O empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno, apresentado hoje na pesquisa Quaest, ajudou a reforçar a percepção de uma disputa presidencial mais acirrada, evidenciada em levantamentos, o que continuou a turbinar os ganhos do Ibovespa.
Novos desdobramentos do caso Master, com a divulgação de mensagens que ligam o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes também foram acompanhados de perto pelo mercado. Ainda que a relação com o cenário eleitoral não seja direta, o episódio é interpretado por participantes como um fator de enfraquecimento de Lula devido à proximidade com Moraes.
Na máxima do dia, o índice chegou a tocar os 186.028 pontos, mas perdeu um pouco de força durante a tarde, com blue chips de bancos e de commodities se afastando do melhor momento do pregão. Ainda assim, o Ibovespa fechou com alta de 3,05%, aos 185.205 pontos, distante dos 179.734 pontos vistos na mínima do dia. Trata-se da maior valorização diária desde 23 de março, quando a principal referência acionária local subiu 3,24%.
Entre as blue chips, o destaque ficou para as ações do Banco do Brasil, que subiram 5,52%, ampliando os ganhos pela quinta sessão consecutiva, refletindo o acirramento da disputa presidencial. Outras instituições financeiras também subiram em bloco, especialmente as PN do Itaú (+3,84%).
O dia também foi de ganhos para as ações da Vale, que exibiram valorização de 3,19%, e para as ações da Petrobras. No fim, as PN da petroleira ganharam 2,84%, enquanto a ON subiu 2,23%, favorecidas pelo cenário eleitoral e pela alta dos preços do petróleo.
Embora o Ibovespa esteja passando por uma forte reprecificação recente, participantes do mercado defendem que os preços ainda não refletem integralmente a percepção de uma disputa presidencial “50/50”, com 50% de chance de reeleição de Lula e 50% de possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro.
A avaliação é defendida por João Luiz Braga, sócio da Encore Asset Management. “Difícil dizer o que poderia indicar essa precificação [50/50], mas as ações domésticas ainda estão longe de um patamar razoável”, observa Braga. “Acho haveria mais espaço de ‘upside’ [valorização] na bolsa, mais fechamento da taxa dos [títulos] prefixados. O mercado teria de melhorar mais.”
Na visão do gestor, uma das explicações é o fato de as ações cíclicas domésticas não terem começado a se recuperar de verdade. “Estão devolvendo o que caíram com a venda de estrangeiros.”
Apesar de parte relevante do mercado enxergar diferenças no grau de comprometimento de Lula e Flávio Bolsonaro com as contas públicas, o Citi destaca que a necessidade de ajuste fiscal será a mesma independentemente de quem vencer as eleições. O que muda, segundo o banco, é principalmente a forma como cada governo deverá conduzir esse processo, o que levará a estratégias distintas para a bolsa brasileira.
Em um cenário de reeleição de Lula, o Citi prefere ações de empresas mais resilientes, com balanços sólidos e poder de repasse de preços, além de nomes expostos a programas do governo, como o Minha Casa, Minha Vida. Entre as principais escolhas estão Cury, Embraer, WEG, Axia, Copel, RD Saúde, Ultrapar, Gerdau, BTG Pactual e Caixa Seguridade.
Já em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, a preferência é por ações de maior duração, empresas mais cíclicas e, de forma seletiva, companhias mais alavancadas, diante da expectativa de juros de longo prazo mais baixos. Nesse caso, o banco destaca Cyrela, Multiplan, Sabesp, Assaí, C&A, Hapvida, Petrobras, Vale, XP e B3.
Hoje, o maior apetite a risco fez o volume financeiro negociado no Ibovespa subir bastante e chegar a R$ 29,9 bilhões. Já na B3, o giro alcançou R$ 39,5 bilhões. Em Nova York, o pregão também foi de alta: o Nasdaq subiu 0,45%, o S&P 500 ganhou 0,46%, e o Dow Jones exibiu valorização de 0,56%.