A quebra da criptografia de aparelhos usados por integrantes do esquema liderado pelo ex-major da Polícia Militar Sergio Roberto de Carvalho revelou a existência de uma joint venture (uma espécie de consórcio) com o traficante belga Flor Bressers, conhecido como “Corta Dedos”. Este teria pago 99 milhões de euros ao brasileiro em dez meses por metade do carregamento de cocaína importado do país.
A movimentação veio à tona após autoridades europeias associarem uma empresa de fachada, usada para importar a droga escondida em minério de manganês, aos apelidos utilizados pela dupla na rede de comunicação. De acordo com a polícia federal belga, no dia 5 de abril de 2020, cerca de 6 meses antes da deflagração da operação Enterprise pela PF no Brasil e na Europa, a polícia da Holanda apreendeu 3,2 toneladas de cocaína destinadas a uma empresa de dessalinização de água do mar na Bélgica e a uma empresa da República Tcheca.
A droga chegou ao porto de Roterdã a bordo do navio “Marseille”, escondida em meio a 14 contêineres de minério de manganês, vinda do Brasil. Em cinco dos contêineres, havia cocaína.
As investigações revelaram que a empresa Kriva-Rochem, localizada na Antuérpia e registrada no nome de um “laranja” octogenário, havia importado grandes quantidades de cocaína pelo menos desde 2019. Durante uma operação de busca e apreensão na empresa belga e outros endereços ligados à quadrilha, foram encontrados diversos telefones celulares criptografados ou embalagens contendo números de Imei (o código único para cada aparelho celular).
É aí que a história do ex-major brasileiro e da investigação belga se misturam com a da operação Enterprise e daquela que é considerada como a maior investigação na história da Europol, com mais de 6,5 mil presos, 30,5 milhões de comprimidos de drogas químicas, 103,5 toneladas de cocaína, 163,4 toneladas de maconha, 3,3 toneladas de heroína, e 900 milhões de euros apreendidos, segundo balanço divulgado em junho de 2023. Além disso, as autoridades apreenderam 971 veículos, 83 barcos, 40 aviões, 271 propriedades ou casas, 923 armas, bem como 21.750 cartuchos de munições e 68 artefatos explosivos.
De rescaldo, está em processo, na Bélgica, o julgamento do brasileiro Sergio Roberto de Carvalho, conhecido como “Pablo Escobar brasileiro” e apontado pela Interpol e pela PF como um dos maiores narcotraficantes do mundo. O julgamento dele tem previsão de ser retomado em 7 de setembro.
A reportagem da Gazeta do Povo procurou advogados do major no Brasil, mas não conseguiu contato. Na Bélgica, os defensores afirmam que ele é inocente.
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Os recursos sofisticados de segurança dos celulares com “criptografia inquebrável” da EncroChat
O caso EncroChat parou a Europa em junho de 2020 e reverbera até hoje. Em diversos casos policiais envolvendo o crime organizado, as polícias da Europa se deparavam com a apreensão de aparelhos celulares das marcas Samsung, Blackberry e Aquaris X2 com um sistema operacional Android modificado, equipado com aplicativos de criptografia inquebrável mesmo com as tecnologias forenses mais avançadas.
Tratavam-se de “unidades carbono” da EncroChat, um serviço de telefonia celular 100% criptografado oferecido por uma empresa com sede e origem até a ocasião desconhecidos. O aparelho e serviço eram vendidos pela internet.
O celular custava 1 mil euros e a assinatura, 1,5 mil euros por semestre. Além da criptografia PGP de ponta a ponta, o dispositivo oferecia diversos recursos de segurança. A câmera e o microfone podiam ser desabilitados, e o aparelho trazia instalados o EncroChat, um programa de mensagens, e o Encrotalk, para chamadas de áudio e vídeo, ambos fortemente criptografados.
Quando alguém tentava ligar ou desbloquear o telefone normalmente, apenas apertando o comando correspondente, o que aparecia era uma tela de Android com aplicativos padrão, sem no entanto nenhum conteúdo. Era só ao apertar a sequência certa de comandos o sistema operacional do Encrochat, com todo seu conteúdo, era revelado. Uma espécie de botão de pânico permitia apagar o telefone com a tela bloqueada ou mesmo a distância, entre outros recursos sofisticados de segurança.
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EncroChat recomendou apagar dados e jogar fora celulares após operação da polícia na Europa
No início de 2020, após cerca de cinco anos de existência do EncroChat, a Gendarmeria Nacional da França descobriu que os servidores da empresa ficavam em uma empresa terceirizada em Lille e viu uma brecha. Segundo a legislação francesa, é ilegal fornecer serviços de criptografia no país sem o conhecimento, cadastro e aprovação de autoridades regulatórias competentes, o que não acontecia.
Assim, foi dada autorização judicial e a polícia conseguiu invadir o equipamento secretamente com um pendrive instalado em um dos servidores. Após monitorar, copiar e descriptografar todos os dados disponíveis da empresa, uma grande operação policial foi deflagrada contra a EncroChat.
Na madrugada do dia 13 de junho daquele ano, usuários do EncroChat ao redor do mundo receberam uma mensagem avisando que os servidores tinham sido invadidos ilegalmente pela polícia e que a empresa estava encerrando o serviço, pois não conseguia mais garantir a segurança das comunicações. A recomendação era apagar todo o conteúdo das tais unidades carbono e jogar o aparelho fora.
Ao mesmo tempo, a polícia de dezenas de países europeus fazia operações para uma prisão inicial em massa de mais de 700 pessoas por crimes descobertos nos servidores da EncroChat. Um homem apontado pela polícia francesa como dono da EncroChat foi preso na República Dominicana ainda em 2020 e extraditado para a França em fevereiro de 2024.
Ele é réu por formação de quadrilha, tráfico de drogas internacional e outros crimes. Três espanhóis, acusados de montar e vender os aparelhos celulares especiais da empresa, foram presos e extraditados para a França ainda em 2022. Eles seguem na cadeia e aguardam julgamento.
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Polícia francesa apontou que sistema supostamente usado para o crime tinha 60 mil usuários ao redor do mundo
Ao todo, a polícia da França descobriu que o serviço era utilizado por cerca de 60 mil usuários – a maioria na Europa, mas com muitos clientes também no Oriente Médio, América do Sul, México e Estados Unidos. De acordo com as autoridades francesas, mais de 90% dos usuários utilizava o EncroChat para a prática de crimes: tráfico de drogas, pessoas e armas, contrabando, assassinatos, pedofilia, lavagem de dinheiro e outros.
De volta à Bélgica, “foi enviada à França uma Decisão de Investigação Europeia, DEI, com o objetivo de ser feita a identificação e leitura do tráfego telefônico vinculado a esses números de Imei”, afirma o juiz investigador Johan Desseyn, responsável pelo caso em Bruges, em um dos ofícios enviados ao juiz federal do Paraná Marcus Holz, responsável pelo inquérito da operação Enterprise da PF, no início de 2021, ao qual a reportagem da Gazeta do Povo teve acesso.
Paralelamente, a PF já tentava obter informações sobre o ex-major no caso do EncroChat em contato direto com as autoridades francesas. Na mesma época, o Brasil chegou a enviar para a França uma relação com os 21 principais nomes investigados na operação Enterprise mas, como não se conhecia os “monikers” (apelidos, nicknames dos mesmos no sistema criptografado) nem os Imeis dos mesmos, a busca foi infrutífera, informaram as autoridades francesas. Agora, com os Imeis da polícia belga, a história seria diferente.
A relação de Sergio Roberto de Carvalho com um dos maiores traficantes de cocaína do mundo
No final de 2020, chegou de volta a Bruges a resposta da Polícia Federal da França em Lille com revelações que conectam o caso EncroChat com a investigação belga e a operação Enterprise brasileira. A quebra da criptografia dos Imeis apreendidos nos servidores do EncroChat revelaram que a empresa de fachada Kriva-Rochem e as 3,2 toneladas de cocaína encontradas na Holanda no começo daquele ano pertenciam, na verdade, a Flor Bressers e ao ex-major da PM brasileiro.
No EncroChat, Bressers utilizava os apelidos de “Ricklong” e “Bongoking” para se comunicar com os comparsas da quadrilha. Bressers já era conhecido das autoridades belgas como um criminoso e traficante de rua comum. Ele tinha sido preso e condenado por cortar fora o dedo de um comparsa holandês depois que ele perdeu um carregamento de drogas para a polícia.
Após sair da cadeia, ficou fora do radar até reaparecer nestas investigações como um dos maiores traficantes de cocaína da Europa. Ele foi preso em fevereiro de 2022, na Suíça, onde vivia escondido com a esposa, e depois foi extraditado para a Bélgica. Ela pegou dois anos de cadeia por lavagem de dinheiro e já cumpriu pena no próprio país.
“Além disso, parece pelo tráfego de PGP Encro que Bressers seria responsável pela compra da cocaína embarcada importada, sendo a mesma adquirida do fornecedor brasileiro Sérgio Roberto de Carvalho, onde este utilizava o moniker ‘Lucrativeherb ‘na plataforma Encro”, afirma o juiz investigador Johan Desseyn.
“De Carvalho lideraria e seria responsável pela administração de uma organização sul-americana, na qual encomendava e pré-pagava os embarques de cocaína transportados por intermédio de contêineres marítimos com minério de manganês como carga de cobertura através de portos brasileiros com destino à Europa”, continua o juiz investigador.
Não só isso. “Parece haver uma ‘joint venture,’ ou seja, uma participação conjunta entre Bressers e De Carvalho, porque Bressers teria de pagar para De Carvalho apenas metade da cocaína importada, 7,5 mil dólares por quilo de cocaína boliviana”, aponta o juiz investigador europeu.
Uma vez na Europa, o quilo podia valer de US$ 50 mil a US$ 80 mil. Também foi descoberto no perfil de Bressers no EncroChat uma espécie de livro-caixa da operação.
A sequência da investigação apontou que “Corta Dedos” pagou para o ex-major brasileiro 99 milhões de euros num período de dez meses entre junho de 2019 e abril de 2020, em diversas entregas de dinheiro vivo feitas por emissários ao redor de cidades da Europa. O valor é referente à metade do preço das 12,8 toneladas de cocaína importadas do Brasil para a Europa pela dupla no mesmo período, em oito carregamentos bem-sucedidos, fora as 3,2 toneladas apreendidas na Holanda.
Tamanho da operação criminosa chocou a PF
Em dez meses, Bressers e Sergio Roberto de Carvalho Carvalho levaram em sociedade do Brasil para a Europa pelo menos 16 toneladas de cocaína. O perfil do ex-major no EncroChat revelou que a cocaína era expedida do Brasil no manganês por um homem de confiança dele (codinome “Littlejacket” no EncroChat) e uma mulher referida como Aida, sem perfil encontrado no aplicativo.
O dinheiro do ex-major era lavado no exterior com a ajuda de um operador financeiro nos Emirados Árabes Unidos (“Vipertaylor” no Encrochat) e uma fintech de criptomoedas em Londres, entre outros esquemas – o italiano Caio Marchesani (“GreySmith” no EncroChat), dono da fintech Trans-Fast Remittance, usada pelo brasileiro e por Bressers para lavar dinheiro em um esquema de criptomoedas, foi preso pela polícia inglesa em 2023.
A quantidade de cocaína, dinheiro e o tamanho da operação descoberta na Bélgica deixou os investigadores da Polícia Federal brasileira estupefatos. O esquema com minério de manganês de Sergio Roberto de Carvalho estava completamente fora do radar da operação Enterprise, indicando que a estrutura de exportação de cocaína do ex-PM brasileiro era ainda maior do que a mapeada em mais de três anos de investigação.
Na colaboração internacional, as autoridades belgas compartilharam com a PF uma lista inicial de pelo menos mais cinco pessoas da quadrilha do major aqui no Brasil e quatro empresas envolvidas na exportação para a Europa do minério de manganês misturado com cocaína que não eram investigadas na operação Enterprise. As 16 toneladas de cocaína descobertas na Bélgica vinham a se somar a outras 50 toneladas apreendidas ou rastreadas pela Polícia Federal de 2017 até o final de 2020.
Em 2020, na Espanha, o major chegou a ser preso e processado por causa de outra 1,7 tonelada apreendida em um barco pesqueiro, mas conseguiu sair da cadeia com a identidade falsa de Paul Wouter e o pagamento de fiança para responder ao processo em liberdade. Logo depois, forjou a própria morte para desaparecer de novo até ser preso em 2022 e, agora, ser levado a julgamento.


