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segunda-feira, agosto 24, 2026

Dark Horse: O que a PF quer saber da Ancine sobre polêmico filme de Jair Bolsonaro

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Ao dar um prazo de 10 dias para a Agência Nacional do Cinema (Ancine) apresentar esclarecimentos sobre o polêmico longa-metragem “Dark Horse”, a Polícia Federal deu pistas das informações que devem subsidiar a investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a relatoria do ministro André Mendonça.

A Ancine é responsável pela regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro e, por isso mesmo, desempenha um papel-chave ao analisar o registro da produção, que precisa do aval da agência para ser exibida nos cinemas nacionais. O lançamento está previsto para depois das eleições, a partir de novembro.

No ofício de duas páginas da Polícia Federal, obtido pelo blog, os investigadores pedem que a Ancine “esclareça a situação jurídica atual” do filme perante a agência, “bem como o cronograma de execução da obra eventualmente informado ao órgão regulador”.

Outro ponto que a PF quer elucidar é quais são as pessoas físicas e jurídicas vinculadas ao filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, além de produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes do projeto que constam no banco de dados da Ancine.

“Dark Horse” abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção. Uma das linhas de investigação da PF é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante autoexílio nos Estados Unidos.

No ofício assinado na última terça-feira (18), a Polícia Federal pediu informações sobre o registro de “Dark Horse”, além de “comunicação de produção, certificação ou qualquer outro procedimento administrativo relacionado à obra cinematográfica”.

A PF também quer que a Ancine esclareça se o filme recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou “quaisquer benefícios vinculados às políticas públicas de financiamento do setor”.

Em 28 de julho, a Ancine abriu um processo administrativo e autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades na gravação do filme, o que deve constar na resposta que está sendo elaborada para a PF.

O auto de infração, emitido pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, informa a conduta que levou à intervenção da agência: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.”

Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na própria Ancine, que além de comunicar sobre a obra tem que apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado.

Nada disso, no entanto, foi feito pela produtora no caso de “Dark Horse”. Na prática, com a autuação da Go Up, a Ancine sinaliza a aplicação futura de uma multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.

Procurada pelo blog, a Go Up informou que “pretende colaborar com as investigações e esclarecer no que for necessário dentro das possibilidades da produtora”, mas frisou que “se reserva nos seus direitos constitucionais e legais, especialmente quanto à vedação de fishing expedition”.

“O filme ‘Dark Horse’ é uma produção cinematográfica norte-americana e encontra-se, neste momento, em uma nova etapa de estruturação comercial. A Europa Filmes está trabalhando no início do planejamento de comercialização e distribuição da obra no mercado brasileiro. Simultaneamente, nos Estados Unidos, também estão em andamento os procedimentos de registro e classificação indicativa da obra, como parte da preparação para sua exploração comercial. A expectativa é de que essa etapa seja concluída nos EUA até o final deste mês”, afirmou o advogado da Go Up, Ricardo Sayeg.

Produtora nunca lançou filme

Não apenas a filmagem e o financiamento de “Dark Horse” são cercados de interrogações. Proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior.

Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mário Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes. O instituto tem registro na Ancine desde 2020 mas também nunca lançou um filme nem no Brasil nem no exterior.

O filme se tornou munição para aliados de Lula – e virou uma dor de cabeça para a campanha do senador bolsonarista, respingando no seu desempenho nas pesquisas de opinião, antes de surgirem as mais recentes revelações de que o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel de R$ 2,45 milhões em Salvador como propina do Master.

Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos.

Distribuidora traçou três cenários

Em 22 de junho, a Europa Filmes entrou com um pedido de “registro de obra estrangeira” (ROE) para lançar “Dark Horse” nos cinemas brasileiros. A distribuidora planeja um lançamento de grande porte para o filme, com a exibição em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e cópias dubladas espalhadas por todo o país.

O trailer de “Dark Horse” indica que a produção foi filmada no Brasil, com diálogos em inglês e um elenco predominantemente estrangeiro, capitaneado pelo ator americano Jim Caviezel (célebre pelo papel de Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson), que interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em meio à polarização política que pode invadir os cinemas, o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, trabalha com três cenários para a performance comercial de “Dark Horse”.

Na pessimista, o filme sobre Bolsonaro repete o fraco desempenho de “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2010, e atrai 800 mil espectadores. Na realista, faz entre 1,5 milhão e 2 milhões de espectadores.

Na otimista, supera os 2 milhões – um patamar alcançado por poucos filmes nacionais lançados no pós-pandemia, especialmente os voltados para o público adulto.

Para efeito de comparação, “O agente secreto” atraiu 2,4 milhões de espectadores ao longo de quatro meses em cartaz, turbinado pelo mar de premiações e as quatro indicações ao Oscar – algo que “Dark Horse” não deve ter a seu favor, como admite o próprio Feitosa.

Segundo Feitosa, “Dark Horse” não é uma peça de propaganda bolsonarista, ainda que o trailer disponibilizado indique um tom de thriller político, ambientado durante as eleições presidenciais de 2018, com destaque para o episódio da facada em Juiz de Fora (MG).

Flávio ofuscado por Michelle no longa

Conforme informou a equipe da coluna, a dor de cabeça que “Dark Horse” causou a Flávio Bolsonaro é inversamente proporcional ao “espaço” que o longa-metragem reserva ao senador.

No filme, o personagem de Flávio é secundário, com pouquíssimos diálogos – diferentemente do espaço reservado à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um papel muito mais relevante na trama.

Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura.

Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, o filme recria cenas como um debate presidencial, mas sem usar os nomes dos adversários que enfrentaram Bolsonaro naquele pleito, como Fernando Haddad (PT) e Marina Silva (Rede). O autor do atentado em Juiz de Fora (MG) é retratado como um militante de esquerda, mas não se chama Adélio Bispo.

[Fonte Original]

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