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sexta-feira, julho 31, 2026

O trabalho como fonte de equilíbrio

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Recebi muitos comentários sobre a coluna que escrevi em junho passado. Alguns concordaram com o diagnóstico sobre esses tempos difíceis em que vivemos e outros me perguntaram sobre como resgatar a esperança. Esperançar é um verbo! Seja na visão de Paulo Freire, sobre seu papel na pedagogia, ou na perspectiva de C. R. Snyder, que iniciou a pesquisa sobre o tema na psicologia, a esperança é definida como uma ação para alcançar objetivos desejáveis.

Ainda que não tenha, evidentemente, respostas conclusivas para o esperançar, considerei que valia a pena escrever sobre o trabalho como fonte de saúde física, mental e social; ou seja, sobre o trabalho como fonte de vida, ainda que todos se queixam dele, não sem razão. A inspiração para esse texto vem do médico e psicanalista francês, Christophe Dejours, com quem trabalhei nos anos 1990 e para quem o trabalho pode ser definido como uma atividade útil, socialmente organizada e remunerada.

Muita gente tem uma visão só negativa do trabalho, mas ele nos mantém vivos, socialmente participantes e pode ser fonte de saúde. É evidente que o trabalho também pode ser fonte de adoecimentos físicos e mentais e até mesmo de adoecimento social, já que a ausência dele pode provocar aumento de violência, uma questão preocupante que se avizinha com as demissões que já acontecem em razão do uso intensivo das IAs. Numa sociedade ainda organizada em torno do trabalho, a sua falta é fonte de sofrimento individual e social, que pode se exprimir em movimentos de ódio como os que observamos atualmente. Seu excesso, por outro lado, também compromete a saúde de todos.

Mas vamos falar do trabalho como fonte de saúde, em várias dimensões. Em primeiro lugar, ele coloca nosso corpo em movimento. Todo mundo sabe que uma criança quietinha está fazendo “arte” ou está doente. Vida é movimento, e se o trabalho permite que o corpo se movimente livremente, essa atividade é fonte de saúde física. A questão da movimentação do corpo nunca foi considerada nos estudos sobre o propósito no trabalho. Há várias teorias abstratas que se esquecem da dimensão física, como se o trabalho fosse algo contemplativo que aconteceria somente na mente das pessoas.

Muitos perguntam se as atividades físicas e hobbies compensariam a falta de movimentação livre do corpo. Claro que atividades físicas fora do trabalho são essenciais, mas como o trabalho ocupa grande parte do nosso tempo, a livre movimentação motora no trabalho tem um papel essencial. Nessa dimensão estamos falando do conteúdo concreto do trabalho. O oposto também pode ser verdadeiro: não poder movimentar o corpo livremente, de acordo com nossos próprios ritmos biológicos, pode ser fonte de adoecimento. Aqui há uma questão que inclui a psicossomática, que fica para outro momento.

Colunista afirma que o trabalho precisa ser reconhecido e a falta de reconhecimento gera mal-estar, desencantamento e, no limite, adoecimento — Foto: Unsplash

Em segundo lugar, cabe considerar os sentidos do trabalho, ou seja, seu conteúdo simbólico. Ainda que nem todos possam escolher suas atividades profissionais, já que o trabalho é atividade de sobrevivência, ainda assim, ele assume significados para a própria pessoa e para familiares e amigos. O trabalho tem valor socialmente determinado; os médicos são mais reconhecidos que os enfermeiros, por exemplo. O reconhecimento e a valorização acontecem de modo simbólico e também na prática, por meio da remuneração. O valor dado socialmente ao trabalho repercute, de modo circular, sobre o valor dado individualmente e, nesse sentido, o reconhecimento social do trabalho é essencial.

Mas a despeito da não valorização da atividade pela família ou pela sociedade, alguns decidem ser artistas, ou se arriscam em profissões que nem todos ousariam, por exemplo, no circo, como pilotos de caça ou em expedições marítimas solitárias, independentemente do valor simbólico e da remuneração dada. Essa seria uma fonte de satisfação que Dejours denominou de conteúdo sublimatório do trabalho. Esse conteúdo responde à angústia inevitável da existência, que se transforma numa atividade útil nem sempre reconhecida inicialmente pela sociedade. E é bom lembrar que nem todos ficam famosos. Nesses casos, a satisfação dada pela realização do desejo pode até compensar a necessidade da movimentação motora ou o reconhecimento social.

Na visão de Freud, apenas a arte e a ciência permitiriam esse tipo de satisfação sublimatória no trabalho. Dejours considera que ela pode ser encontrada em qualquer atividade de trabalho, já que o tempo todo utilizamos nossa inteligência para resolver problemas. Falamos aqui de uma inteligência que se manifesta em pequenas ações diárias, na criatividade necessária para realizarmos cotidianamente e a contento nosso trabalho. O trabalho é vivo e a cada dia exige de nós alguma “invenção” para que ele seja concluído. Todos os trabalhos, mesmo os mais normatizados, exigem alguma criatividade na sua execução. Os humanos gostam de completar quebra-cabeças, são movidos por curiosidade, pelo desejo de concluir a tarefa. Se o desejo não existe, significa que há adoecimento. O natural da criança é brincar; o natural do adulto é trabalhar.

Não há ingenuidade aqui: nem todos os trabalhos permitem a realização do conteúdo concreto, simbólico ou sublimatório. Mas o sofrimento maior parece decorrer da falta de reconhecimento da inteligência do corpo e da mente utilizados para concluir qualquer tarefa. O trabalho precisa ser reconhecido e a falta de reconhecimento gera mal-estar, desencantamento e, no limite, adoecimento. Às vezes, precisamos engolir sapos para realizar o trabalho; esse é um bom jeito de começar uma gastrite. Apesar disso, muitos honram o trabalho e o realizam a despeito das dificuldades.

Talvez esperançar seja reconhecer o trabalho invisível e rotineiro, que faz o mundo rodar, a água chegar nas torneiras, a luz surgir quando tocamos o interruptor. A nossa cultura resultou desse trabalho ordinário e o risco é romper essa conexão que ameaça a civilização. Mas, enquanto há vida, há esperança. Ela resiste, independentemente de nós, mesmo quando estamos cansados de lutar. Até hoje, os humanos conseguiram superar os desafios que eles próprios se impõem. A esperança é a última que morre.

Maria José Tonelli é doutora em psicologia social, professora titular na FGV–EAESP, e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças.

[Fonte Original]

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