Crédito, EPA
- Author, Felipe Llambías
- Role, BBC News Mundo
- Author, Alicia Curry
- Role, BBC News
Published
Tempo de leitura: 5 min
Segundo as autoridades espanholas, pelo menos 10 pessoas morreram na travessia, a maioria delas por afogamento.
O chefe do governo de Ceuta pediu ajuda ao governo central diante dessa nova onda de migrantes que estão atravessando a partir do Marrocos e sobrecarregando o posto de fronteira.
Ceuta é uma cidade autônoma espanhola localizada no norte da África, banhada pelo Mar Mediterrâneo, próxima ao Estreito de Gibraltar. Há décadas, o local é um ponto de passagem para migrantes que tentam chegar à Europa.
Nesta quinta, centenas de pessoas foram vistas escalando cercas ou tentando chegar à costa de Ceuta a nado.
Zakaria Zarroqui, ativista pelos direitos dos migrantes, disse à agência Reuters que muitas pessoas continuavam se dirigindo em massa à cidade marroquina de Fnideq para, depois, tentar atravessar para Ceuta.
“A situação continua fora de controle neste exato momento”, afirmou Zarroqui.
A agência de notícias AFP registrou migrantes comemorando após entrar em território europeu, agradecendo à polícia espanhola e gritando: “Adeus, Marrocos. Olá, Espanha”.
Já durante a noite, centenas de pessoas se reuniram em Fnideq depois de ouvirem rumores de que a fronteira estava aberta, informou a AFP.
Ceuta pede ajuda do Exército
O chefe do governo de Ceuta, Juan Jesús Vivas, do Partido Popular, afirmou que o fluxo de migrantes está sobrecarregando a estrutura da cidade e pediu que o governo central intervenha.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, disse que está mobilizando recursos para lidar com a situação em cooperação com o Marrocos. As autoridades de Ceuta, porém, pediram que ele declare estado de emergência nacional e envie o Exército para fechar a fronteira.
Vivas lembrou um episódio ocorrido cinco anos atrás, quando a cidade autônoma enfrentou uma crise sem precedentes, com milhares de migrantes atravessando por dia. Na ocasião, o governo espanhol enviou soldados e tanques para conter o fluxo de pessoas.
“Se não forem adotadas medidas adequadas e proporcionais à dimensão e à gravidade do problema, e se a intensidade do fluxo de entradas for mantida, em breve poderemos chegar a números semelhantes aos registrados no episódio de maio de 2021”, afirmou.

Crédito, EPA/Shutterstock
Vivas também pediu para “alterar na lei de imigração para restabelecer o mecanismo legal que permitia rejeitar na fronteira pessoas que tentavam entrar por via marítima”.
“Esse mecanismo foi perdido como consequência da interpretação que o Tribunal Supremo (…) fez da lei”, afirmou.
No início deste mês, o Tribunal Supremo espanhol decidiu que migrantes que chegam por mar aos dois territórios espanhóis no norte da África — Ceuta e Melilla — não podem ser devolvidos imediatamente.
“Estamos em uma situação de emergência humanitária e social total”, afirmou o líder de Ceuta.
Diante do pedido, o Ministério do Interior informou que enviará agentes para reforçar os controles.
“As Forças Armadas vão reforçar a Guarda Civil no exercício de suas competências e em quaisquer outras que sejam necessárias para manter a segurança na cidade de Ceuta”, afirmou o ministério em comunicado.
Enquanto isso, o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo, pediu um “desdobramento massivo de recursos” e acusou o governo de Sánchez de ter apresentado uma “versão desmentida pela realidade”.
“A situação que Ceuta enfrenta é uma avalanche sem precedentes. Começou na segunda-feira e continua se agravando. A versão do governo sobre uma solução rápida está sendo desmentida pela realidade”, disse Feijóo em comunicado.

Crédito, EPA/Shutterstock
Declarações polêmicas de Meloni
Após a divulgação das imagens da chegada em massa de imigrantes a Ceuta, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e seu ministro das Relações Exteriores se mostraram favoráveis a uma possível suspensão do acordo de livre circulação de fronteiras que vigora na União Europeia, conhecido como Acordo de Schengen.
“As imagens que chegam de Ceuta são impactantes e demonstram, mais uma vez, que a imigração ilegal sem controle representa uma ameaça concreta à segurança das fronteiras europeias”, escreveu Meloni em suas redes sociais.
“Estamos convocando os órgãos competentes e, após essas reuniões, estamos preparados para agir — inclusive por meio de medidas extraordinárias — para defender nossas fronteiras e garantir a segurança dos cidadãos, como, por exemplo, suspendendo o Acordo de Schengen com a Espanha”, afirmou a primeira-ministra.
“Não vamos ceder nem um centímetro na questão da imigração ilegal: a defesa das fronteiras, o combate aos traficantes de pessoas e a garantia de repatriações efetivas continuarão sendo a política deste governo”, disse.
Diante disso, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, convocou o embaixador da Itália no país.

Crédito, Europa Press via Getty Images
‘Não há lugar pra mais ninguém’
O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, deve visitar a região nesta sexta-feira (31/7).
Há informações divergentes sobre a magnitude do fluxo, com números que variam entre centenas e milhares de pessoas.
Veículos da imprensa espanhola estimaram que entre 2.000 e 3.000 pessoas entraram em Ceuta na quinta-feira, segundo a Reuters, embora tenham destacado que a Guarda Civil não havia confirmado o número.
A Radiotelevisão Espanhola (RTVE), por sua vez, informou que “centenas” de pessoas atravessaram para o território ao longo do dia.
A emissora também afirmou que mais de 1.500 migrantes — em sua maioria jovens marroquinos — chegaram a Ceuta nas últimas duas semanas.

Crédito, Europa Press vía Getty Images
Esse número foi confirmado por Vivas, que acrescentou que os centros de acolhimento estão lotados, com mais de 200 entradas por dia.
“Não há lugar pra mais ninguém”, afirmou.
Vivas disse ainda que os corpos de 60 pessoas foram resgatados no mar nos últimos meses, segundo informou a RTVE.

Crédito, Europa Press vía Getty Images