O uso da inteligência artificial para fazer terapia sem o suporte profissional vem crescendo. A agência de estudos de comportamento Talk Inc.estima que 12 milhões de pessoas no Brasil utilizam essaa tecnologia para realizar um acompanhamento psicológico. A prática, no entanto, levanta questionamentos entre psicologas sobre os limites da IA no cuidado emocional.
A tecnologia pode proporcionar um ambiente percebido como seguro e funcionar como um espaço de desabafo para melhorar o bem-estar emocional ou reduzir sintomas de ansiedade e depressão. Porém, o ponto crítico é que há uma diferença entre expressar algo e elaborá-lo terapeuticamente.
Enquanto o desabafo com a IA pode trazer alívio imediato, a terapia depende de uma relação clínica baseada em escuta qualificada, vínculo e contextualização da história do paciente.
A mestre e doutora em Psicologia pela USP Célia Horta explica que o espaço para desabafo com uma IA, a princípio, se torna promissor para algumas pessoas.
“Falar sobre problemas emocionais faz com que uma pessoa tenha que admitir as próprias dificuldades e se abrir a outras pessoas. Em muitos casos, as pessoas preferem se manter idealizadas e a inteligência artificial é o convite certo para isso”, afirma Horta.
Da mesma forma, ser respondido por uma IA difere de ser emocionalmente avaliado por outro ser humano, que consegue identificar hesitações, olhares e silêncios, o que pode influenciar negativamente o desenvolvimento emocional e a criação de vínculos.
“Nem tudo que sentimos ou pensamos precisa ser validado. Em certos momentos, o terapeuta precisa ajudar a pessoa a ampliar perspectivas, questionar interpretações, reconhecer responsabilidades, tolerar frustrações e construir novas formas de se relacionar consigo mesma e com os outros”, explica Ive Camanducci, psicóloga especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental e Sistêmica.
Além de ser preocupante quando alguém começa a tomar decisões importantes sobre sua saúde mental exclusivamente com base nas respostas da IA, a prática pode ser perigosa em casos de extrema vulnerabilidade, como risco de suicídio, violência, abuso, desorganização psíquica ou outras emergências.
Apesar dos aspectos negativos do uso da tecnologia, as terapeutas indicam que conversar com uma IA pode produzir alguns benefícios, desde que os limites dessa utilização estejam claros.
Segundo Camanducci, utilizar a tecnologia de forma benéfica inclui auxiliar em casos de alívio emocional, organização de pensamentos antes de consultas e preparação de questionamentos para o terapeuta. Porém, o alívio circunstancial não equivale a um processo terapêutico.
A discussão, portanto, não está necessariamente em impedir o uso da inteligência artificial para questões emocionais, mas em estabelecer os limites dessa ferramenta. Enquanto pode auxiliar em situações pontuais, a tecnologia não deve ser confundida com um substituto para a terapia e para a relação construída entre paciente e profissional.
“A IA pode ser uma ponte para o cuidado, mas não deve se transformar no destino final desse cuidado. Os psicólogos trabalham com sua história, seus padrões emocionais e relacionais, comportamentos, vínculos, contexto familiar e social e também com aquilo que vai se revelando ao longo do próprio processo terapêutico.”, conclui Camanducci.