Empresas chinesas de inteligência artificial (IA) estão conseguindo acessar, por meio de data centers no Sudeste Asiático, o poder computacional de chips avançados da Nvidia cuja exportação direta para a China é proibida pelos EUA. A brecha, que não impede o acesso remoto aos equipamentos, passou a preocupar autoridades e legisladores americanos em meio à disputa entre Washington e Pequim pela liderança em IA.
O caso ganhou destaque depois que o funcionário da Casa Branca Michael Kratsios acusou a chinesa Moonshot AI de utilizar chips GB300 da Nvidia por meio de uma instalação na Tailândia. A acusação ocorreu menos de uma semana após a empresa lançar, em julho, seu modelo Kimi K3. A DeepSeek e a Alibaba também apresentaram recentemente novos sistemas de IA com avanços em testes de desempenho, segundo informações da CNBC.
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Acesso remoto mantém brecha nas restrições
Os chips de IA mais avançados da Nvidia estão sujeitos às regras de controle de exportações dos EUA, embora alguns semicondutores menos potentes possam ser enviados à China. O problema, segundo especialistas ouvidos pela CNBC, é que as regras atuais se concentram na propriedade e na movimentação física dos chips, e não necessariamente no uso remoto de sua capacidade de processamento.
Cassia King, pesquisadora sênior da equipe de Políticas de Computação do Instituto de Políticas e Estratégias de IA, disse que o acesso da Moonshot aos recursos computacionais de uma instalação na Tailândia poderia ser legal “desde que a Moonshot não esteja comprando e possuindo o hardware físico diretamente”. Segundo ela, o regime americano “controla os chips físicos de IA. Não abrange o acesso remoto a esses chips”.
Relatos citados pela CNBC indicam que empresas chinesas como ByteDance, Alibaba e Tencent também teriam acessado remotamente capacidade computacional de chips da Nvidia instalados em países asiáticos, entre eles Tailândia, Malásia e Japão. Uma fonte familiarizada com o assunto afirmou que a ByteDance trabalhava com a Aolani, de serviços de nuvem de Singapura que utiliza chips da Nvidia, para acessar recursos computacionais na Malásia. O acordo havia sido noticiado anteriormente pelo Wall Street Journal.
A expansão dos data centers no Sudeste Asiático aumenta a importância da brecha. Segundo estimativa da consultoria imobiliária JLL, a capacidade global de data centers poderá quase dobrar e chegar a 200 GW até 2030. Dados compilados pela DC Byte indicam que 31 centros de dados com capacidade superior a 100 MW estão previstos na Malásia, Indonésia e Tailândia, ante apenas dois atualmente.
Projeto quer incluir acesso à nuvem nos controles
Para Michelle Nie, pesquisadora visitante em tecnologia e segurança nacional do Center for a New American Security, a possibilidade de empresas chinesas utilizarem chips avançados instalados no exterior “ameaçando a segurança nacional dos EUA”. “O objetivo dos controles de exportação de chips é negar à China a capacidade de treinar inteligência artificial de ponta usando chips avançados dos EUA”, afirmou à CNBC.
O projeto Remote Access Security Act (RASA) busca ampliar os controles de exportação americanos para incluir o acesso remoto, baseado em serviços de nuvem, a hardware e software considerados críticos. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Representantes em janeiro, mas ainda depende do Senado.
Nie afirmou que a medida pode enfrentar resistência da indústria, principalmente porque provedores de nuvem teriam de cumprir exigências de identificação e verificação de clientes. Mesmo com a aprovação, porém, seria necessário criar uma regulamentação específica. Segundo a pesquisadora, a lei daria ao governo americano “a autoridade para regulamentar o acesso remoto”, mas “ainda seria necessário criar uma regra para controlar a exportação de acesso remoto a chips avançados”.
Para King, o Bureau of Industry and Security (BIS) poderia estabelecer uma norma rapidamente, possivelmente em “questão de dias”, com apoio da Casa Branca. O principal desafio, disse ela, será definir “quais recursos computacionais estão abrangidos, quem deve ser proibido de acessar remotamente esses recursos e como implementar um sistema robusto de ‘conheça seu cliente’”.
A Casa Branca afirmou que o governo Trump implementou “o regime de controle de exportações mais rigoroso da história moderna” e continua comprometido com a segurança nacional e econômica dos EUA. O Departamento de Comércio e o BIS não responderam aos pedidos de comentário feitos pela CNBC.