A escolha do chileno José Miguel Insulza para comandar a missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) que observará as eleições presidenciais do Brasil em outubro não deixou o governo do presidente Donald Trump feliz.
Ex-secretário-geral da própria OEA, ex-chanceler do Chile e militante do Partido Socialista chileno, Insulza foi anunciado para chefiar a missão pelo atual secretário-geral da organização, Albert Ramdin. A missão acompanhará o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno no dia 25 do mesmo mês.
Segundo informação publicada nesta terça-feira (8) pelo portal argentino Infobae, há um “profundo mal-estar” em Washington com a escolha de Insulza. A decisão da OEA foi classificada por integrantes da Casa Branca como um “grotesco erro diplomático” devido à proximidade política do chileno com o presidente Lula. De acordo com a informação, o governo americano considera inadequado colocar Insulza à frente de uma missão que observará uma eleição presidencial que será disputada pelo petista.
Até o momento, porém, a Casa Branca e o Departamento de Estado não fizeram críticas públicas à escolha. A Gazeta do Povo entrou em contato com o Departamento de Estado americano para comentar a informação, mas não recebeu respostas até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto e será atualizado se houver retorno.
A aproximação entre Insulza e Lula começou há mais de duas décadas. Em 2005, quando Insulza ainda era ministro do Interior do governo chileno de Ricardo Lagos (centro-esquerda), ele disputou a Secretaria-Geral da OEA. Com apoio de Lula, à época em seu primeiro mandato, o chileno venceu a disputa e permaneceu no cargo por dez anos, após ser reeleito em 2010.
Em uma declaração publicada no site da OEA em 2015, ao fazer um balanço da gestão do chileno à frente da organização, o próprio petista lembrou que seu governo “não hesitou” em apoiar Insulza e que havia trabalhado junto a outros líderes da região para fortalecer sua candidatura anos antes.
A ligação política com Lula reapareceu de forma ainda mais direta em 2016, no auge das investigações da Operação Lava Jato. Naquele ano, Insulza assinou uma declaração internacional em defesa do petista juntamente com nomes como Cristina Kirchner, José Mujica, Ricardo Lagos, Fernando Lugo e o ex-primeiro-ministro socialista espanhol Felipe González. O documento dizia que havia uma “tentativa de destruir a imagem de Lula” e afirmava que o então ex-presidente não poderia ser alvo de “ataques injustificados” à sua integridade.
A assinatura teve repercussão negativa inclusive no Chile. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados decidiu por unanimidade comunicar sua preocupação ao Ministério das Relações Exteriores chileno, argumentando que Insulza, naquele momento representante oficial do país perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ), não deveria se pronunciar sobre um processo judicial interno brasileiro.
Aproximação com movimentos da esquerda latino-americana
Em 2019, Insulza integrou a criação do chamado Grupo de Puebla, fórum que reúne ex-presidentes, ministros, parlamentares e dirigentes progressistas da América Latina e da Europa. Entre os signatários da declaração fundadora estavam, além do chileno, o agora candidato ao governo de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad, e Aloizio Mercadante, atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Na ocasião, o documento comemorava a vitória do esquerdista Andrés Manuel López Obrador no México e defendia o sucesso eleitoral de candidaturas como as de Evo Morales, na Bolívia, e do peronista Alberto Fernández, na Argentina.
Insulza também assinou documentos posteriores do grupo. Em 2022, seu nome apareceu em uma declaração que afirmava que Lula havia ficado preso “injustamente” por 580 dias e dizia que a eleição brasileira de 2018, vencida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, havia sido marcada pela exclusão do petista da disputa.
Socialista desde os anos 1980 e tese de graduação em Direito sobre Trotsky
A trajetória de Insulza na esquerda latino-americana começou muito antes de sua relação com Lula. Conforme mostra a Biblioteca do Congresso Nacional do Chile, ele é militante do Partido Socialista chileno desde 1985 e chegou a ocupar cargos na direção da legenda. Antes disso, participou de movimentos de esquerda durante sua juventude e posteriormente integrou a coalizão de centro-esquerda que se opôs ao regime militar de Augusto Pinochet.
Sua formação acadêmica também possui uma ligação direta com a história do socialismo revolucionário. Em 1969, na Faculdade de Direito da Universidade do Chile, Insulza apresentou uma tese de graduação intitulada “Teoria e prática revolucionária na obra de León Trotsky”. Naquele momento, porém, ele ainda não havia cumprido a prática profissional exigida no Chile para obter formalmente o título de advogado. Tal etapa só foi concluída anos depois, após seu retorno ao país. Insulza recebeu formalmente o título profissional de advogado em 30 de novembro de 1992.
Depois da redemocratização do Chile, o político construiu uma longa carreira em governos de centro-direita e de centro-esquerda. Foi chanceler durante o governo de Eduardo Frei Ruiz-Tagle e ministro do Interior de Ricardo Lagos antes de chegar ao comando da OEA.
Cuba e a OEA
Um dos episódios mais controversos de sua gestão à frente da OEA ocorreu em 2009, quando a organização revogou a resolução de 1962 que havia excluído o regime comunista de Cuba do sistema interamericano.
Antes da decisão, Insulza já defendia que a antiga resolução deveria ser derrubada. Ele classificava a medida como um “resíduo da Guerra Fria” e argumentava que qualquer discussão sobre uma possível reintegração de Cuba deveria ocorrer sem a restrição imposta em 1962.
Em junho daquele ano, os 34 países da organização decidiram por consenso revogar a suspensão. Insulza comemorou a decisão e afirmou que havia existido “muita injustiça” no tratamento dado a Cuba ao longo das décadas anteriores.
Cinco anos depois, quando o então presidente americano democrata Barack Obama anunciou em 2014 a retomada das relações diplomáticas entre Washington e Havana, Insulza voltou a defender uma mudança na política americana, pedindo ao Congresso dos Estados Unidos que suspendesse o embargo contra Cuba e afirmando que a estratégia de pressão anterior não havia produzido resultados.
Críticas a Trump e à direita
Em maio deste ano, em entrevista publicada pelo portal brasileiro Observatório Político dos Estados Unidos, Insulza afirmou que diversos países da América Latina haviam optado por “soluções de extrema-direita” diante da insatisfação com seus governos. Na mesma entrevista, o político chileno fez críticas diretas ao presidente Donald Trump.
Segundo ele, Trump “carece de uma visão clara de política externa” e enxerga a América Latina como alvo de “oportunismo”. Insulza também acusou a política conduzida pelo secretário de Estado Marco Rubio de reviver “os piores aspectos da Doutrina Monroe”.
Ele também criticou a operação americana que retirou o ditador Nicolás Maduro do poder na Venezuela, embora tenha reconhecido que a queda do líder chavista abriu espaço para uma mudança parcial no país.
Insulza afirmou representar o “socialismo democrático” e disse que a esquerda precisa atualizar suas propostas para as transformações do século XXI.