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- Author, Matías Zibell
- Role, BBC News Mundo
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Tempo de leitura: 13 min
Eliana Yaynes e Iván Venencio se conheceram em uma manhã durante a transmissão de um programa de rádio.
“Você veio devido à questão da dívida?”, perguntou ela, com naturalidade. “Sim”, respondeu ele.
Ambos estavam ali para falar de um problema hoje bastante comum na Argentina.
Segundo os números do Banco Central do país e de consultorias locais, mais de 20 milhões de cidadãos estão endividados e cerca de 6 milhões estão em mora, ou seja, com seus pagamentos em atraso ou simplesmente inadimplentes.
A Argentina tem hoje pouco mais de 46 milhões de habitantes. Ou seja, um a cada três argentinos enfrenta problemas para liquidar a dívida adquirida com bancos, carteiras digitais, lojas de eletrodomésticos ou agiotas, como aponta a consultoria Analytica.
No mesmo dia da entrevista de Yaynes e Venencio à emissora de rádio, em 20 de agosto, ocorreu na capital argentina, Buenos Aires, a primeira marcha de cidadãos endividados. Eles reivindicaram mecanismos para refinanciar suas dívidas e protestaram contra a decisão de não intervir na crise, que tem marcado o governo do presidente Javier Milei.
Funcionários do governo argentino definiram esta situação como “uma questão entre entes privados”.
Milei atribuiu o aumento do número de endividados ao auge da compra de televisores para a Copa do Mundo de Futebol. Ele chegou até a perguntar, durante entrevista ao jornal argentino La Nación, se alguém havia colocado “uma pistola na cabeça” dos devedores para que eles se endividassem.
A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) entrou em contato com a Presidência argentina, pedindo comentários sobre a declaração do mandatário do país, mas não houve resposta até o momento da publicação desta reportagem.
Yaynes comemorou a vitória de Milei na última eleição presidencial argentina, quase três anos atrás. Agora, ela afirma que ouvir este tipo de raciocínio parece surreal.
“Eles não podem pensar que alguém tenha se endividado por capricho”, declarou ela, de Buenos Aires, à BBC News Mundo. “Tipo ‘eu estava entediada e achei que o melhor para a minha vida seria me endividar’. Este menosprezo é muito triste e degradante.”
Yaynes e seu marido estão pagando quatro empréstimos.
“Não fiz os cálculos exatos, mas, antes do quarto empréstimo, eu calculava que devia cerca de 10 milhões de pesos (US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil)”.

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“Se você não conseguir sanear as dívidas e quiser pagar, precisará contratar crédito”, explica Venencio. Ele não votou em Milei, nem no seu adversário peronista, Sergio Massa, na última eleição presidencial.
“O governo faz isso quando vai ao FMI [Fundo Monetário Internacional]. Por que nós, da microeconomia, não vamos fazer?”
Ele e sua esposa devem hoje a bancos e a familiares.
“Entre os dois cartões do meu banco, devo 10 milhões de pesos [US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil] em cada um”, ele conta.
“Nos dois cartões da minha mulher no banco dela, devemos 8 milhões [US$ 5.295, cerca de R$ 27,3 mil] em um e 9 milhões [US$ 5.957, cerca de R$ 30,7 mil], no outro.”
Dívida ‘impagável’
Venencio se lembra perfeitamente do dia em que tudo começou a sair de controle: 9 de fevereiro de 2025.
Até então, ele e sua esposa trabalhavam como assalariados e ele ainda tinha outra renda, como motorista de aplicativo. Com esta renda adicional, eles conseguiram, por exemplo, tirar as férias no Brasil que haviam planejado para fevereiro.
Mas, assim que chegaram ao território brasileiro, com sua “família misturada” (cada um com seu filho), ele ficou sabendo que seu sogro havia morrido.
“Tiramos, então, passagens para minha mulher e o filho dela poderem voltar”, ele conta. “Foi um gasto que não havíamos planejado e, obviamente, saiu do cartão.”
“Depois, minha esposa perdeu uma gravidez em março e isso, aliado à perda do seu pai, fez com que ela tirasse licença psiquiátrica no seu trabalho”, conta Venencio, de Buenos Aires, para a BBC.
Em agosto de 2025, o carro que ele usava para obter renda adicional pegou fogo. O seguro pagou apenas a metade dos gastos e ele precisou se endividar mais para fazer o conserto. Paralelamente, a renda do aplicativo era cada vez menor.
“Muitas pessoas do país foram ficando sem trabalho e começaram a trabalhar com o carro”, explica ele.
“Para dar uma ideia, quando comecei, em 2021, eu ganhava cerca de 1,8 milhão de pesos [US$ 1.191, cerca de R$ 6,1 mil] trabalhando meio período. Em alguns meses, já estava faturando menos de um milhão [US$ 660, cerca de R$ 3,4 mil]. E o aluguel do apartamento, a luz e o gás continuavam subindo.”
Em novembro, Venencio entrou em depressão. Em seguida, ele e sua mulher ficaram sem trabalho.
A esposa conseguiu recentemente um novo emprego e ele, agora, dirige seu carro entre 10 e 12 horas por dia para poder pagar os gastos mínimos da família, mas não sobra dinheiro para a dívida.
“Quando você começa a olhar os juros, aquilo se tornou totalmente impagável. Não tentamos mais negociar refinanciamento porque não podemos pagar.”

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O problema das dívidas em atraso
O diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), Hernán Letcher, elaborou um relatório sobre o endividamento no país. Para ele, o número de 20 milhões de pessoas endividadas não é o dado mais preocupante.
“Veja bem, se vou comer hoje à noite e pago com cartão, entre o momento do jantar e o pagamento, estou endividado”, explica ele.
“Para mim, o problema são os seis milhões de pessoas em mora, ou seja, que têm 90 dias de atraso no pagamento da sua dívida.”
Para agravar a situação, segundo Letcher, 55% dos quase seis milhões (cerca de 3,5 milhões de pessoas) detêm dívidas que, tecnicamente, são consideradas irrecuperáveis, como as de Venencio, que as chama de impagáveis.
O outro fator que deve ser considerado é o motivo que leva as pessoas a se endividarem.
Letcher destaca que, se alguém pede crédito para comprar um telefone celular, isso é positivo para a economia. Mas, se o empréstimo for para pagar as refeições do dia ou os serviços básicos, a situação é oposta.
“Conversei com diversos presidentes de bancos que me confirmaram que cerca de 90% do atraso de pagamento de cartões de crédito são compras de supermercado — basicamente, alimentos”, segundo ele.
Na sua opinião, o alto número de devedores em atraso é consequência da queda da renda dos lares argentinos, que foi compensada pelo endividamento.
“Veja, estou na cidade de Buenos Aires”, explica Letcher. “Aqui, o metrô aumentou 2000%; o trem, 1800%; e os serviços, 850%. Mas os salários subiram 300%.”
“E estou falando de gastos que as pessoas precisam pagar sem terem opção, pois elas não podem deixar de pegar o transporte.”
“Então, quando faço uma dívida para pagar a luz, no mês seguinte preciso pagar a luz outra vez e ainda tenho a dívida”, destaca ele.

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A dívida e suas consequências
Eliana Yaynes não se lembra de um dia específico em que tudo saiu de controle. Seu processo foi mais gradual.
No início de 2025, ela trabalhava como responsável por uma loja de decoração e revestimento. Mas, em busca de um salário melhor, ela conseguiu emprego no setor de vendas, em um atacadista.
“O problema é que, quando comecei no meu novo emprego, meu corpo não respondeu”, explica ela.
“Trabalhei em vendas até completar 30 anos. Eu andava, saía, ia visitar clientes. Mas, agora, com 47, o corpo cobrou a conta. Todos os dias, eu saía, tentava e morria tentando, até que saí de lá.”
Paralelamente, seu marido trabalhava há anos como motorista de aplicativos. Ele viu sua renda ser reduzida, devido à quantidade de pessoas que também começaram a trabalhar atrás do volante.
“Essa superpopulação fez com que, obviamente, nossa renda diminuísse muito”, prossegue ela.
“E, comigo sem trabalho, começamos a fazer pagamentos com cartão que, antes, não fazíamos, como os gastos do carro: combustível, peças de reposição, trocas de óleo e filtros.”
O cartão que eles usavam era o adicional do cartão do pai de Yaynes. E, com a falta de dinheiro, a única ferramenta que eles tinham para pagar era uma carteira digital.
“O que fazíamos era tentar financiar tudo em parcelas”, ela conta.
“Mas, em algum ponto, era uma espécie de mentira imaginar que, parcelando, as parcelas são pequenas. Depois, por menores que sejam, se forem muitas, aquilo se torna uma bola de neve.”
Em janeiro deste ano, Yaynes foi diagnosticada com câncer de mama, que ela atribui, em parte, à angústia pelas finanças familiares. E a doença a surpreendeu sem plano de saúde privado.
“Em outubro do ano passado, devido às complicações financeiras, deixamos de pagar a mensalidade do plano de saúde”, explica ela. “Mas, agora, isso volta a ser prioridade e precisamos colocar estes pagamentos mais ou menos em dia.”
“Por isso, todos os meses, pagamos a mensalidade mais antiga que devemos, pois não temos dinheiro para colocar toda a dívida em dia.”

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‘Culpa e vergonha’
A Central Geral de Trabalhadores da Argentina (CGT) organizou a manifestação de 20 de agosto, em defesa dos trabalhadores endividados. Mas também participaram grupos como os Endividadxs Organizadxs, formados pela aproximação espontânea de pessoas com dívidas.
Fernando Moyano é um dos três porta-vozes deste grupo. Ele contou à BBC que tudo começou com uma dívida que ele não conseguia liquidar.
Moyano pensava que aquilo “era um fracasso pessoal meu, pura e simplesmente”. Até que começou a entrar em contato com outras pessoas na mesma situação.
Nos seus contatos com pessoas endividadas, ele encontrou desde jovens que não conseguem um trabalho formal com salário decente até aposentados que perderam o acesso a certos remédios no serviço público de saúde e se endividaram para pagar pelos medicamentos.
Ele também conversou com pessoas que se endividaram com apostas esportivas, cassinos digitais e jogos no celular.
“A questão do instantâneo, que permite, por exemplo, sacar um crédito em minutos no seu telefone para uma carteira digital, traz problemas similares aos do jogo”, explica Moyano.
“As pessoas tentam a sorte porque acham que isso não irá mudar muito sua situação financeira, até que chegam as dívidas de jogo e, com elas, a culpa e a vergonha.”
A principal reivindicação do grupo Endividadxs Organizadxs é uma declaração nacional de emergência de crédito, que reconheça oficialmente a existência da crise e leve à tomada de medidas para combatê-la, como a regulamentação dos juros que podem ser cobrados dos devedores.
Moyano não espera uma reação positiva por parte do governo Milei, mas aposta nos projetos de lei apresentados por diversas bancadas no Congresso argentino.

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A precarização da dívida
Hernán Letcherz, do Cepa, explica que os bancos, depois de 180 dias de atraso, podem renegociar a dívida com o cliente, não emprestar mais dinheiro enquanto a dívida não for paga ou vender a carteira para uma agência de cobrança terceirizada.
Quando a pessoa não pode mais recorrer ao banco, sua outra alternativa, além dos familiares e amigos, é pedir emprestado a uma carteira digital ou fintech. Estas empresas fazem uso das inovações digitais para oferecer serviços financeiros rápidos, fáceis e acessíveis.
“É muito fácil obter crédito nestes aplicativos”, explica Letcher.
“Abro o aplicativo, aperto um botão e tenho o dinheiro na minha conta. Depois, preciso pagar. Acredito que esta facilidade também ajudou a aumentar o nível de endividamento.”
O diretor da consultoria Analytica, Claudio Caprarulo, destaca que a adoção das carteiras digitais se consolidou na Argentina durante a pandemia.
Estes fornecedores de serviços financeiros digitais se dedicaram, desde o princípio, ao setor informal em crescimento: trabalhadores sem contrato de trabalho seguro, direitos trabalhistas, previdência social e representação sindical.
“A Argentina tem um problema de informalidade muito grande e o que as fintechs fazem é se dirigir a este público”, explica Caprarulo.
“Elas dizem aos bancos ‘vou emprestar a alguém a quem você não empresta’ e chamam isso de ‘inclusão financeira’.”
Os níveis de atraso de pagamento dos devedores das carteiras digitais costumam ser mais altos que os dos bancos. E, como as entidades bancárias, as fintechs podem vender estas carteiras de devedores a empresas que se dedicam exclusivamente à sua cobrança.
Estas empresas, segundo Letcher, podem telefonar para a pessoa endividada a qualquer momento e até divulgar sua condição de devedor.
“É muito traumático, conheço muitos casos em que telefonaram para a empresa da pessoa dizendo que ela estava endividada”, ele conta.

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O terceiro passo da precarização do endividamento, depois de não poder solicitar crédito ao banco, nem a uma carteira digital, é pedir dinheiro para agiotas, a taxas de juros totalmente desregulamentadas.
A forma de cobrança pode fazer com que alguém entre na casa da pessoa em atraso para levar os móveis da cozinha ou o televisor, explica Letcher.
O secretário de Segurança da província de Buenos Aires (governada pelo peronismo), Javier Alonso, declarou à imprensa local que este tipo de cobrança vem se tornando cada vez mais violento.
“Os crimes (homicídios, tentativas de homicídio, ameaças, tiros nas pernas) causados por dívidas com criminosos, com pequenos traficantes que emprestam dinheiro, dobraram”, ele afirma.
“As famílias começam pedindo um milhão de pesos [US$ 660, cerca de R$ 3,4 mil] e, em cinco meses, devem 25 milhões” (US$ 16.545, cerca de R$ 85,3 mil).
Os juros por trás da dívida
A BBC News Mundo perguntou ao porta-voz do grupo Endividadxs Organizadxs quais são os obstáculos encontrados pelas pessoas que querem pagar suas dívidas, mas não conseguem. Fernando Moyano enumerou três deles:
“As taxas de juros abusivas praticadas pelas carteiras digitais e mesmo pelos bancos; os salários, que estão congelados e defasados em relação à inflação; e as tarifas dos serviços básicos, que estão acima da inflação.”
Em relação às taxas de juros, Caprarulo destaca que, embora a política fiscal do governo Milei não tenha se alterado (ela continua apostando na sua “motosserra” e no corte de gastos), a política monetária e a gestão das taxas de juros foram mais erráticas.
“Isso gerou saltos muito grandes das taxas de juros e muita volatilidade”, explica ele. “Quando os atrasos de pagamento começaram a aumentar, as taxas de juros para as famílias ficaram em níveis muito altos em relação à inflação.”
O diretor da Analytica indica que a taxa nominal anual (TNA) está em 70% “nos bancos que emprestam mais barato”, enquanto a inflação projetada para os próximos 12 meses é de cerca de 30%.
Esta informação relativa aos bancos é mais precisa que a existente sobre outras instituições, como as carteiras digitais, explica Caprarulo. O motivo é que estes serviços muitas vezes modificam suas taxas dependendo do cliente e do empréstimo a ser concedido.

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“Você abre uma carteira digital no seu celular e ela dirá a você, por exemplo, que, devido ao seu registro de crédito e à sua renda, irá emprestar dinheiro a tal taxa, que pode ser melhor que a que ela irá oferecer para mim”, segundo Caprarulo.
“Ao mesmo tempo, o setor das fintechs empresta por prazos muito menores. Você pode sacar um empréstimo por 10 dias e, neste caso, a taxa é diferente.”
Para Lechter, “quando você passa de um banco para uma carteira, passa de um custo financeiro total [o valor total do crédito ou financiamento, incluindo as taxas de juros, os gastos de concessão, de liquidação, IVA e adicionais] de 180% para um custo financeiro total que pode chegar a 1500% e o nível de exigência na cobrança não é o mesmo.”
As fintechs costumam se defender indicando que emprestam dinheiro para pessoas do setor informal, com risco maior de não conseguir pagar os empréstimos. Por isso, quanto maior o risco, maior a taxa.
A BBC entrou em contato com o Ministério da Economia da Argentina para conhecer a posição do ministro Luis Caputo sobre os níveis de endividamento do país, o papel do Estado e as taxas de juros cobradas pelas carteiras digitais.
A porta-voz do Ministério nos indicou uma entrevista coletiva do último dia 13 de agosto. Consultado sobre as taxas de juros dos serviços financeiros digitais, que oscilam entre 400% e 700%, Caputo respondeu na ocasião:
“Se estão cobrando taxas de 400% e 700%, elas obviamente são abusivas. Hoje, não há nada que os impeça de fazer isso. Esta é a realidade.”
Questionado se o Estado iria intervir, o ministro reiterou que se trata de uma “questão entre entes privados”.
“É preciso não confundir empatia com políticas públicas”, concluiu Caputo.