial caiu 0,2% em maio ante abril, abaixo da mediana das estimativas de 20 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo VALOR DATA, de alta de 0,3%. O indicador reforçou o alívio nos juros futuros e, por consequência, favoreceu as ações ligadas à economia doméstica, em um momento em que os investidores aguardam novas sinalizações do Banco Central sobre a trajetória da Selic.
Embora o mercado tenha se animado com o fato de a inflação cheia ter vindo um pouco melhor do que o esperado e com uma composição mais interessante, em um momento em que os dados do Caged se mostraram mais fracos do que o previsto e que o petróleo cedeu bastante, o chefe de economia para Brasil e de estratégia para a América Latina do banco, David Beker, avalia que os dados devem ser lidos com cautela pelo Banco Central.
O executivo pondera que a série de medidas feitas pelo governo para estimular o mercado de crédito e a demanda agregada reforça a necessidade de que o BC adote uma política monetária “mais restritiva” para garantir a convergência da inflação à meta ao longo do tempo. Nesse sentido, a casa optou por manter a projeção de Selic em 14,25% até o fim deste ano, reforçando a percepção de que a autoridade monetária não tem mais espaço para cortes.
De olho em um cenário em que a Selic deve permanecer elevada por mais tempo no Brasil, o executivo afirma que faltam gatilhos para uma valorização da bolsa no curto prazo. Mesmo após a forte correção, ele defende que o mercado acionário local não está tão atrativo.
“O mercado brasileiro realmente corrigiu e está mais barato do que há dois meses, mas é suficiente? É uma barganha? Não, não é uma barganha”, disse o economista, em reunião com jornalistas hoje.
O executivo lembra que o “driver” principal da bolsa local tem sido o ambiente global. A questão, diz, é que há mais ventos desfavoráveis do que favoráveis neste momento para as ações brasileiras.
Entre os fatores que podem pesar está o fato de o banco projetar que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) poderá realizar três altas de juros de 0,25 ponto percentual, bem acima do esperado pelo resto do mercado. A medida poderia penalizar ações domésticas, em um momento em que os fluxos de capital estrangeiro já estão mais direcionados a ações de inteligência artificial e não às de valor. Fora isso, Beker citou que fatores que sempre ajudaram o Brasil parecem mais distantes neste momento.
“Se você tivesse uma percepção de que poderia haver uma correção de AI [inteligência artificial] e uma rotação saindo de tecnologia para valor, isso poderia nos favorecer. Sempre nos favoreceu. Se tivesse uma surpresa positiva de crescimento na China, isso poderia nos favorecer, mas não estamos enxergando nada disso neste momento”, completou.