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terça-feira, setembro 1, 2026

Fed vê queda lenta da inflação e acena com alta dos juros

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Presidente do Fed, Kevin Warsh, durante o simpósio anual de Jackson Hole — Foto: David Paul Morris/Bloomberg

Após um início evasivo no comando do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, Kevin Warsh revelou por inteiro e sem meios termos em Jackson Hole, na sexta, o que os investidores cobraram com insistência: sua avaliação sobre o atual estágio da política monetária. Avesso à prática de os bancos centrais apresentarem orientação futura, ele deixou claro que a inflação é hoje o principal problema e que se ela não cair rapidamente e de forma significativa, o “Fed tem um trabalho a fazer” — aumentar os juros.

Warsh desarmou com isso várias armadilhas que sua primeira entrevista ao assumir o comando do banco e sua indicação pelo presidente Donald Trump, um arauto barulhento da queda imediata de juros, poderiam surgir. Ao deixar explícito que os juros poderiam subir, ele mostrou um alinhamento bem mais próximo do que se previa com o conjunto dos membros do comitê de política monetária. Na última reunião, três deles votaram por elevar as taxas, enquanto a decisão final foi por aguardar mais tempo. Havia a sensação de que Warsh teria problemas de harmonia com os membros votantes, e com seu antecessor, Jerome Powell, que permaneceu no board e participa das decisões. Warsh mostrou mais alinhamento com a ideia de que é preciso derrubar a inflação como objetivo principal e que a direção dos juros é para cima, não para baixo como Trump, que o colocou lá, quer.

O novo presidente do Fed apresentou sem rodeios os princípios que nortearão sua ação e o que considera apropriado na condução da política monetária. Dissipou dúvidas que ele próprio havia criado. Uma das mais importantes é a de que o índice de gastos pessoais de consumo (PCE, na sigla em inglês) é o parâmetro “firme” para a meta de 2%. Warsh, em declarações antes de assumir o cargo, havia mostrado predileção por determinadas medidas de preços de médias aparadas que, os analistas mostraram, tendia a subestimar a inflação corrente.

Depois, mostrou fidelidade ao duplo mandato do banco — manter a inflação em 2% com o máximo emprego possível — e, mais ao ponto, que “a taxa de juros de curto prazo é o instrumento principal” para cumprir essa missão. Antes, devido a suas declarações de que o balanço do banco estava inchado e precisaria ser reduzido, especulou-se que ele também usaria a redução dos ativos do Fed como um instrumento de política monetária. Ponderou que políticas heterodoxas podem ser úteis em tempos de crise, mas fora dessas circunstâncias é melhor não usá-las.

Warsh se disse “impressionado” com a performance da economia americana, que se fortaleceu e provou ser muito resistente a choques. Ele deu especial atenção ao crescimento de 9% dos investimentos em quatro trimestres (em especial em inteligência artificial) e com as margens de lucros das empresas do S&P 500, de 20%, que considera elevadas diante de sua média histórica. Crédito e mercado de empréstimos operam “sem quaisquer sinais de restrição”. A demanda final de gastos domésticos (que inclui investimentos), para Warsh um bom instrumento para dar indicações do futuro, cresceu 3%, mais que o PIB.

A conclusão de tudo isso é que seria forçar a mão descrever as condições financeiras atuais como “restritivas”, isto é, insuficientes para auxiliar o Fed em sua tarefa de trazer a inflação de volta à meta. Ao avaliar o balanço de riscos, Warsh, ao contrário do pêndulo oscilante entre ameaça de inflação e de fraqueza do mercado de trabalho, que marcou várias reuniões do banco sob comando de Powell, concluiu que o mercado de trabalho “vai bem” e há “pleno emprego”. O número de pedidos de auxílio desemprego na média de quatro semanas, exemplificou, está no menor nível em décadas.

“O foco predominante do Fed hoje deve estar nos preços”, disse, porque a inflação está muito acima dos 2%. Os índices caíram um pouco no verão (ainda estão em torno de 3,4%), mas para Warsh eles não apontam que as tendências subjacentes dos preços “melhoraram de forma significativa”. Como prova, disse que em 12 meses 54% dos preços dos 199 itens que compõem o PCE subiram acima de 3%, bem mais que o nível de 32% que marcou as duas décadas anteriores à pandemia. Nos últimos seis meses, a situação não melhora: 49% continuam exibindo o mesmo comportamento. Ele esclareceu então seu critério de julgamento: se a inflação subjacente não se mover “objetiva e claramente, com a velocidade suficiente” em direção à meta, é hora de o Fed agir. Há 65 meses que o banco não atinge seu objetivo, fez questão de ressaltar.

Em algum momento nos próximos meses, o Fed deve subir os juros, precificam os mercados. Isso pode ou não reduzir a animação das bolsas americanas, mas vai atrapalhar a política do secretário de Tesouro, Scott Bessent, de diminuir os juros de longo prazo, ao elevar o custo do endividamento geral. No Brasil, pode reforçar a saída recente de investimentos em portfólio e trazer pressão moderada no câmbio, que já se moveu a favor do dólar contra o real. Mas a expectativa é de mudanças graduais, não de forte instabilidade.

[Fonte Original]

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