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A avaliação é de Christopher Sabatini, professor americano e pesquisador sênior do programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House, um dos principais centros de estudos britânicos, com sede em Londres.
“Esse é o método que ele tem operado em toda a região: causar desequilíbrio econômico com o objetivo de ‘comprar’ votos para não perder o poder nas eleições seguintes”, afirmou.
“O pior é que eles me acusam com mentiras, e eu respondo com verdades. Eu não menti. Quando respondo com verdades, o senhor Lula se sente atacado? Ele é um corrupto e um ladrão. É um condenado. Saiu da prisão por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e não ataquei os brasileiros; falei em defesa dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes [do STF], que me negou uma visita a [Jair] Bolsonaro.”
Para Christopher Sabatini, Milei busca mostrar seu alinhamento com Trump e com movimentos políticos de direita. Ele lembra que a Argentina já recebeu ajuda financeira dos EUA no passado recente — e que o país vem enfrentando dificuldades econômicas.
“As recompensas [para Milei de agradar Trump] podem vir mais tarde, em vez de imediatamente, mas podem se mostrar valiosas”, diz Sabatini.
Ele diz que a participação ativa de Milei na campanha de Flávio Bolsonaro, tendo viajado ao Brasil para participar do lançamento da candidatura, é algo sem precedentes — e que pode ter consequências para as relações entre Brasil e Argentina, em um momento em que a União Europeia e o Mercosul podem estar prestes a ratificar um grande acordo comercial.
“Se você está negociando um grande acordo comercial, isso levanta questionamentos sobre se os governos estão comprometidos com a integração econômica de longo prazo ou se considerações partidárias estão prevalecendo.”
Sabatini acredita que as declarações de Milei devem ter pouco peso junto ao eleitorado brasileiro, já que dificilmente ampliarão o apoio a Flávio Bolsonaro entre indecisos.
Confira abaixo trechos da entrevista de Christopher Sabatini à BBC News Brasil.
BBC News Brasil — O que Milei tem a ganhar com esses ataques a Lula? O que você acha que motivou esses ataques?
Christopher Sabatini — Acho que há uma lógica clara por trás do que Milei está fazendo no Brasil neste momento.
Primeiro, isso tem o objetivo de agradar Donald Trump, que serve como modelo e aliado político para ele nos Estados Unidos. Milei está tentando mostrar que está totalmente comprometido com um movimento político nos moldes do Maga [Make America Great Again] no hemisfério e com o apoio a candidatos alinhados a ele: candidatos de direita, antissistema e fora do establishment tradicional.
O segundo fator é ideológico. Desde que entrou na vida pública, Milei fala sobre a necessidade de uma revolução libertária. Embora Donald Trump não seja libertário, Milei claramente é. Ele acredita em um movimento conservador antissistema capaz de desafiar o status quo e reverter o socialismo e os modelos econômicos centrados no Estado.
Parte disso é simplesmente fruto de suas próprias convicções. Nesse sentido, ele usa uma retórica provocativa e faz aparições, como no Brasil, que acirram ainda mais essas disputas políticas.
BBC News Brasil — Se um dos motivos dos ataques de Milei é agradar aos Estados Unidos e a Donald Trump, o que ele tem a ganhar?
Isso [os ataques a Lula] também atrai a atenção não apenas de Donald Trump, mas de figuras como Marco Rubio [secretário de Estado dos EUA] e de outros alinhados a esse movimento. As recompensas podem vir mais tarde, em vez de imediatamente, mas podem se mostrar valiosas.
Por mais necessárias que tenham sido as reformas econômicas de Milei, e por mais bem-sucedidas que algumas das medidas iniciais tenham sido, a Argentina ainda enfrenta dificuldades. O país pode precisar de assistência dos EUA em outras formas. Recentemente, vimos a diretora-gerente do FMI [Kristalina Georgieva] visitar a Argentina e endossar publicamente o programa econômico de Milei. Ela também procura sinalizar à Casa Branca que apoia o projeto de Milei.
Os benefícios [para Milei] podem não ser imediatos, mas podem trazer retorno no futuro.

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BBC News Brasil — A popularidade de Milei caiu este ano, segundo sugerem pesquisas de opinião. Esses ataques a Lula também são uma forma de ele recuperar terreno perdido junto aos eleitores argentinos?
Sabatini — Sinceramente, não acho que fazer campanha em favor de um candidato presidencial estrangeiro vá ajudar Milei no cenário doméstico. Se houver algum efeito, provavelmente será negativo para ele.
Os argentinos estão enfrentando um crescimento econômico e uma geração de empregos mais lentos do que o esperado. Houve sucessos sob o governo Milei, mas a criação de empregos continua sendo uma preocupação fundamental. É pouco provável que muitos eleitores vejam com bons olhos um presidente que, em meio a esses desafios, esteja investindo capital político e tempo em uma disputa partidária do outro lado da fronteira.
Não vejo isso como um cálculo político doméstico. Isso pode ajudá-lo junto à Casa Branca, mas não acredito que o ajude junto aos eleitores argentinos.
BBC News Brasil — Você acha que as palavras de Milei terão alguma consequência séria para as relações entre Brasil e Argentina e para a região? Ou isso é apenas um episódio menor que provavelmente será esquecido após a eleição brasileira?
Sabatini — A verdade é que as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Por um lado, acho que isso pode ter implicações de longo prazo. O que estamos vendo, não apenas com Milei, mas também em outros casos envolvendo Donald Trump, é um nível sem precedentes de intervenção na política partidária de outros países.
Durante décadas, presidentes, chefes de Estado e ministros das Relações Exteriores tiveram candidatos e partidos de preferência em outros países, mas, em geral, não faziam campanha abertamente por eles. Não os apoiavam publicamente da forma como estamos vendo Trump fazer na Colômbia, Honduras e Brasil, endossando candidatos nas mídias sociais. Ou, no caso do Brasil, tomando medidas contra instituições ou juízes considerados obstáculos para esses candidatos.
Como resultado, estamos vendo surgir divisões políticas no hemisfério que antes não existiam na mesma intensidade.
Do ponto de vista econômico, Argentina e Brasil continuam estreitamente ligados por meio do Mercosul. No entanto, essa controvérsia ocorre justamente quando o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia potencialmente avança rumo à ratificação.
Francamente, você não veria esse tipo de comportamento entre parceiros europeus. Não veria, por exemplo, Georgia Meloni [primeira-ministra da Itália] ir à França para fazer campanha para a Frente Nacional ou para a Alemanha para fazer campanha para a Alternativa para a Alemanha. Isso está fora dos limites.
Se você está negociando um grande acordo comercial, isso levanta questionamentos sobre se os governos estão comprometidos com a integração econômica de longo prazo ou se considerações partidárias estão prevalecendo.
Fazer campanha por candidatos em outro país é algo sem precedentes e, francamente, estranho. Isso leva a questionar se esse é um comportamento compatível com um bloco comercial que busca uma integração mais profunda com a União Europeia.

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BBC News Brasil — O sr. acha que as palavras de Milei terão algum impacto na eleição brasileira?
Sabatini — Não acho que terão muito efeito na eleição brasileira.
Os partidos de centro-direita não se sentem totalmente à vontade com Flávio Bolsonaro. A família Bolsonaro tem uma base de apoio fiel, os bolsonaristas. Eles estão no Partido Liberal, mas, sejamos honestos, o partido foi sequestrado pelos Bolsonaros.
Eles têm uma base forte, mas provavelmente não é suficiente para alcançar os mais de 50% dos votos [necessários para ganhar a eleição]. Eles precisam dos eleitores de centro.
É improvável que o presidente da Argentina, bombástico e, por vezes, bufão, fazendo campanha em favor deles consiga persuadir os eleitores de centro que precisam conquistar. Também é improvável que isso os ajude a atrair os políticos e partidos de centro necessários para formar uma coalizão mais ampla.
No máximo, isso pode reforçar o apoio entre os simpatizantes que já possuem, mas dificilmente influenciará os eleitores indecisos, decisivos para vencer uma eleição.

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BBC News Brasil — Houve recentemente uma guinada à direita em partes da América do Sul. Ao atacar Lula, Milei está tentando se tornar uma espécie de líder da direita sul-americana?
Sabatini — Eu realmente acho que esta é, antes de tudo, uma batalha ideológica para Javier Milei. Mais do que uma tentativa de projetar a influência argentina.
Parte disso decorre de sua convicção de que o socialismo precisa ser derrotado. Há um genuíno fervor ideológico por trás daquilo que ele está fazendo.
Dito isso, acredito que existe entre Milei e outros, como Abelardo de la Espriella [presidente eleito da Colômbia] e José Antonio Kast [presidente do Chile], a percepção de que a região está se movendo em uma direção que eles veem com bons olhos, uma direção que poderia permitir uma cooperação maior.
O problema é que aquilo que frequentemente descrevemos como “ondas” políticas dos últimos 20 anos são, na realidade, manifestações de voto contra quem está no poder. Não se trata necessariamente de mudanças ideológicas profundas entre os eleitores.
É por isso que acho que devemos ser cautelosos com a linguagem das ondas políticas. O que realmente estamos vendo é volatilidade eleitoral e insatisfação com os governantes.
Mesmo que Milei esteja tentando projetar uma liderança argentina dentro de um hemisfério alinhado a Trump e defender mudanças ideológicas e proximidade com a Casa Branca, a verdade é que na próxima eleição Javier Milei poderá não estar na Casa Rosada. Então é um fenômeno de curta duração, e acho que ele está superestimando essa ideia de que se trata de um movimento político significativo e sustentável.
Daqui a dez anos, poderemos estar falando de uma onda completamente diferente.
O que estamos vivendo é uma era de volatilidade eleitoral, frustração dos eleitores e busca constante por novidades. Seja à esquerda ou à direita, os eleitores frequentemente ficam insatisfeitos com aquilo que acabam encontrando.
BBC News Brasil — Diante das recentes eleições na América do Sul, o Brasil está ficando mais isolado sob Lula como um presidente de esquerda em uma região cada vez mais governada pela direita?
Sabatini — É uma boa pergunta. O Brasil se tornaria um ponto fora da curva, e isso enfraqueceria sua influência diplomática?
A verdade é que o Brasil nunca olhou principalmente para o hemisfério ao definir seu papel no mundo. Apesar de sua retórica, o país não tem atuado de forma consistente como líder hemisférico. Por causa de sua tradição diplomática, o Brasil frequentemente voltou seu olhar para além da região, para a África, a Europa, a Ásia e a China.
O Brasil pode se tornar um tanto isolado, mas ainda existem estruturas importantes que devem seguir apesar das divisões partidárias, especialmente o Mercosul e, em alguns casos, compromissos relacionados à política climática.
Na verdade, acho que Lula manter seu curso em relação à sua agenda pode ser positivo para o Brasil. Essa não é uma afirmação partidária. Uma das fraquezas persistentes da política externa latino-americana tem sido a ausência do que muitos chamariam de política de Estado: uma abordagem consistente de longo prazo que sobreviva às mudanças de governo.
Nesse sentido, manter uma direção clara pode ser benéfico para o Brasil.
Historicamente, o Brasil muitas vezes deixou de utilizar plenamente a influência que possuía quando governos ideologicamente alinhados estavam no poder em outras partes da região. É possível argumentar que o Brasil poderia ter desempenhado um papel de liderança mais construtivo e proativo em países como Venezuela e Bolívia.
BBC News Brasil — Você mencionou que o que estamos vendo pode ser uma onda de rejeição aos governantes. Isso seria um ponto forte para Flávio Bolsonaro nesta eleição, já que ele é a oposição, e não o governante?
Sabatini — A pergunta [no caso de Bolsonaro] é se eles são vistos sob a ótica do legado do governo deles ou se ainda são vistos como outsiders. No caso de Flávio, ele é parte do sistema agora.
O seu pai foi presidente, e Flávio e seus irmãos defendem o seu pai. Eles podem tentar se apresentar como figuras antissistema, mas agora eles fazem parte do sistema político.
Parte da energia antissistema que ajudou Jair Bolsonaro a chegar ao poder será transferida para Flávio Bolsonaro. Mas não toda ela. Em certa medida, eles estão se tornando ‘notícia velha’, e isso não joga a seu favor.
Este também será um teste para muitos outros movimentos políticos na região. Seja com Milei ou com outros líderes e partidos, a questão é se eles acabarão enfrentando o mesmo ceticismo e a mesma rejeição que os ajudaram a chegar ao poder.
Francamente, muitos deles podem ter dificuldade em cumprir as promessas que fizeram aos eleitores.