Jânio Quadros já estava isolado em agosto de 1961, quando adotou uma medida considerada a gota d’água que faltava para seu mandato ruir. Empossado presidente da República naquele ano, ele vinha governando o Brasil de costas para o Congresso, adotando medidas consideradas bizarras como a proibição dos biquínis nas praias e cortando subsídios da indústria enquanto o país mergulhava em crise econômica. No dia 19 de agosto de 1961, Quadros esgotou a paciência de políticos e militares conservadores ao condecorar Ernesto “Che” Guevara, então ministro da Indústria de Cuba, com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, no grau Grã-Cru, a mais alta honraria do Brasil.
- Fidel Castro: A visita ao Rio antes de líder cubano abraçar comunismo
- Juscelino Kubitschek: Ex-presidente morreu em acidente ou atentado?
O rastro de pólvora aceso naquele dia levou a uma escalada na tensão ideológica existente no governo Jânio. Seis dias depois, o presidente comunicou sua renúncia. “Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração”, escreveu ele em carta. A saída do mandatário, há 65 anos, apenas aprofundou a polarização ideológica e o medo do comunismo no país, em um contexto de Guerra Fria. A crise sucessória que se seguiu levou à posse do vice, João Goulart, cuja posiçãoà esquerda de Jânio gerou ainda mais inflamação entre setores tradicionais da direita brasileira. Estava armado o cenário que levaria ao golpe militar de 1964.
- Acervo O GLOBO: Todas as edições do jornal digitalizadas para sua pesquisa
“Vossa Excelência manifestou, em várias oportunidades, o desejo de estreitar relações econômicas e culturais com o Governo e o povo brasileiros. Esse é o nosso propósito também. E a deliberação que assumimos nos contatos com o governo e o povo cubanos. Para manifestar a Vossa Excelência, ao Governo de Cuba e ao povo cubano nosso apreço, nosso respeito, entregamos a Vossa Excelência esta alta condecoração do povo e do governo brasileiros”, disse Jânio para Che Guevara na cerimônia de condecoração, no Palácio do Planalto. O ministro do país caribenho agradeceu afirmando que o reconhecimento era, antes de tudo, uma condecoração ao povo e à revolução cubana.
O arquipélago de Fidel Castro tinha se tornado rival dos Estados Unidos ao desapropriar terras de empresas americanas, em uma reforma agrária idealizada por Guevara, e ao estatizar refinarias de petróleo, ao mesmo tempo em que se aproximava da União Soviética. Essa movimentação motivou a Casa Branca a impor os primeiros embargos de exportação de produtos para Cuba.
A aproximação do governo brasileiro com Cuba fazia parte da chamada Política Externa Independente (PEI). Idealizada por Jânio, com o apoio de João Goulart, a estratégia buscava expandir mercados consumidores e projetar o país de forma autônoma na bipolarização mundial. O objetivo era romper com o alinhamento automático aos Estados Unidos e abrir canais de diálogo também com o bloco socialista. Movido por essa postura de terceira via, o Planalto já tinha reatado relações diplomáticas com a União Soviética, o que levou a UDN, liderada pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, a romper com Jânio. Não faltaram críticas também por parte da Igreja e dos militares.
Quando Guevara foi condecorado, a turma da direita estava no limite. “Somos contrários à degradação da nossa principal comenda honorífica, confiando-a a um argentino expulso da sua pátria, pelo simples fato de ter subido à crista de uma revolução em Cuba”, disse o deputado federal baiano João Mendes da Costa Filho, presidente da UDN, verbalizando uma insatisfação que circulava entre militares de alta patente. “Por trás dessa condecoração ilegalmente concedida a esse aventureiro internacional, a esse apátrida especialista em oprimir a pátria alheia, que coisa se esconde? Que aventura? Que trama das madrugadas? Que torvas conversas? Que maquinações?”, declarou Carlos Lacerda.
Para o governador, havia um golpe em curso. “O que realmente existe no Brasil, no momento, é uma pequena, astuta, mas medíocre trama palaciana para resolver por meios ilegítimos dificuldades que todos nós conhecemos e reconhecemos e que devem ser resolvidas por meios democráticos”.
A renúncia de Jânio Quadros e o golpe militar de 1964
Foram dias de muita tensão institucional até que, em 25 de agosto de 1961, após uma solenidade do Dia do Soldado, em Brasília, Jânio ouviu dos ministros militares que havia grande inquietação com a “guinada esquerdista” do governo. Àquela altura, a decisão do presidente estava tomada. Ele escreveu a carta de renúncia e se dirigiu aos auxiliares próximos: “Chamei-os para dizer que renunciarei agora à Presidência. Não sei exercê-la. Já que o insucesso não teve a coragem da renúncia, é mister que o êxito a tenha. Não exercerei a presidência com a autoridade rebaixada perante o mundo, nem ficarei no governo discutindo a confiança no respeito, na dignidade, indispensável ao primeiro mandatário”.
Segundo historiadores, o político paulista pretendia, com a saída, reunir o apoio popular a seu nome e retornar ao poder “nos braços do povo”. Como isso não funcionou, de acordo com a ordem sucessória, deveria assumir seu vice. Mas os mesmos setores que condenavam Jânio por supostos flertes com a esquerda não aceitariam facilmente a posse de Goulart, ex-ministro de Getúlio Vargas, que, naquele momento, estava em missão oficial na China. Teve início, então, a negociação que levou à adoção de um regime parlamentarista no país, com Jango na Presidência. O “experimento” durou de setembro de 1961 até janeiro de 1963, quando 77% da população decidiram, em plebiscito, pelo fim do regime.
Goulart tomou posse de novo, dessa vez no regime presidencialista. Mas sua gestão foi duramente contestada, desde o início, pelos mesmos setores que condenavam as “tendências esquerdistas” de Jânio. Após uma espiral de crises, Jango acabou deposto pouco mais de um ano depois, com o golpe militar de 31 de março de 1964, que inaugurou o período de 21 anos de ditadura no Brasil.