Frustrado com a baixa contratação na linha de financiamento de automóveis para motoristas de aplicativo, o governo decidiu flexibilizar as regras e ampliar os incentivos. Se for bem-sucedido no seu propósito, os riscos de uma crise nesse segmento tendem a se elevar.
Onde está o problema: quase um quarto dos que tomam empréstimos para comprar carros estão superendividados. E o aumento do prazo de financiamento e dos preços dos veículos financiados fazem o sistema financeiro ficar mais exposto a riscos de inadimplência.
Dos R$ 30 bilhões destinados à linha de financiamento, batizada de Move Brasil, apenas R$ 4 bilhões foram efetivamente contratados. O programa falha do lado da oferta: os bancos públicos e privados estão reticentes em se expor muito aos riscos desse tipo de operação, apesar do funding oferecido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de o governo ter feito uma injeção de dinheiro em fundos que garantem parte de eventuais perdas.
As mudanças, que devem ser aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), dobram a aposta na linha, conforme antecipado pelo Valor. Elas aumentam o preço dos veículos financiados de R$ 150 mil para R$ 200 mil e estendem o período de financiamento de 72 para 84 meses. Ainda faltam conhecer muitos dos detalhes, mas parece pouco provável que o governo consiga suprimir os riscos envolvidos na operação.
O segmento de crédito para financiamento de veículos já enfrenta um aumento expressivo da inadimplência. Hoje, a taxa está em 6,6%, nos dados de junho, ante 5,3% um ano antes e 4,6% dois anos antes.
Parte disso tem a ver com a alta dos juros básicos. Quando a taxa Selic chegou à mínima de 2% ao ano, em 2020, os juros médios nesse tipo de financiamento também caíram para uma mínima de 19%. De lá para cá, voltaram para perto da média histórica, em 26,4% ao ano.
Mas a taxa de juros não parece ser a principal explicação para a alta da inadimplência. O principal suspeito é o alto endividamento das famílias. O Banco Central não divulga dados periódicos sobre o peso do crédito para aquisição de veículos no endividamento, mas dá para ter uma boa ideia do problema a partir de um estudo recente publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu relatório de avaliação do sistema financeiro brasileiro.
O FMI vem propondo que o Brasil adote um teto para o comprometimento da renda com dívidas. A instituição propõe um limite de 40% para a relação entre dívida e renda, excluindo os financiamentos imobiliários.
Nas contas do Fundo, se esse teto estivesse em vigor em 2025, o volume total de empréstimos de financiamento para aquisição de veículos seria de R$ 316 bilhões, em vez dos R$ 406,9 bilhões efetivamente observados no fim do ano passado. Dito de forma mais direta: quase um quarto do estoque de crédito para aquisição de veículos não existiria se estivesse em vigor um teto de comprometimento de renda de 40%, nos moldes defendidos pelo FMI.
Os bancos têm noção do perigo que estão correndo porque, entre 2010 e 2013, houve uma crise severa no segmento de financiamento de veículos, que exigiu um freio de arrumação. Na época, a taxa de inadimplência chegou a um pico de 7,2%.
O sistema financeiro, naquele período, havia entrado em uma disputa acirrada por mercado e passou a oferecer financiamentos muito longos, com prazos semelhantes ou até maiores do que os 84 meses que agora o governo se move para adotar. Em um prazo tão longo, o risco de perda de renda é maior e o bem que garante a dívida, o automóvel, já sofreu uma depreciação significativa.
A Selic alta, atualmente em 14% ao ano, entra na equação porque reduz o apetite dos bancos em ofertar crédito de forma geral. O aperto monetário prolongado amplia os riscos para a atividade econômica e para o mercado de trabalho, o que potencialmente afeta a renda dos tomadores de empréstimo.
O governo ajuda pouco o Banco Central a baixar o juro se, volta e meia, faz políticas de crédito que entopem o canal de transmissão da política monetária, ao deixar uma parcela dos tomadores imunes à Selic. O governo garante um subsídio implícito no Move Brasil que permite que os tomadores de crédito tenham uma taxa mensal de 0,91%, no caso das mulheres, e de 0,99%, no caso dos homens.
Apesar de assumir parte das perdas com inadimplência, a conta não fecha — os ganhos não remuneram os riscos. Os bancos privados, em sua grande maioria, não entraram. As áreas técnicas dos bancos públicos, que rodam os modelos de avaliação de risco de crédito, restringem o apetite pelo produto. Daí a conclusão: se, por algum motivo, o programa deslanchar, é porque o governo está assumindo uma parcela muito grande dos riscos ou porque esse risco foi transferido para os bancos contra a sua vontade.