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quarta-feira, setembro 2, 2026

Fertilizantes Heringer Pede 60 Dias À Justiça para Negociar Dívidas

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A Fertilizantes Heringer iniciou em 25 de agosto um processo de mediação com credores e pediu ao Tribunal de Justiça de São Paulo a suspensão, por 60 dias, da cobrança dos créditos incluídos nas negociações, anunciou nesta quarta-feira (2). O procedimento foi instaurado perante a Câmara Wind de Mediação e pretende criar um intervalo para que a companhia discuta alternativas para seus compromissos financeiros sem enfrentar, no mesmo período, execuções ou outras medidas que possam resultar em bloqueio ou apreensão de patrimônio. O pedido de tutela cautelar de urgência ainda será analisado pela Justiça e, segundo a empresa, as operações seguem em funcionamento.

“Em processos de reestruturação financeira, a pressão dos credores pode dificultar a negociação quando a companhia precisa administrar simultaneamente cobranças, pagamentos, fluxo de caixa e continuidade das operações”, afirma Rafael Brasil, advogado especialista em recuperação judicial. A mediação, prevista na Lei nº 11.101/2005, não significa que a Heringer tenha interrompido suas atividades nem representa a entrada automática em recuperação judicial. O instrumento abre espaço para uma tentativa de acordo antes da adoção de uma medida mais ampla de reorganização.

O pedido apresentado pela empresa pretende suspender temporariamente a exigibilidade dos créditos abrangidos pela mediação e impedir medidas de cobrança enquanto as partes discutem uma saída. O caráter da proteção solicitada é temporário: ela não elimina as obrigações nem determina, antecipadamente, condições de pagamento. Para Brasil, a questão central é preservar recursos suficientes para que a companhia continue produzindo, vendendo e gerando receita enquanto conduz as conversas com os credores.

“O processo de reestruturação financeira não envolve apenas a negociação das dívidas. O desafio é equilibrar os compromissos assumidos com os credores e, ao mesmo tempo, preservar recursos para que a empresa continue produzindo, vendendo e gerando receita”, diz o advogado. Na avaliação dele, uma renegociação capaz de reduzir a pressão sobre o caixa no curto prazo pode impedir que uma dificuldade financeira passe a atingir a operação. Para os credores, o cálculo também envolve comparar uma solução negociada com os custos e os riscos de uma disputa judicial prolongada.

A Heringer chega a essa nova negociação depois de mais de cinco décadas no mercado brasileiro de fertilizantes. A companhia nasceu em 1968, em Manhuaçu, na Zona da Mata de Minas Gerais, onde o engenheiro agrônomo Dalton Dias Heringer começou a fornecer adubos aos produtores de café da região. Filho de uma família ligada à cafeicultura, ele iniciou a atividade em pequena escala, quando a mistura dos fertilizantes ainda era feita de maneira rudimentar e uma betoneira chegou a representar um avanço na operação. A formalização da empresa ocorreu quando Dalton precisou emitir nota fiscal para vender aos agricultores.

A primeira mudança de escala veio em 1973, quando o negócio foi transformado em sociedade limitada e passou a operar em um armazém alugado próximo ao Porto de Vitória, no Espírito Santo. A localização permitiu receber fertilizantes e matérias-primas e ampliar o atendimento para produtores de outros Estados. A estratégia incluía levar os produtos até agricultores de menor porte e trabalhar com formulações adaptadas às necessidades das lavouras, combinação que ajudou a sustentar a expansão da empresa nos anos seguintes.

Em 1979, a Heringer construiu uma unidade própria em Viana, no Espírito Santo, e iniciou sua entrada em São Paulo. Seis anos depois, abriu uma fábrica em Paulínia. A rede industrial cresceu a partir dos anos 1990, com uma nova unidade em Manhuaçu, em 1996, operações em Paranaguá, em 1997, Três Corações, em 1998, e Uberaba, em 2000. Nos anos seguintes, a companhia ampliou sua presença para outros polos agrícolas, entre eles Camaçari, na Bahia, Catalão, em Goiás, e Rosário do Catete, em Sergipe.

O avanço geográfico foi acompanhado pela criação de estruturas ligadas à pesquisa agronômica. Em 1994, a empresa implantou o Centro de Pesquisas Cafeeiras Eloy Carlos Heringer, em Minas Gerais. Vieram depois iniciativas voltadas ao manejo e à adubação de pastagens e aos estudos do agronegócio. O desenvolvimento de formulações para culturas e condições de solo distintas fazia parte de um modelo construído desde os primeiros anos, quando a empresa começou a combinar comercialização de fertilizantes com recomendações para o uso dos produtos.

A estrutura societária também mudou à medida que a Heringer cresceu. Em 2004, a empresa passou a ser sociedade anônima e recebeu investimento da AIG Capital Partners. Em 2007, abriu o capital e ingressou no Novo Mercado da então BM&FBovespa. No ano seguinte, inaugurou em Paranaguá uma fábrica de superfosfato simples, o SSP, fertilizante fosfatado que pode ser aplicado diretamente no campo ou utilizado na composição de outras formulações. Em 2015, a marroquina OCP e a canadense Potash Corporation of Saskatchewan, PCS, passaram a fazer parte da base acionária.

A trajetória de expansão sofreu uma ruptura em fevereiro de 2019, quando a Heringer entrou com pedido de recuperação judicial e iniciou uma reorganização de suas obrigações e da estrutura operacional. O episódio antecedeu outra mudança relevante na história da companhia: a saída da família fundadora do controle do negócio. Em dezembro de 2021, integrantes da família Heringer assinaram um acordo para vender a participação controladora à EuroChem Comércio de Produtos Químicos.

A operação foi concluída em março de 2022 e transferiu 51,48% do capital da Fertilizantes Heringer para a EuroChem. A empresa fundada em Manhuaçu passou, assim, a integrar um grupo internacional do setor depois de uma trajetória construída a partir da mistura e distribuição de fertilizantes para cafeicultores e ampliada para diferentes regiões agrícolas do País.

A mediação aberta agora ocorre sob essa estrutura de controle e não oferece, por si só, garantia de que companhia e credores chegarão a um acordo. As condições dependerão da capacidade de pagamento apresentada pela Heringer e do que os participantes das negociações estiverem dispostos a aceitar. “O sucesso da negociação dependerá do equilíbrio entre o que a empresa consegue pagar e o que os credores estão dispostos a aceitar”, afirma Brasil. Enquanto aguarda a análise do pedido de proteção por 60 dias, a companhia mantém a produção e as vendas em funcionamento.

[Fonte Original]

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