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quarta-feira, agosto 5, 2026

Eventos climáticos viraram desafio permanente para o setor de energia, dizem executivas

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Eventos climáticos se tornam, cada vez mais, um desafio operacional permanente para o setor elétrico, e é preciso responder tanto com o reforço do sistema quanto com a comunicação com o consumidor. Essa foi uma das principais mensagens do painel sobre transição energética no Energy Hub, nesta terça-feira (4), durante o Rio Innovation Week, que reuniu a diretora de Grid e Inovação da Axia Energia, Maiza Goulart, e a diretora financeira do Grupo EDP para a América do Sul, Maria Marta Geraldes.

As executivas defenderam que o avanço da transição energética dependerá, principalmente, da capacidade de tornar redes elétricas resilientes, incorporar novas tecnologias, preparar consumidores para um mercado mais aberto e acelerar a tomada de decisões pelas empresas.

Para Maria Marta Geraldes, os eventos registrados recentemente na Europa, como a onda histórica de calor seguida de incêndios florestais, e no Brasil, como a forte ventania que castigou Rio e São Paulo na última semana, evidenciam que nem mesmo empresas acostumadas a lidar com riscos climáticos conseguem mais antecipar a intensidade dos fenômenos. Segundo ela, a EDP acompanha com preocupação os impactos do verão europeu extremo, mesmo mantendo planos específicos de preparação para a estação.

“Pegou a todos de surpresa. O mesmo que aconteceu aqui no Brasil [com a ventania]. Cada vez mais, estas alterações climáticas, estes desastres nos apanham de surpresa, portanto temos que estar cada vez mais preparados”, disse Geraldes ao Valor.

Segundo a executiva, a resposta passa por investimentos contínuos na resiliência das redes e pela capacidade de reação rápida das distribuidoras diante de eventos extremos, reduzindo o tempo de recomposição do fornecimento de energia.

A EDP vai investir R$ 10 bilhões na área de distribuição entre 2025 e 2030 (áreas de concessão de São Paulo e Espírito Santo), crescimento de 30% em relação ao ciclo de 2019 a 2024. Cerca de 70% desse investimento estão direcionados ao reforço da resiliência da rede, automação e digitalização da infraestrutura nas duas distribuidoras.

Dentro desse esforço de reforçar as ações relacionadas a eventos climáticos, cada vez mais extremos, a EDP tem também seu Plano de Adaptação Climática, de R$ 600 milhões, com 25 iniciativas que incluem poda preventiva da rede em parceria com as prefeituras, equipes pré-posicionadas com base em previsão meteorológica, blindagem de estruturas e parceria com Defesa Civil e Corpo de Bombeiros.

Do ponto de vista tecnológico, 80% dos clientes da EDP São Paulo e da EDP Espírito Santo já contam com self-healing, sistema que isola falhas e restabelece o fornecimento em segundos, mesmo durante eventos climáticos severos. “É na distribuição que conseguimos preparar melhor o sistema para responder a eventos cada vez mais imprevisíveis”, afirmou Geraldes.

A executiva também defendeu uma abordagem integrada para aumentar a resiliência das cidades. Segundo ela, parte das interrupções no fornecimento de energia durante temporais está relacionada à queda de árvores sobre a rede elétrica, o que exige maior coordenação entre distribuidoras e poder público.

Para Geraldes, a adaptação às mudanças climáticas passa necessariamente por um planejamento urbano mais eficiente, incluindo o manejo adequado da arborização, e não apenas por investimentos das concessionárias em infraestrutura.

Na mesma linha, Maiza Goulart, da Axia, afirmou que a adaptação do sistema elétrico será um dos principais desafios da próxima década. Para ela, o Brasil já ocupa uma posição privilegiada por possuir uma matriz predominantemente renovável, mas o foco agora precisa ser outro. “Neste momento, não precisamos de mais capacidade. Precisamos gerir a flexibilidade”.

A executiva defendeu que o sistema elétrico precisará incorporar armazenamento em baterias, ampliar a inteligência operacional e investir em redes mais modernas para lidar com a crescente variabilidade da geração e dos eventos climáticos.

Um dos instrumentos para isso será o fortalecimento da capacidade de previsão meteorológica. Ela contou ao Valor que Axia está concluindo um novo modelo de previsão desenvolvido em seu programa de inovação aberta, o Axel Innovation Grid. A solução reúne a startup Hanna, o Simepar (Sistema Meteorológico do Paraná) e a Nvidia e será incorporada ao centro meteorológico da companhia para aprimorar o monitoramento de condições climáticas que afetam a operação do sistema elétrico.

Educação energética e educação financeira

As executivas também chamaram atenção para um aspecto menos discutido da transição energética: a necessidade de preparar o consumidor para um ambiente cada vez mais complexo. Com a abertura gradual do mercado livre de energia, defenderam que educação energética e educação financeira passarão a ser tão importantes quanto os investimentos em infraestrutura.

Segundo Maria Marta, a expansão das opções de contratação exigirá consumidores mais informados sobre consumo, eficiência e gestão de custos. Nesse contexto, as empresas precisarão atuar não apenas como fornecedoras de energia, mas também como prestadoras de serviços e orientadoras dos clientes em suas escolhas.

Na avaliação de Goulart, a abertura do mercado e a digitalização do setor impulsionarão novos modelos de negócios, baseados em dados, inteligência artificial e serviços personalizados. “As empresas que vão continuar relevantes são aquelas que conseguem investir com disciplina, fortalecer a resiliência das redes e adaptar sua governança para responder rapidamente às mudanças do setor.”

Apesar dos desafios, ambas defenderam que o Brasil reúne condições favoráveis para liderar a nova etapa da transição energética. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o principal desafio deixa de ser produzir mais energia limpa e passa a ser construir um sistema elétrico mais flexível, resiliente e preparado para um clima cada vez mais imprevisível.

[Fonte Original]

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