A clínica junguiana se situa entre a tentativa de uma nova ciência – como proposto pelo historiador Sonu Shamdasani – e o limite do mistério – como o filósofo Peter Kingsley analisa, pela imagem do catafalco, que, para ele, é a máxima alegoria das proposições elaboradas pelo suíço C. G. Jung (1875-1961). No tensionamento entre a psicopatologia do século 19 na Europa, largamente sustentada por um paradigma racionalista, e a crítica nietzscheana à modernidade como decadência, insistiu em Jung a premissa de que a doença (ou o páthos, as paixões e os eventos de uma época) é de ordem coletiva e só pode ser tratada no coletivo.
Tal premissa guarda nexo com as propostas subsequentes de Gilles Deleuze e Félix Guattari, na França, sobre o sofrimento como fenômeno social irredutível, ou de Frantz Fanon, na Martinica, ao sugerir que a mobilização política é condição para a cura. A novidade junguiana poderia ter sido facilmente aceita não fosse atravessada por um operador clínico de difícil manejo: o conceito de inconsciente coletivo. Ao insistir na articulação entre o inconsciente e os fenômenos coletivos de alta carga afetiva, Jung não se furtou a investigar alguns daqueles mais mobilizadores: a religiosidade e a experiência mística.
Com a publicação de Transformações e símbolos da libido, em 1912, Jung rompe com Sigmund Freud, que subsequentemente o acusa de ser um profeta. Qual seria a profecia junguiana? Ainda que Freud não tenha elaborado sua acusação, persistiu sobre Jung o que se considerou ser uma incompreens
Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »