Crédito, Reprodução/YouTube
- Author, Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published
Tempo de leitura: 12 min
“Cadê o Lula? Por que estão escondendo seu verdadeiro paradeiro? Será por que temem que a eleição seja dada ao seu oponente, caso realmente esteja morto?”, escreveu uma pessoa no X em 9 de novembro de 2022.
Um suposto “sumiço” de Lula, acompanhado de um post no X feito por um perfil de notícias argentino que comunicava o falecimento do petista, e um vídeo durante a transição do governo — em que o vice Geraldo Alckmin (PSB) aparece sem o presidente — alimentaram as especulações.
Lula havia tirado uns dias de descanso para viajar para a Bahia com a primeira-dama, Janja, conforme noticiado pela imprensa. Mas, para muitas pessoas, a viagem escondia uma única “verdade”: Lula havia morrido.
Quando o presidente voltou a aparecer em público, uma nova teoria surgiu: aquele não era Lula, mas um substituto. E as versões variavam: ora ele era parte de um grupo de sósias que se revezavam no papel de presidente, ora usava uma máscara de silicone, ora precisava evitar eventos com reconhecimento de íris para não ter o disfarce revelado.
Desde então, conteúdos que buscam provar que Lula não é quem ele diz ser inundam perfis e canais nas plataformas digitais, alcançando milhares de pessoas — e levando muitas a acreditar nessa teoria da conspiração.
Uma pesquisa do Instituto Meio/Ideia divulgada em agosto mostrou 12,5% dos entrevistados — o equivalente a uma em cada oito pessoas — responderam que sim ao serem perguntadas: “Lula foi substituído por um clone ou sósia?”.
Um dos canais de maior alcance que propaga essa teoria é o Receitas do Noca, com mais de 2,3 milhões de inscritos no YouTube. Criado em dezembro de 2017 por Cláudio de Andrade Antônio, o canal ficou conhecido por compartilhar receitas, dicas para a casa, jardinagem e conteúdos do cotidiano.
Em 2024, porém, Noca passou a publicar vídeos sobre política e teorias conspiratórias. Entre eles, estão conteúdos que levantam suspeitas de que Lula morreu e que um sósia ocupa seu lugar.
A BBC News Brasil identificou pelo menos oito vídeos do canal relacionados à teoria, que somam mais de 1,6 milhão de visualizações. Nos vídeos analisados, Noca atribui a terceiros a suspeita, mas, ao mesmo tempo, acrescenta elementos, apresenta “evidências” e faz comentários que ajudam a reforçar a narrativa.
Em um vídeo publicado em 24 de outubro de 2024, que tem quase 460 mil visualizações, por exemplo, ele falou sobre a teoria de que uma rede de clones estaria se revezando para se passar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Noca disse que a história “mirabolante” teria sido revelada por uma suposta ex-funcionária do hospital onde Lula teria morrido. Em seguida, apresentou “indícios” que corroborariam a teoria.
“Olha esse vídeo da Gleisi Hoffmann. Lula tinha acabado de ganhar a eleição, esse vídeo é de transição do governo. Por que eles estavam tão tristes? Alguém tinha morrido?”, questionou Noca.

Crédito, Reprodução/YouTube
Em seus conteúdos, Noca também exibe fotos de Lula em diferentes momentos e chama atenção para supostas diferenças na “aparência, tom de voz e estilo de andar”. “Não querendo conspirar, mas está bem diferente do original”, disse Noca.
No dia 25 de outubro de 2024, o dono do canal de receitas voltou a falar sobre o tema. Em um novo vídeo, que soma mais de 700 mil visualizações, ele reproduziu um áudio de uma suposta ex-funcionária do hospital onde Lula teria morrido.
A descrição do vídeo — “NOVO áudio bombástico que recebi e que revela que Lula é mesmo um Clone” — apresenta a alegação como uma revelação. No áudio, a suposta funcionária levanta a suspeita de que Lula estaria “congelado” em outro país.
Noca mantém um padrão nas narrativas, sempre trazendo supostas “novas evidências” para sustentar a teoria nos vídeos.
No dia 27 de outubro de 2024, por exemplo, ele levantou a hipótese de que Lula não teria participado da reunião do Brics, na Rússia, naquele ano, porque o acesso à cúpula exigiria uma identificação por meio da íris dos olhos.
Segundo a teoria apresenytada no vídeo, para não ter seu disfarce descoberto, o sósia do presidente teria fingido uma queda no banheiro para justificar sua ausência na cúpula.
“Será que Lula não compareceu porque o sistema é de autenticação através da íris dos olhos pelo Lula não ser Lula? Será que é uma teoria da conspiração ou é real?”, questiona Noca, antes de reproduzir um outro áudio atribuído a ex-funcionária de hospital.
A BBC News Brasil procurou Noca, mas não obteve retorno.

Crédito, Reprodução/YouTube
Os vídeos sobre política são minoria no canal de Noca — cerca de 13% de um total de mais de 1,4 mil conteúdos.
A maior parte da audiência, portanto, foi conquistada com vídeos sobre receitas e outros assuntos do cotidiano. Quando começou a publicar conteúdos de teor político, Noca já tinha mais de 2 milhões de inscritos e acumulava vídeos com mais de 10 milhões de visualizações.
Segundo o doutor em Semiótica Paolo Demuru, a mistura de amenidades do dia a dia com conteúdos de caráter político é comum nas redes sociais, que se tornaram um espaço central para o debate público.
Essa sobreposição, destaca Demuru, ajuda a suavizar discursos que, isoladamente, poderiam ser percebidos como radicais ou extremistas, facilitando a circulação dessas teorias.
“O efeito de inserção dessa teoria de conspiração num discurso sobre culinária é justamente esse: não parece tão absurdo, porque essa pessoa que está me falando de receita parece uma pessoa simples. Parece o meu vizinho de casa, parece o meu tio, meu primo. Então, talvez esse conteúdo que ele está postando não seja tão absurdo assim, tem alguma base”, afirma Demuru, que é autor do livro Políticas do Encanto: Extrema Direita e Fantasias da Conspiração.
Para ele, o ponto central é a relação de confiança construída com o público que acompanha esses perfis. No caso de Noca, ela já existia entre uma audiência que acompanhava o canal principalmente pelas receitas, antes dos vídeos políticos serem inseridos.
“Esses conteúdos políticos se enfiam de maneira sorrateira ali dentro. E, a partir dessa confiança que já foi criada, por meio desses outros discursos, todos eles ganham visibilidade, ganham potência nesse sentido.”
Por que tantas pessoas acreditam nessas teorias
O caso de Noca está longe de ser isolado. No TikTok, o perfil de David França reúne publicações sobre a teoria do suposto clone de Lula que ultrapassam 1 milhão de visualizações. Entre elas, estão alegações de que um sósia usaria uma máscara de silicone no rosto para se parecer com Lula e ocupar a Presidência.
Com cerca de 89 mil seguidores, França já publicou mais de 1,4 mil vídeos na conta — cerca de 150 relacionados à teoria, segundo levantamento da BBC News Brasil.
Um dos mais recentes, publicado em agosto de 2026, alcançou 1,2 milhão de visualizações. Na gravação, ele exibiu imagens de Lula no lançamento oficial da campanha e afirmou que parte da pele da mão do petista se solta e depois é colocada de volta.
“Se você pensava que era só a máscara que era silicone… aí tem mais coisas, viu? Pode acreditar”, disse David.
A BBC News Brasil procurou o dono do perfil, mas ele não respondeu ao contato.
Nos comentários, a narrativa encontrou eco. “Por que ninguém faz nada?”, escreveu uma seguidora. “Isso tem que ser investigado de forma muito séria”, disse outra.
Em seu livro, Demuru chama as teorias da conspiração de “fantasias da conspiração” e argumenta que a escolha do termo ajuda a entender por que narrativas que podem parecer tão absurdas para algumas pessoas conseguem atrair tantas outras.
Segundo ele, o absurdo tem um poder próprio: ele produz uma espécie de encantamento na sociedade contemporânea, marcada por dificuldades e incertezas.
“As teorias ou fantasias da conspiração nos tiram um pouco da monotonia, da realidade da nossa vida cotidiana. Elas nos catapultam, nos levam a uma dimensão que é aquela da imaginação. É um pouco como acontece com as crianças que fingem viver em mundos fictícios, e isso causa a empolgação. Isso causa engajamento coletivo, inclusive”, destaca.

Crédito, Reprodução/TikTok
Ao mesmo tempo, essas fantasias não estão separadas da política, segundo Demuru. Elas se conectam a crenças e visões de mundo que já existem entre determinados grupos.
“Nesse caso da teoria do Lula, ao grupo de extrema direita ligado ao bolsonarismo, que já carrega e já vem com uma bagagem de crenças constituídas, mas que escolhe acreditar nessas teorias, ou melhor, fantasias, justamente porque elas promovem uma espécie de maravilha.”
Por isso, Demuru defende que pessoas que acreditam em teorias da conspiração não devem ser vistas simplesmente como “absolutamente ingênuas” ou como pessoas que demonstram “maluquice” ou “ignorância”.
“É uma fuga legítima desse peso da realidade, dessa busca, desse desejo, talvez muitas vezes genuíno, por outro mundo e por uma história que, de alguma maneira, encante.”
A cronologia da teoria

Crédito, Reprodução/ X
A teoria conspiratória de que Lula morreu e foi substituído por um clone começou a circular em novembro de 2022, poucos dias depois de ele vencer a eleição presidencial.
Os primeiros posts identificados pela BBC News Brasil no X foram publicados em 4 de novembro, quando algumas pessoas começaram a perguntar: “Lula morreu?”, sem apresentar uma explicação aparente para a dúvida.
No dia seguinte, usuários da mesma rede relataram que familiares estavam recebendo mensagens em grupos de WhatsApp afirmando que Lula estava morto.
Horas depois, às 21h41 de 5 de novembro, o perfil Larreta News publicou um comunicado de falecimento, acompanhado de uma imagem de Lula, anunciando sua suposta morte. A publicação, que continua no ar até hoje, dizia que o então presidente eleito tinha sido internado na Bahia após sofrer um AVC (acidente vascular cerebral).
Criado em maio de 2022, o Larreta News se apresenta como um canal de notícias ligado a Horacio Rodríguez Larreta, ex-prefeito de Buenos Aires. A conta já publicou outras informações falsas, incluindo uma sobre a suposta morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A BBC News Brasil não conseguiu contato com o perfil.
Nos dias seguintes, começaram a circular nas redes sociais áudios atribuídos a enfermeiras e médicas que supostamente trabalhariam no Hospital Sírio-Libanês.
Nos relatos, sem identificação das autoras, dizia-se que Lula teria passado mal durante a viagem para a Bahia e teria sido levado às pressas para São Paulo, onde teria morrido. Algumas das mensagens mencionavam a publicação do Larreta News e apontavam 20h45 como o suposto horário da morte.
Em 7 de novembro, o pastor Sandro Rocha, apoiador da campanha de Jair Bolsonaro (PL) e dono de um canal com mais de 700 mil seguidores no YouTube, fez uma transmissão ao vivo questionando o paradeiro de Lula.
“Por que estão publicando fotos antigas? Por que não tem foto nova do Lula?”, perguntou Rocha. Ao longo de novembro, ele publicou uma série de conteúdos em que sugeriu que Lula teria morrido e que um sósia estaria no seu lugar.

Crédito, Reprodução/YouTube
Ao mesmo tempo, a teoria passou a incorporar acontecimentos reais como supostos indícios de que algo teria acontecido.
Um deles foi a ida de Lula ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em 12 de novembro de 2022 — para realizar exames antes de sua viagem à COP27, no Egito — e o retorno ao hospital, no dia 21 daquele mês, para uma cirurgia na garganta.
“Estão falando que o Lula morreu desde sábado dia 19/11/2022! No Hospital Sírio-Libanês, no sexto andar! Morreu de infarto do miocárdio! Estão falando que o STF não quer que divulguem! Isso é verdade?”, escreveu uma pessoa no X em 24 de novembro de 2022.
A ausência de Lula na equipe de transição do governo, que foi liderada pelo vice Geraldo Alckmin, também gerou desconfiança.
“O rosto de espanto da mulher do outro lado com a boca aberta não esconde que sabiam de alguma coisa. O Lula morreu nesse dia, o Geraldo falando tranquilo, achando que iria assumir a presidência…”, escreveu uma pessoa em um vídeo da transição do governo publicado pelo Partido dos Trabalhadores, em dezembro, no YouTube.
Nas redes sociais, circulavam alegações de que tudo estaria sendo mantido em segredo por razões políticas. Segundo essa teoria, seria necessário esconder a morte de Lula até a diplomação para evitar uma reação dos militares ou até mesmo para impedir que Jair Bolsonaro assumisse a Presidência.
Essa interpretação, porém, não encontra respaldo nas regras de sucessão. De acordo com a legislação eleitoral, se o presidente eleito morrer antes da diplomação, o vice-presidente eleito assume a condição de presidente eleito.
À medida que Lula passou a participar de compromissos públicos, um desdobramento dessa teoria começou a ganhar força: a de que Lula teria sido substituído por um sósia.
Vídeos passaram a comparar imagens antigas de Lula com fotos atuais e apontar supostas diferenças nos dedos das mãos, nos olhos, no formato do rosto e em outras características físicas.
Um dos conteúdos, por exemplo, afirmou que Lula aparecia na COP27 com “10 dedos” e usava uma imagem de sua mão como suposta prova de que ele seria um sósia. A imagem, porém, mostrava a mão direita, que tem cinco dedos, e não a esquerda, que tem quatro — um deles, o dedo mínimo da mão esquerda, foi perdido em um acidente de trabalho, em 1964, quando Lula era metalúrgico.
Outros vídeos chegaram a manipular imagens para acrescentar um dedo à mão do presidente e a exibir máscaras de silicone supostamente usadas por pessoas para se passar por Lula.
A busca por indícios para confirmar uma teoria é uma característica comum do discurso conspiratório, segundo Demuru. No caso da narrativa sobre o clone de Lula, vídeos e publicações nas redes sociais recorrem justamente a esse mecanismo, que Demuru compara a uma espécie de “caça ao tesouro”.
“Isso é muito interessante, porque se vai atrás justamente desses pequenos detalhes: ‘Mas olha, você não viu que aqui a mão do Lula tem quatro dedos? Você não viu que que aqui o olho dele está dessa forma?’ Isso gera um engajamento tanto individual quanto coletivo”, destaca.
Desde 2022, Aos Fatos e Agência Lupa — duas das principais agências de checagem do país — publicaram pelo menos 20 verificações sobre a teoria, segundo levantamento da BBC News Brasil.
Isso, contudo, não impediu que a narrativa voltasse a circular. Em uma análise publicada em setembro, o Aos Fatos mostrou que a alegação de que Lula teria sido substituído por um clone ou sósia viralizou novamente durante a campanha eleitoral. A agência disse à BBC News Brasil que ainda recebe pedidos de checagem sobre o assunto.
Nos últimos anos, a teoria também reapareceu em momentos em que Lula passou por novos procedimentos médicos, como em setembro de 2023, quando fez uma cirurgia no quadril, e em outubro de 2024, depois de sofrer uma queda antes de uma viagem à Rússia.
Os dados de buscas do Google ajudam a mostrar essa recorrência. As buscas com “Lula morreu” voltaram a subir nesses períodos e tiveram uma nova elevação em 2026.
Já termos como “Lula sósia” e “Lula clone” também registraram aumento em outros momentos, como em junho de 2025, quando vídeos comparando fotos de Lula voltaram a circular após sua participação na cúpula do G7.
Segundo Demuru, a própria lógica da conspiração, que surge a partir da desconfiança, ajuda a explicar por que a narrativa continua ressoando em milhares de pessoas.
“A criação de dúvida e da suspeita move o corpo social, porque a gente tem uma suspeita e a gente age como se fosse um pequeno investigador e vai atrás e quer saber um pouco dessas coisas e quer comprovar, quer ter razão também.”
Ele compara esse mecanismo ao da fofoca, que é alimentada pelo desejo coletivo de buscar informações e saber cada vez mais sobre aquilo.
“A fofoca não é fofoca se permanece no indivíduo, ela precisa ser compartilhada. Da mesma forma, o discurso conspiratório, nesse caso, a teoria do clone do Lula, age de maneira muito parecida, como se fosse uma grande fofoca que alimenta suspeitas, dúvidas, busca de indícios, e do ‘e se for verdade’.”