A forte alta do Bitcoin desde quarta-feira (19) mudou o tom do mercado cripto e reacendeu uma pergunta que parecia distante há poucos dias: o BTC voltou a um ciclo de alta ou apenas protagonizou mais um repique em meio a uma correção longa?
A maior criptomoeda do mercado superou os US$ 72 mil nesta quinta-feira (20), maior nível desde maio, depois de uma disparada iniciada na véspera com a ampliação das recompras de títulos de longo prazo pelo Tesouro dos Estados Unidos. Nesta tarde, o BTC era negociado perto de US$ 72.700, com alta de 6% no dia, após tocar máxima intradiária de US$ 72.868.
O movimento veio após uma combinação de fatores: alívio nos juros longos americanos, dólar mais fraco, forte entrada em ETFs, avanço da agenda regulatória cripto em Washington e uma liquidação bilionária de traders vendidos. Segundo o The Block, o Bitcoin passou de US$ 72 mil pela primeira vez desde maio depois que US$ 2,75 bilhões em posições vendidas foram liquidadas na quarta-feira.
A pergunta agora é se essa alta tem força para continuar. Para analistas, o rali começou com um short squeeze, mas não depende apenas dele. Gideon Hyams, cofundador da STS Digital, disse ao The Block que liquidações iniciam ralis, mas não os sustentam. Na avaliação dele, a queda dos juros longos, a volta dos fluxos em ETFs e um caminho regulatório mais claro em Washington são justamente os elementos que podem transformar um repique em tendência.
US$ 72 mil é teste decisivo no curto prazo
A região dos US$ 70 mil a US$ 72 mil virou o primeiro teste importante para o Bitcoin. O rompimento dessa faixa forçou traders vendidos a recomprar BTC, acelerando a alta. Mas, depois da limpeza de parte das posições alavancadas, o mercado precisa mostrar demanda real para sustentar o movimento.
Nicolai Søndergaard, analista sênior da Nansen, afirmou ao The Block que o short covering acelerou o rompimento, mas não criou sozinho a alta. Segundo ele, o cenário técnico melhorou e há suporte de demanda à vista e em ETFs, mas a sustentação acima de US$ 70 mil dependerá de compras no mercado spot. Um recuo para a região entre US$ 69.700 e US$ 69.000 seria, na avaliação dele, um teste normal do rompimento, não necessariamente uma reversão de tendência.
Essa leitura conversa com a análise de Pedro Fontes, analista de research do Mercado Bitcoin. Segundo ele, a alta do BTC ganhou força porque o mercado interpretou a ampliação das recompras de títulos pelo Tesouro americano como um sinal de que os juros longos subiram demais e exigiram algum tipo de suporte de liquidez.
Fontes ressalta que o movimento não é um “QE clássico”, já que não é o Federal Reserve criando dinheiro para comprar títulos. Mesmo assim, a mensagem para o mercado é parecida: quando o custo da dívida americana aperta demais, alguma forma de intervenção de liquidez aparece.
É nesse ponto que a tese do Bitcoin se fortalece. Se o maior mercado de dívida do mundo precisa de suporte para funcionar com estabilidade, cresce a busca por ativos escassos, previsíveis e fora da lógica de expansão da dívida pública. Para Fontes, a alta recente não é apenas um movimento de preço, mas uma reação à percepção de que o sistema financeiro tradicional exige cada vez mais suporte para lidar com dívida, juros e liquidez.
A decisão do Tesouro foi anunciada depois de uma forte pressão sobre os Treasuries. A pasta informou que vai dobrar o tamanho das recompras de títulos longos, para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, em uma tentativa de conter o estresse no mercado de dívida. A medida ajudou a interromper a alta dos juros de 30 anos, que haviam chegado aos maiores níveis em 19 anos.
Na quinta-feira, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, reforçou que as recompras podem aumentar além do valor anunciado. Segundo a Reuters, Bessent disse que o governo espera realizar recompras regulares de títulos longos e que possui um “grande conjunto de ferramentas” para atuar no mercado.
Para o Bitcoin, isso muda parte da equação macro. Juros longos elevados tornam os títulos públicos mais atraentes e pressionam ativos de risco. Se o Tesouro conseguir aliviar essa pressão, o BTC pode se beneficiar de um ambiente com dólar mais fraco, mais liquidez e maior apetite por ativos escassos.
Caminho para US$ 180 mil ainda depende de liquidez e regulação
A leitura mais otimista vem do estrategista macro Mark Connors, diretor de investimentos da Risk Dimensions. Para ele, o plano de recompras do Tesouro pode ser o primeiro sinal de uma mudança maior na liquidez dos Estados Unidos e abrir caminho para o Bitcoin buscar uma faixa muito mais alta nos próximos anos.
Connors avaliou ao CoinDesk que as compras ainda são pequenas, mas podem crescer para algo entre US$ 10 bilhões e US$ 30 bilhões por mês, caso o governo enfrente dificuldade crescente para encontrar compradores para sua dívida. Nesse cenário, uma das principais pressões sobre o Bitcoin — os juros longos altos — começaria a diminuir.
O estrategista também vê uma possível mudança nas regras de alavancagem bancária, conhecidas como SLR, como outro gatilho importante. Se bancos tiverem mais espaço regulatório para absorver Treasuries, a pressão sobre o mercado de dívida pode cair ainda mais. Segundo Connors, esse seria o momento em que o Bitcoin começaria a buscar o primeiro alvo de US$ 180 mil. Sua faixa para o ciclo até 2030 vai de US$ 180 mil a US$ 360 mil.
Essa projeção é agressiva, mas não aparece isolada. O mercado também está observando se a demanda por Bitcoin voltou de forma mais estrutural. Ki Young Ju, fundador da CryptoQuant, afirmou que a demanda por BTC ficou positiva tanto no mercado à vista quanto em futuros perpétuos pela primeira vez desde a máxima histórica de outubro de 2025. Para ele, se esse padrão se mantiver por mais um mês, será razoável concluir que o bear market terminou e um novo ciclo de alta começou.
Outro ponto importante são os ETFs. A entrada de recursos nos fundos de Bitcoin à vista dos Estados Unidos voltou a ganhar força junto com a alta do preço. O The Block destacou que o movimento foi sustentado por demanda à vista e em ETFs, não apenas por liquidações de posições vendidas.
Ainda assim, há riscos claros. O primeiro é técnico: se o Bitcoin não sustentar a faixa dos US$ 70 mil, parte do rali pode ser devolvida. O segundo é regulatório. Connors vê risco de queda a partir da região dos US$ 72 mil se o Clarity Act, projeto que busca criar regras mais claras para o mercado cripto nos Estados Unidos, não avançar até meados de setembro.
A pauta regulatória ganhou força nesta semana depois que Trump voltou a pressionar o Congresso pela aprovação de uma versão “justa” do Clarity Act. O evento na Casa Branca reuniu executivos de grandes empresas do setor, incluindo Coinbase, Gemini, Ripple e Chainlink Labs, além de autoridades da SEC e da CFTC.
O terceiro risco é que a alta tenha sido rápida demais. Paul Howard, da Wincent, afirmou ao The Block que o mercado vinha de baixa volatilidade e liquidez fraca, o que criou um ambiente em que notícias positivas poderiam gerar movimentos exagerados. Segundo ele, os volumes em 24 horas subiram cinco vezes em relação à mínima anual registrada no fim de semana anterior.
Por isso, o cenário para o Bitcoin agora é de otimismo, mas não de cheque em branco. A alta acima de US$ 72 mil mostrou que havia excesso de pessimismo e posições vendidas demais no mercado. Também mostrou que o BTC ainda reage com força quando juros, dólar, liquidez e regulação apontam na mesma direção.
Para transformar a disparada em tendência, porém, o Bitcoin precisa sustentar a região acima de US$ 70 mil, manter entrada em ETFs e confirmar que a melhora de demanda vai além do short squeeze. Se isso acontecer, a discussão deixa de ser apenas se o BTC segura US$ 72 mil e passa a mirar alvos mais ambiciosos. Inclusive os US$ 180 mil citados por Connors.
Mas, se os fluxos enfraquecerem, os juros longos voltarem a subir ou o Clarity Act travar de novo em Washington, a alta pode virar mais uma armadilha de curto prazo. O rali colocou o Bitcoin de volta ao jogo; os próximos dias dirão se o mercado está diante de uma nova tendência ou apenas de uma correção forte dentro de um ciclo ainda incerto.
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