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sábado, agosto 15, 2026

Por Que Iates Russos Apreendidos Viraram um Prejuízo Bilionário?

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Em 4 de abril de 2022, menos de seis semanas depois de as forças russas lançarem o ataque contra a Ucrânia, agentes da Guardia Civil espanhola, do FBI e do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos embarcaram no Tango, um superiate de 255 pés atracado no porto de Palma de Maiorca, na Espanha.

Supostamente pertencente ao bilionário russo sancionado Viktor Vekselberg (patrimônio líquido de US$ 9 bilhões, equivalente a R$ 45,72 bilhões), segundo o governo americano, a embarcação de US$ 90 milhões (R$ 457,2 milhões) foi apreendida com base em um mandado dos Estados Unidos que apontava fraude bancária, lavagem de dinheiro e violação de sanções.

“Esta é a primeira apreensão de nossa força-tarefa contra um bem pertencente a um indivíduo sancionado com laços estreitos com o regime russo”, declarou, na época, o então procurador-geral dos EUA, Merrick Garland. Semanas depois, ele reforçou o discurso, prometendo usar todos os recursos disponíveis do Departamento de Justiça para confiscar os bens e repassar o dinheiro arrecadado diretamente a Kiev.

Mais de quatro anos depois, as promessas ousadas de Garland desandaram em uma grande dor de cabeça. O Tango continua praticamente no mesmo lugar onde foi apreendido, em uma vaga cara e sofisticada em Palma. Washington está longe de conseguir vendê-lo, e nenhum centavo chegou a Kiev.

Em vez disso, os contribuintes americanos já desembolsaram uma estimativa de US$ 14 milhões (R$ 71,12 milhões) para cobrir os gastos com tripulação reduzida, seguro, combustível e manutenção. Sem esse financiamento constante para manter os motores funcionando e a energia elétrica ativa, os superiates começam a se deteriorar quase imediatamente. É o tipo de fiasco financeiro que custaria o emprego de qualquer executivo do setor privado, mas que, infelizmente, é rotina entre autoridades públicas.

“Eu vejo o barco da janela do meu escritório. Ele está simplesmente parado ali há anos, exposto ao sol”, conta Sam Tucker, corretor de iates da Moravia Yachting em Palma, que afirma observar com frequência uma tripulação mínima de cerca de dez pessoas a bordo da embarcação. “A pintura está envelhecendo, o casco provavelmente está imundo por baixo. O barco está apenas dentro da lei e flutuando.”

Miguel Ángel Serra, sócio-fundador do escritório de advocacia Legalley, sediado em Palma, avalia que os governos estão aprendendo da forma mais difícil o quanto custa manter um bem parado. “Superiates fora de operação custam muito dinheiro”, afirma. “É extremamente caro, mesmo quando a embarcação não se move.”

Uma frota inteira à deriva

Nos meses turbulentos após a invasão ordenada por Putin, 11 governos ocidentais congelaram ou detiveram ao menos 20 superiates ligados a russos, avaliados, à época, em cerca de US$ 4,3 bilhões (R$ 21,84 bilhões). Foi uma verdadeira aula de comunicação em tempos de guerra, sugerindo uma justiça rápida: confiscar, vender e usar os recursos para ajudar na reconstrução da Ucrânia.

Isso não aconteceu. Em vez disso, a campanha se transformou em um imbróglio burocrático. Do ponto de vista jurídico, “congelar” um iate não é o mesmo que “confiscá-lo”, etapa necessária antes de qualquer venda.

Ao longo dos anos, apenas quatro dessas embarcações foram efetivamente confiscadas, sendo que três delas foram vendidas com desconto. Segundo estimativas da Forbes, somente dois governos, o dos Estados Unidos e o de Antígua e Barbuda, conseguiram algum retorno financeiro com a venda de iates depois de descontados os custos. Nenhum desse dinheiro parece ter chegado à Ucrânia. Outras duas embarcações foram silenciosamente descongeladas e devolvidas a seus donos.

Enquanto isso, os contribuintes ocidentais continuam bancando as despesas de vários dos 15 iates restantes, ainda amarrados em portos por toda a Europa. Para revelar o custo real dessa estratégia fracassada, a Forbes protocolou pedidos de acesso à informação em agências governamentais de 11 países, vasculhou registros judiciais e conversou com advogados, corretores de embarcações e estaleiros. Diversas agências do governo americano não responderam mais de um mês depois das solicitações formais; outras nações, incluindo Itália e Alemanha, recusaram-se a fornecer qualquer dado, alegando cláusulas de confidencialidade ou risco a segredos de Estado.

Apesar do sigilo, a Forbes confirmou que os governos já gastaram mais de US$ 100 milhões (R$ 508 milhões) apenas para manter cinco embarcações. Para as demais, a reportagem trabalhou com a empresa de inteligência de mercado de superiates Phronesis Superyacht Intelligence & Insight para chegar a estimativas independentes de custo.

No total, essa jornada de quatro anos de congelamento de iates já soma um gasto estimado de US$ 390 milhões (R$ 1,98 bilhão), com os contribuintes americanos arcando com pelo menos US$ 50 milhões (R$ 254 milhões), a segunda maior fatia da conta.

Itália lidera o prejuízo

A Itália é quem mais pagou até agora, quase US$ 100 milhões (R$ 508 milhões), para manter as quatro superembarcações que congelou. Entre elas está o Scheherazade, de 465 pés, que a Fundação Anticorrupção do falecido opositor russo Alexei Navalny alegou pertencer ao próprio Vladimir Putin, avaliado em US$ 510 milhões (R$ 2,59 bilhões) no momento em que foi congelado.

O iate segue encalhado no porto italiano de Marina di Carrara e já custou cerca de US$ 15 milhões (R$ 76,2 milhões) ao país, segundo os balanços financeiros do Italian Sea Group, dono do estaleiro onde a embarcação está desde maio de 2022.

Para as cidades que ficaram com essas embarcações apodrecendo em seus portos, o incômodo passou de leve irritação a verdadeiro transtorno. Na cidade de Trieste, no nordeste italiano, moradores tiveram a vista para o mar Adriático obstruída pelo Sailing Yacht A, de 468 pés, projetado por Philippe Starck e apelidado certa vez de “o iate mais feio do mundo”, avaliado em US$ 578 milhões (R$ 2,94 bilhões) quando foi congelado, situação que já dura quatro anos. “Isso é um desperdício de dinheiro público, é uma vergonha”, disse o prefeito de Trieste, Roberto Dipiazza, ao jornal italiano Corriere della Sera, em 2023. (Ele recusou-se a falar com a Forbes.)

Do outro lado do país está o Lady M, de 214 pés, supostamente pertencente ao magnata do aço russo Alexey Mordashov, segundo o governo italiano. Ancorado no porto de Imperia há mais de 200 semanas, o barco custa cerca de US$ 700 por dia (R$ 3.556) em água e eletricidade, além de US$ 15 mil mensais (R$ 76,2 mil) em taxas de atracação.

Há ainda outros US$ 57 mil por ano (R$ 289,56 mil) apenas em manutenção básica. “No fim do mês, emitimos as faturas e recebemos o pagamento. O iate está bem conservado”, afirma Matteo Bonjean, vice-diretor do porto de Marina di Imperia. E deveria estar, considerando os mais de US$ 2 milhões (R$ 10,16 milhões) já cobrados do governo italiano.

Confiscar é mais difícil do que parece

Confiscar um bem é mais complicado do que aparenta. Congelar um ativo é uma coisa; apreendê-lo implica mudança de propriedade. Para isso, as autoridades precisam comprovar que a pessoa sancionada cometeu um crime e, então, obter um mandado para tomar seus bens.

Dos US$ 58 bilhões (R$ 294,64 bilhões) em ativos bloqueados de oligarcas russos, incluindo iates, imóveis, aeronaves, empresas e contas bancárias, apenas US$ 3 bilhões (R$ 15,24 bilhões), ou 5%, foram formalmente confiscados. O número é ainda menor no caso específico dos iates: dos 20 tomados por governos, somente quatro, avaliados em cerca de US$ 530 milhões (R$ 2,69 bilhões), foram formalmente confiscados.

Mesmo depois de obter o mandado, as autoridades precisam passar por um processo de confisco civil para reivindicar o bem e, então, vendê-lo, etapa que os Estados Unidos ainda não concluíram no caso do Tango. “Uma das prioridades era buscar confiscos e perdimentos de bens, não apenas travar os ativos […], mas transferir definitivamente a propriedade para os Estados Unidos, de modo a disponibilizar alguns bens, por mais modestos que fossem, para uso na Ucrânia”, explica Andrew Adams, sócio do escritório de advocacia Steptoe, em Washington, que liderou a força-tarefa KleptoCapture do Departamento de Justiça entre 2022 e 2023. O presidente Trump extinguiu a força-tarefa em fevereiro de 2025, deixando diversos bens em situação indefinida. O Departamento de Justiça não respondeu a diversas solicitações de comentário.

Na União Europeia, o cenário é ainda mais complexo, já que muitos países carecem de um processo jurídico claro (por causa de sua experiência com a guerra às drogas, os Estados Unidos são relativamente eficientes em processos de confisco de bens). “As leis não foram bem redigidas desde o início”, diz Benjamin Maltby, advogado especializado em superiates, baseado em Londres. “Acho que as autoridades não tinham ideia de quanto custaria manter essas embarcações paradas, sem fazer nada.”

Alguns países tentam fazer com que os proprietários sancionados arquem com as despesas enquanto os iates permanecem detidos. A identidade do dono nem sempre é clara, e alguns se recusam a pagar. É o caso do Luminosity, de 353 pés, encalhado em Montenegro desde o dia em que Andrei Guryev Jr., ligado à embarcação e filho do magnata de fertilizantes Andrei Guryev, foi sancionado pela União Europeia em março de 2022. (A Forbes não conseguiu contato com ele.)

A tripulação foi dispensada logo depois e, desde então, busca receber os salários atrasados. A Burgess Crew Services, empresa contratada originalmente pelo proprietário para recrutar a tripulação, obteve autorização para transferir fundos do dono em outubro de 2023, mas quase três anos depois o pagamento ainda não foi feito porque um banco intermediário congelou os recursos e se recusa a liberá-los.

“Existe uma tripulação montenegrina designada pelo governo que sobe a bordo de vez em quando, mas eles não recebem salário”, relata Russell Crump, corretor de iates baseado em Mônaco que representa um comprador interessado na embarcação. “Então eles levaram a televisão, a mesa de jantar e todos os equipamentos para fora do barco.”

É difícil imaginar alguém disposto a pagar o valor cheio por ele agora. Descrito certa vez como um “palácio de vidro flutuante”, o Luminosity hoje apodrece na água, com cracas se acumulando no casco e pisos de teca se decompondo sob o sol.

“Qualquer embarcação deixada no ambiente marinho sem tripulação se deteriora rapidamente”, afirma Robert Dolling, cofundador e CEO da corretora de iates Verpeka Dolling, sediada em Mônaco, observando que o Luminosity já perdeu metade de seu valor pré-guerra, então avaliado em US$ 275 milhões (R$ 1,4 bilhão). “Se os motores e geradores não estão funcionando e os sistemas não estão ativos, tudo começa a desandar.”

O proprietário legal do Luminosity, no papel, é uma empresa registrada no paraíso fiscal de Guernsey, prática comum entre magnatas que costumam manter suas embarcações sob uma cadeia complexa de empresas e fundos. Essa companhia sediada em Guernsey enfrenta processos judiciais por anos de contas não pagas a uma fornecedora de suprimentos náuticos e ao estaleiro onde a embarcação está presa.

Na Alemanha, a fabricante de superiates Lürssen se viu no meio do fogo cruzado dessa guerra de bens. Mas a renomada construtora reagiu: cansada de gastar milhões mantendo um desses megaiates congelados, o Dilbar, de 511 pés e avaliado em US$ 600 milhões (R$ 3,05 bilhões), ela processou o Escritório Federal Alemão de Assuntos Econômicos e Controle de Exportação no ano passado.

A Lürssen construiu a embarcação em 2016 e, por um golpe de má sorte, ela estava justamente no estaleiro passando por uma reforma quando a guerra estourou, permanecendo ali desde então.

Embora o Dilbar tenha sido associado por muito tempo ao magnata de metais Alisher Usmanov (cuja mãe se chama Dilbar), ele e seus advogados vêm batalhando há anos para provar que não é o proprietário da embarcação. Em determinado momento, a irmã de Usmanov figurava como beneficiária do fundo que detinha o iate. (Usmanov criou o fundo em 2016, e tanto ele quanto a irmã negam ser donos da embarcação.) Ela também esteve na lista de sanções da União Europeia por um tempo, mas foi retirada em 2025. Foi então que a Lürssen levou o governo alemão à Justiça, argumentando que deveria ser ressarcida pelos custos de manutenção, já que a proprietária não estava mais sancionada. Em abril, um tribunal de Frankfurt decidiu a favor da fabricante.

Leilões mal conduzidos

Mesmo quando os leilões governamentais de iates confiscados foram autorizados, as vendas saíram pela culatra. Até 2022, o Amadea, de 348 pés, embarcação com seis decks, heliponto, piscina de borda infinita de dez metros, elevadores dourados e um piano de cauda Pleyel pintado à mão, era supostamente de propriedade, segundo o governo americano, de Suleiman Kerimov, magnata russo do ouro e membro da câmara alta do parlamento da Rússia, sancionado pelos Estados Unidos pela primeira vez em 2018.

Logo após o ataque russo à Ucrânia, o Amadea partiu em uma viagem de 18 dias do México até Fiji. Em maio daquele ano, autoridades fijianas cumpriram um mandado de apreensão a pedido do FBI, que levou a embarcação até San Diego um mês depois. Levou mais 16 meses, até outubro de 2023, para que o Departamento de Justiça entrasse com uma ação de perdimento civil e confiscasse formalmente o iate de Kerimov.

O que se seguiu foi uma batalha jurídica de dois anos entre o governo americano e outro oligarca russo, Eduard Khudainatov, que alegava ser o verdadeiro dono do Amadea. Khudainatov, que não tem nenhum vínculo aparente com Kerimov, processou o governo para bloquear o confisco, enquanto Washington sustentava que ele era apenas um “testa de ferro”.

Durante esse período, os contribuintes americanos gastaram US$ 36 milhões (R$ 182,88 milhões) mantendo a embarcação. No fim, o governo americano venceu a disputa e vendeu o iate em leilão em setembro passado, mas com um desconto de 37% em relação ao valor pré-guerra, então avaliado em US$ 300 milhões (R$ 1,52 bilhão). Depois de descontados os custos, Washington embolsou cerca de US$ 150 milhões (R$ 762 milhões).

O U.S. Marshals Service, responsável pela gestão da embarcação enquanto esteve sob custódia federal, não forneceu um detalhamento completo, mas informou que o valor seria destinado a “compensação de vítimas, despesas de programas e outros gastos da agência”. Nada disso parece reservado à Ucrânia.

O comprador vencedor do Amadea foi Abbas Sajwani, bilionário do setor imobiliário de Dubai, de 26 anos, filho de Hussain Sajwani, magnata do ramo imobiliário e amigo de Trump, também conhecido como “o Donald de Dubai”. Abbas vem aproveitando bastante seu novo brinquedo. Dois dias antes do Grande Prêmio de Fórmula 1 de Mônaco, ele convidou a Forbes para conhecer sua mais recente aquisição de luxo. “Algumas coisas me atraíram. O layout, o estilo do interior, a marca, a qualidade da construção, a forma como foi conservado”, contou Abbas, recostado em um sofá bege no átrio revestido de madeira. Visíveis pela janela atrás dele, balançando no azul do Mediterrâneo, estavam dezenas de outros superiates, incluindo o Axioma e o Alfa Nero, ambos confiscados de oligarcas russos e revendidos posteriormente.

Outros casos, o mesmo padrão

O Axioma, de 236 pés, foi detido por autoridades em Gibraltar depois que o bilionário russo do setor de tubulações Dmitry Pumpyansky foi sancionado pela União Europeia em março de 2022, o que, por sua vez, violou os termos de um empréstimo de US$ 21 milhões (R$ 106,68 milhões) do JPMorgan garantido pela embarcação. O banco leiloou o iate cinco meses depois, vendendo-o por US$ 37,5 milhões (R$ 190,5 milhões), valor abaixo dos US$ 42 milhões (R$ 213,36 milhões) anteriormente estimados, para os magnatas industriais turcos Ali Riza e Robert Yuksel Yildirim.

Já o Alfa Nero, de 269 pés, construído em 2007 pelo estaleiro holandês Oceanco e o primeiro iate a apresentar uma piscina que se transforma em heliponto ao toque de um botão, chegou à pequena nação caribenha de Antígua e Barbuda em março de 2022. Cinco meses depois, os Estados Unidos o classificaram como propriedade bloqueada do magnata russo Guryev, também sancionado no mesmo dia. A Suprema Corte de Antígua ordenou sua apreensão; autoridades locais e o FBI embarcaram na tripulação e assumiram o controle.

Em março de 2023, a embarcação já despejava esgoto não tratado no porto depois que sua estação de tratamento sanitário quebrou. No mesmo mês, as autoridades de Antígua aprovaram uma lei permitindo ao governo vender qualquer embarcação que representasse “uma ameaça iminente ao porto e às demais embarcações”. O Alfa Nero foi rapidamente enquadrado como risco, e o governo anunciou planos de venda, alegando abandono por parte do proprietário.

Advogados de Yulia Guryeva-Motlokhov, filha de Guryev e que se apresentava como beneficiária da embarcação, contestaram a venda, argumentando que o governo antiguano não tinha autoridade legal para confiscar o iate. Ainda assim, o Alfa Nero foi a leilão no verão de 2023. O maior lance veio do bilionário e ex-CEO do Google Eric Schmidt, que ofereceu US$ 68 milhões (R$ 345,44 milhões), mas retirou a proposta conforme a disputa jurídica entre a filha de Guryev e o governo de Antígua se intensificava.

Em julho de 2024, o governo finalmente vendeu a embarcação a Yildirim, o mesmo comprador do Axioma. Dessa vez, o industrial turco fez um verdadeiro negócio, pagando US$ 40 milhões (R$ 203,2 milhões), menos da metade do valor que a embarcação já teve. Depois de descontados os US$ 9 milhões (R$ 45,72 milhões) gastos pelo governo da ilha em manutenção, o restante foi usado para quitar dívidas do próprio governo antiguano. Nenhum centavo foi destinado à Ucrânia.

A filha de Guryev segue batalhando na Justiça de Antígua, dos Estados Unidos, da Rússia e dos Emirados Árabes Unidos, alegando que o governo antiguano agiu de forma corrupta e obteve uma comissão ilegal pela venda, acusação negada pelas autoridades locais. Embora o Alfa Nero continue fora de seu alcance, ela obteve alguma vitória contra o novo proprietário na Rússia. Em julho passado, um tribunal russo determinou a apreensão de uma planta de ferrocromo pertencente a Yildirim e seu irmão. Yildirim não quis comentar, e representantes de Guryeva-Motlokhov e do governo de Antígua não responderam aos pedidos de posicionamento.

Essas complicações jurídicas e as estruturas opacas de propriedade têm derrubado o valor desses bens. E se a embarcação navegar até um país que não reconhece a venda, levando à sua detenção por ordem do antigo dono? “Velejar deveria ser algo divertido”, diz Richard Lambert, corretor de vendas da Burgess Yachts, em Mônaco. “Ninguém quer viver olhando por cima do ombro. Quem comprar um desses iates vai precisar de uma assessoria jurídica muito sólida.”

Talvez seja por isso que Yildirim já esteja pensando em vender. Ou talvez ele esteja apenas tentando lucrar ainda mais: menos de um ano depois de pagar US$ 40 milhões (R$ 203,2 milhões) pelo Alfa Nero, Yildirim colocou a embarcação à venda por US$ 101 milhões (R$ 513,08 milhões), 153% acima do valor pago, e a exibiu com destaque durante o Grande Prêmio de Mônaco, em junho. Ele também ofereceu o Axioma por US$ 63 milhões (R$ 320,04 milhões), 67% a mais do que pagou pela embarcação.

A conta pode continuar crescendo

Quanto aos contribuintes, eles ainda podem ser surpreendidos por novas cobranças. Ex-proprietários de embarcações têm buscado cada vez mais compensações e indenizações junto aos governos, em vez de tentar reaver seus barcos em depreciação.

Uma empresa de fachada que reivindica a propriedade do Royal Romance, de 303 pés e avaliado em US$ 200 milhões (R$ 1,02 bilhão), entrou com uma ação contra a Croácia, pedindo mais de US$ 40 milhões (R$ 203,2 milhões) por não poder usar a embarcação “congelada”.

A maioria desses questionamentos fracassou até agora, mas advogados alertam que os riscos vão aumentar se mais tribunais revogarem as designações de sanções ou invalidarem o congelamento de bens específicos, como acabou de ocorrer na Alemanha. “Nos casos em que a inclusão [na lista de sanções] for considerada ilegal, é bastante provável que surjam pedidos de indenização”, afirma Bertrand Malmendier, advogado baseado em Berlim que já atuou em diversos casos envolvendo superiates. Quem vencer essas disputas pode buscar compensação por depreciação, perda de receita com fretamento e custos de manutenção.

Nos Estados Unidos, que adotaram medidas mais pontuais do que seus pares europeus, esse cenário é menos provável, mas mesmo ali, onde os ventos políticos mudaram de direção, os oligarcas ainda têm chance. “Eles certamente teriam legitimidade [para processar]”, afirma um ex-consultor do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, responsável por fazer cumprir as sanções. “Estamos falando de um grupo extremamente rico e propenso a recorrer à Justiça.”

O que começou como uma campanha de grande visibilidade em apoio à Ucrânia se transformou em um fiasco que desperdiçou milhões, não ajudou Kiev e não teve impacto algum sobre Putin ou seus aliados. Como já disse um economista famoso, “a solução do governo para um problema costuma ser tão ruim quanto o problema em si”. Ou pior.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

[Fonte Original]

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