Crédito, Cedido por Cristina Kahlo Alcalá
- Author, Margarita Rodríguez
- Role, BBC News Mundo
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Tempo de leitura: 15 min
“Lembro do cheiro”, diz Cristina Kahlo Alcalá. “Chegar à casa da minha avó era incrível porque significava ir direto à gaveta dos tesouros.”
Sua avó era a irmã mais nova de Frida Kahlo, e os tesouros de que fala eram aqueles que ela procurava, junto com o irmão, quando era criança.
“Minha avó Cristina tinha uma estante e, na parte de baixo, havia algumas gavetas onde sempre havia giz de cera, lápis, folhas, caderninhos. Ela as enchia de coisas para que desenhássemos”, conta à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
“Lembro do cheiro dos lápis; pelo visto ela os apontava para que estivessem prontos.”
Kahlo Alcalá é filha de Antonio, o filho mais novo de Cristina Kahlo Calderón, a única das irmãs da pintora que teve filhos. Antes, Cristina já tinha tido Isolda.
Mara Romeo Kahlo, filha de Isolda, lembra da avó como “uma adoração”.
“Um dia, achei que o jardim dela não tinha um cheiro bom o suficiente, então peguei seus perfumes, imagine Chanel, e os espalhei pelas flores”, conta à BBC Mundo.
“Quando minha mãe chegou, disse: ‘Mas o que você fez?!’, e minha avó saiu e lhe disse: ‘Não, não. Aqui, na minha casa, a menina pode fazer o que quiser’.”
Esses são apenas alguns traços de Cristina que, junto com as irmãs mais velhas, Matilde e Adriana, foi uma parte vital da vida da extraordinária artista mexicana.
“Sempre achei que Frida é quem é por causa desse apoio, dessa união familiar tão importante entre elas”, afirma Romeo Kahlo.
Do casamento anterior
Guillermo Kahlo, um imigrante alemão, e Matilde Calderón foram os pais de Matilde, Adriana, Frida e Cristina.
Antes desse casamento, Guillermo foi casado com María Cardeña, com quem teve María Luisa e Margarita.
Ao dar à luz Margarita, Cardeña morreu.

Crédito, Cedido por Mara Romeo Kahlo
Cristina Kahlo Alcalá se lembra muito bem das primeiras filhas de Guillermo.
“Eu devia ter uns 8 anos quando meu pai nos levava para visitá-las”, recorda. “Meu pai gostava muito delas.”
Nessa época, Matilde, Adriana e Frida já haviam morrido.
“Meu pai não era uma pessoa religiosa. Na verdade, tinha conflito com a religião católica, não tanto contra a religião em si, mas contra a igreja, seus modos, suas formas de influenciar as pessoas.”
“Isso me causava muito conflito porque eu via como ele adorava a tia Margarita, que era freira. Sempre lhe dava abraços enormes e fazia brincadeiras, dizendo que ela parecia um pinguim vestida daquele jeito.”
“Tia Luisita era supercarinhosa; as duas gostavam muito do meu pai.”
Mara Romeo Kahlo, a outra neta de Cristina com quem conversamos, também guarda boas lembranças de quando María Luisa ia aos almoços da família ou a levava para passear, e das visitas a Margarita no convento.
Para Kahlo Alcalá, que é fotógrafa e artista visual e já foi curadora de exposições sobre Frida em vários países, é importante não ignorar essas duas mulheres ao contar a história da família.
“Em muitas exposições não se menciona María Luisa e Margarita porque não são filhas do casamento de Guillermo e Matilde, mas procuro fazê-lo nas curadorias.”
“Quando faço uma palestra, sempre lhes dou um lugar porque fizeram parte da família, embora tenham crescido em um internato de uma escola católica.”
De fato, Kahlo Alcalá observa que, ao ler algumas das cartas que Guillermo escreveu para Frida, sua religiosidade fica evidente.
“Ele está sempre falando de Deus. Isso é muito interessante e me dá uma pista para entender por que Margarita e María Luisa foram colocadas em um internato com religiosas.”
Matilde, a mais velha
Matilde, a primeira filha do segundo casamento de Guillermo, era oito anos mais velha do que Frida.
“Sempre foi uma boa administradora e mantinha um controle rigoroso das contas da Casa”, conta o Museu Frida Kahlo.

Crédito, © Fine Art Images/Heritage Images via Getty Images
Frida a ajudou a fugir de casa para ficar com o namorado, Francisco Hernández, um espanhol que havia chegado ao México ainda adolescente.
Matilde encontrou na irmã uma confidente e, quando chegou o dia da fuga, a cúmplice que a ajudou a sair por uma varanda e a tirar as malas.
“Para os pais foi um golpe tremendo por serem tão religiosos”, afirma Kahlo Alcalá. “Mas Frida consegue que perdoem Mati e que ela volte a ser integrada à família.”
E, junto com ela, Hernández também passou a fazer parte da família.
“Era um homem fantástico”, conta Kahlo Alcalá. “Com meu pai, visitávamos o tio Paco. Era maravilhoso ir lá; chegávamos procurando os chocolates que ele deixava nos cinzeiros.”
“Tenho a impressão de que Matilde deve ter sido uma mulher muito maternal e amorosa que não pôde ter filhos. Na verdade, era a que mais se parecia com a mãe.”
Quando sua segunda esposa morreu, Guillermo Kahlo foi morar com ela, que cuidou dele até sua morte.
“Nas cartas que Guillermo escreve a Frida, encontra-se essa Mati carinhosa.”
Ele falava sobre as comidas deliciosas que ela lhe preparava, sobre como se sentia acolhido em sua casa e que ela “sempre suportava” seu mau humor.
Adriana, a outra irmã mais velha
Adriana era cinco anos mais velha do que Frida e, como Matilde, era muito religiosa e se dedicava ao lar.
Ela se casou com Alberto Veraza.

Crédito, Cedido por Mara Romeo Kahlo
“Em 1926, durante seus primeiros anos como pintora, Frida fará um retrato da irmã. Atualmente, desconhece-se o paradeiro dessa obra, mas nela já se percebe a habilidade plástica da artista”, afirma o Museu Frida Kahlo.
Romeo Kahlo não se lembra dela apenas pela ternura que demonstrava.
“Quando eu ia à casa dela, fazia uns purês de ervilha que nunca mais voltei a comer. Cozinhava maravilhosamente bem e fazia um chocolate divino.”
Cristina, a caçula
A pintora chamava Cristina carinhosamente de Kitty, que era 11 meses mais nova.
Foi a irmã com quem Frida teve mais proximidade.
“Eram amigas, cúmplices, guardavam todos os segredos, estavam sempre juntas”, conta Romeo Kahlo.
Cristina casou-se com Antonio Pinedo.
“Meu pai adorava a mãe porque minha avó não teve uma vida fácil”, diz Kahlo Alcalá.

Crédito, Cedido por Cristina Kahlo Alcalá
E é que Pinedo era “muito sedutor, bonito, mas não foi um bom marido”.
O casal teve Isolda, mas algum tempo depois se separou.
“Parece que a mãe dela (Matilde) disse à minha avó: ‘Você não pode se separar, não pode se divorciar, volte para o seu marido’ e, nesse retorno, ela engravidou.”
Quando Antonio tinha aproximadamente 3 anos, o casal se separou definitivamente.
“Meu pai não conviveu com o pai. Era uma relação bastante distante. Na verdade, ele nunca falava dele para nós.”
O pai de Kahlo Alcalá decidiu retirar o sobrenome paterno.
“Ele nos disse: ‘Nunca quis ter o sobrenome Pinedo porque não queria carregar o nome daquele homem que nunca cuidou da sua avó’. Foi a mãe dele quem trabalhou para sustentá-los, quem os criou, quem cuidou deles.”

Crédito, Cedido por Cristina Kahlo Alcalá

Crédito, Cedida por Cristina Kahlo Alcalá
E, nesse processo, suas irmãs a apoiaram.
Quando precisava sair, Cristina deixava Antonio e Isolda com Matilde e Adriana.
As duas crianças tiveram uma relação muito próxima com Frida. Houve inclusive um período em que Cristina e os filhos viveram na Casa Azul com a pintora e seu marido, o muralista Diego Rivera.
“Nem Frida nem Diego jamais nos fizeram sentir que aquela não fosse nossa casa”, escreveu Isolda no livro Frida íntima (Ediciones Dipon/Ediciones Gato Azul). Ambos “nos amaram muito”.
Mara Romeo Kahlo, filha de Isolda, conta que quando Frida convidou Cristina para morar em sua casa, ela a ajudava “em tudo, como cozinheira, motorista, companheira”.
Também viajou aos Estados Unidos, em 1946, para acompanhá-la em uma cirurgia.
“Frida lhe dizia: ‘baixinha linda, você tem que vir porque é meu apoio’. As duas davam força uma à outra.”

Crédito, Cedida por Cristina Kahlo Alcalá

Crédito, Cedido por Cristina Kahlo Alcalá
No entanto, algo que aconteceu nos anos 1930 marcou profundamente a relação entre as duas irmãs.
Depois que Cristina deixou o marido, Frida sugeriu a Rivera que a contratasse como assistente.
“Minha avó também está no Palácio Nacional pintada por Diego Rivera”, conta Kahlo Alcalá.
Quando Cristina trabalhava para o artista, surgiu um romance entre os dois. Foi um golpe devastador para a pintora.
Meses depois, Frida perdoou a irmã e também o marido. Desejava esquecer o ocorrido.
“É algo que não podemos julgar e tampouco podemos saber o que acontecia naquele momento, mas o fato é que Frida também tinha amantes”, diz Kahlo Alcalá. “Ela tinha enorme domínio sobre sua sexualidade.”
Depois de algum tempo divorciados, eles se reconciliaram e, em dezembro de 1940, Frida e Rivera se casaram novamente.
As lembranças
Você se lembra da sua avó Cristina?, pergunto a Kahlo Alcalá.
“Sim”, responde. E há duas lembranças que se destacam: “a gaveta dos tesouros”, com a qual começamos este artigo, e outra que é “um pouco forte”, diz ela.
“Cheguei a pensar que era uma espécie de sonho, que não tinha sido uma visão real, até que perguntei isso à minha mãe.”

Crédito, Cedido por Cristina Kahlo Alcalá
“Eu disse: ‘Veja, tenho a lembrança de ter visto minha avó Cristina com o tronco nu e o peito coberto. Na parte inferior das costas, tinha um cobertor azul e havia com ela um homem de jaleco branco’.”
“‘E nas costas, minha avó tinha uma cruz preta pintada.'”
A mãe respondeu: “Não é possível que você se lembre disso. Você tinha 3 ou 4 anos quando isso acontecia.”
Tratava-se de um radiologista que ia até sua casa, e a cruz preta era uma forma de marcar a área para fazer as radiografias. Cristina morreu de câncer de pulmão.
A essa lembrança se juntam outras “muito carinhosas” da avó, como quando ela dava um jeito de fazer uma piscina no jardim para eles.
Mara Romeo Kahlo também guarda várias lembranças da avó. “Eu adorava estar com ela; ela sempre mimava todo mundo.”

Crédito, Cedida de Mara Romeo Kahlo
Mas, para além do aspecto pessoal, havia algo que sua avó e suas irmãs faziam e que ela não esquece: quando abriam as portas da casa em Coyoacán e ofereciam ajuda a centenas de mulheres e mães solteiras.
As irmãs se uniam para distribuir uma espécie de cesta básica que incluía arroz e açúcar.
“Eu ajudava a entregar brinquedinhos às crianças. Tenho lembranças magníficas de toda a generosidade delas. Aprendi com elas o sentido de ajudar.”
Kahlo Alcalá recorda que seu pai também lhe contava que, na casa de Frida, quebravam-se piñatas e eram distribuídos sapatos, roupas e mochilas para as crianças das famílias de baixa renda do bairro.
O acidente que marcou tudo
Quando Frida, ainda adolescente, sofreu um acidente de trânsito que a deixou acamada por meses, a dinâmica de sua casa mudou para sempre.
“A partir daí, a família teve de se dedicar completamente a Frida”, afirma Kahlo Alcalá.
Quando saiu do hospital, sua cama foi adaptada e recebeu um cavalete para colocar as telas.
“Era preciso levar comida até a cama. Cada cirurgia, cada visita do médico, cada transferência para o hospital era algo que envolvia toda a família, e as irmãs participaram de tudo isso.”

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Matilde, a irmã mais velha, esteve com Frida no hospital para onde ela foi levada após o acidente, em 1925, e onde permaneceu por um mês.
Os cuidados de Matilde seriam uma constante na vida da pintora.
Por exemplo, em 1950, durante uma de suas hospitalizações, ela escreveu ao médico norte-americano Leo Eloesser para contar que, após uma operação na coluna, Frida havia desenvolvido uma infecção e para pedir sua orientação.
Ao longo da vida, a artista foi submetida a mais de 20 cirurgias. Nesse caminho tortuoso, foi acompanhada pelas irmãs.
“Minha avó cuidou dela em diferentes momentos, não apenas na fase final, sempre esteve muito presente”, diz Kahlo Alcalá.
‘Um livro aberto’
Muitas das referências que a fotógrafa tem sobre as irmãs de Frida surgiram de suas pesquisas como curadora.
“No caso de Frida Kahlo, temos um livro aberto, que são suas cartas. O diálogo epistolar de Frida é fantástico.”
Annette Ramírez de Arellano, especialista em saúde pública, mudou-se para Washington há mais de 20 anos.
Naquela época, uma amiga lhe deu uma associação ao National Museum for Women in the Arts (NMWA).

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Após mergulhar na biblioteca e nos arquivos daquele museu, Ramírez descobriu um grupo de cartas pertencentes ao Fundo Frida Kahlo da Coleção Nelleke Nix e Marianne Huber.
Fascinada pelo que encontrou, escreveu, junto ao sociólogo Servando Ortoll, um artigo publicado na revista Estudios sobre las Culturas Contemporáneas da Universidade de Colima, em 2013.
Em ‘Fridi Linda’: O legado epistolar das irmãs Kahlo, os autores concentraram-se na correspondência enviada a Frida por suas duas irmãs mais velhas.
“As cartas são muito espontâneas e é incrível que tenham sobrevivido, que estejam em um arquivo e que tenhamos acesso a elas”, disse Ramírez à BBC News Mundo.
No artigo, os autores afirmam que, devido aos problemas de saúde da mãe de Frida, Matilde e Adriana ficaram responsáveis por “boa parte” de sua criação.
“E quando Frida contraiu poliomielite aos seis anos e passou por um longo período de mobilidade limitada e uma convalescença complicada, Mati e Adriana assumiram um interesse particularmente maternal pela saúde e pelo bem-estar da irmã mais nova.”
Protegê-la do sofrimento
Em 1932, Frida e Diego Rivera viviam nos Estados Unidos, onde o artista havia assumido compromissos profissionais.
Na primavera, afirmam Ramírez e Ortoll, Frida escreveu à irmã Matilde contando que estava grávida e perguntando quando ela recomendaria a viagem de retorno. Matilde respondeu que seria em agosto ou setembro.

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“Pense que aí, por mais bem cuidada que esteja, você está longe de nós, que estaríamos todas atentas a você aqui.”
Depois de sofrer um aborto espontâneo, Frida também compartilhou sua dor com as irmãs.
Matilde respondeu que o que mais a entristecia era pensar que Frida estava longe delas e pediu que voltasse ao México porque precisava de “todos os nossos cuidados e atenções”.
Adriana, consternada com a perda, pediu a Frida que tivesse fé em Deus e guardasse repouso absoluto. Também lhe fez recomendações para cuidar da saúde e até sugeriu alguns remédios caseiros.
“Procure dizer ao médico o mesmo que às enfermeiras: que aí você não tem família, para que cuidem de você com mais empenho.”
Ramírez e Ortoll afirmam que, em três dos episódios mais difíceis da vida da artista (o aborto, a morte da mãe e a destruição do mural de Rivera no Rockefeller Center), Matilde e Adriana “buscaram proteger sua ‘Fridi linda’ do sofrimento”.
Seus rastros
Em muitas cartas que Frida escreveu dos Estados Unidos, é comovente ver o quanto sentia falta da mãe e das irmãs e sua preocupação com elas.

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“Como está Kitty? E a menina e Antonio? Qualquer coisa de que precisar, me diga”, escreveu à mãe em novembro de 1931.
Em outra carta, também de 1931, escreveu: “A pobre Adri me escreve tudo o que acontece com você e diz que está cuidando de você. Assim fico mais tranquila.”
Essas linhas podem ser lidas na exposição online “Mamacita Linda: cartas entre Frida Kahlo e sua mãe (1930-1932)” no site do NMWA.
Ao contrário da artista, diz Ramírez, suas irmãs não deixaram “muitos rastros”.
“Eu acho que as irmãs nunca perceberam que Frida, na verdade, teve muitas oportunidades que elas não tiveram.”
Ela se refere não apenas ao aspecto acadêmico, já que Frida estudou no Colégio Alemão e na prestigiosa Escola Nacional Preparatória da Cidade do México, mas também à oportunidade de viajar, aprender outros idiomas e conviver com personalidades destacadas como Georgia O’Keeffe, Sergei Eisenstein, León Trotsky ou os Rockefeller, para citar apenas alguns exemplos.
Mas, embora não tenham deixado muitos rastros visíveis, o fato é que deixaram uma marca indelével na artista que o mundo conhece como Frida Kahlo e que, para elas, era sua “Fridi linda”, “Fridita”, “Friduchita”.