Em 2021, o Brasil participou pela primeira vez do Estudo Internacional de Progresso em Leitura (Pirls), avaliação que mede a compreensão leitora de estudantes do 4º ano do ensino fundamental. O resultado brasileiro foi de 419 pontos, abaixo do ponto central da escala, de 500. Cerca de 38% dos estudantes não haviam dominado sequer as habilidades mais básicas avaliadas, como localizar e reproduzir informações explicitamente apresentadas. Outros 24% dominavam apenas essas habilidades mais elementares. Somados, os dois grupos representavam 62% dos alunos. Apenas 13% alcançaram os níveis alto ou avançado de compreensão leitora.
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A próxima edição da avaliação está prevista para este ano, com divulgação dos resultados em 2027. Será a partir dela que o país terá uma comparação direta da evolução de seus estudantes. Mas entre educadores o diagnóstico já foi feito: num mundo cada vez mais fragmentado, tem sido trabalhoso garantir que os estudantes realmente entendam aquilo que estão lendo. Crianças e adolescentes podem chegar ao fim de um texto sem conseguir explicar sua ideia principal, perceber uma ironia ou chegar a uma conclusão.
— Os resultados das avaliações internacionais mostram números abaixo da média, principalmente em leitura, e há pesquisadores que relacionam esse movimento também à nossa mudança para o smartphone e para as redes sociais — diz Teca Pontual, mestre em Política Educacional Internacional pela Universidade de Harvard e diretora-executiva do Instituto João e Maria Backheuser (IJMB). — É tudo muito rápido, muito curto, o que pode estar relacionado a esse déficit de atenção que estamos observando. Abraçamos essas novas tecnologias de uma forma que, olhando para trás, podemos considerar pouco responsável, porque não tínhamos como saber onde isso iria nos levar.
O processo de aprender a interpretar já começa na educação infantil. Antes de dominar o código escrito, a criança aprende a atribuir sentidos às histórias que escuta, às imagens que observa e às situações que vivencia. É nesse período que amplia o vocabulário, o repertório e a capacidade de estabelecer relações entre diferentes informações.
— A criança já nasce num ambiente letrado; esse universo está presente na vida dela desde o primeiro momento — observa Fabiana Salatiel, coordenadora do segmento Infantil do Centro Educacional Espaço Integrado (CEI).
Na escola, uma capa de livro, o nome da criança, uma embalagem ou uma placa podem servir como ponto de partida para perguntas e formulação de hipóteses. Ao ouvir uma história sobre uma praia, por exemplo, a criança pode relacionar o que está sendo contado às próprias experiências. Ao reencontrar uma bruxa ou um lobo em outra narrativa, pode comparar personagens e perceber que eles desempenham funções semelhantes, mas aparecem em situações diferentes.
— Eles vão fazendo conexões que vão trazendo sentidos — diz Fabiana.
O trabalho também envolve a reprodução oral das histórias. Ao pedir que a criança reconte o que ouviu, o professor consegue observar se ela de fato compreendeu a sequência dos acontecimentos, se identifica começo, meio e fim e quais detalhes conseguiu preservar.
A alfabetização, naturalmente, é uma etapa decisiva no processo de aprender a interpretar, diz Teca Pontal. A chamada “ciência da leitura”, explica, reúne conhecimentos de diferentes áreas para explicar como o cérebro aprende a ler. O estudante precisa primeiro estabelecer a relação entre letras e sons, e, à medida que avança, fazer desse reconhecimento das palavras um processo mais automático. É a fluência: quanto menos esforço o leitor precisa fazer para decodificar cada palavra, mais recursos cognitivos ficam disponíveis para compreender o que está sendo dito.
Thiago Braga, professor de língua portuguesa e gestor de linguagens do Colégio pH, diz que a dificuldade de interpretação aparece no cotidiano da sala de aula principalmente quando o estudante precisa ultrapassar a leitura mais literal. Não basta reconhecer uma palavra: é preciso compreender seu sentido naquele contexto e mobilizar conhecimentos para interpretar recursos como metáforas, ironias e outras camadas de linguagem.
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— Há uma dependência gerada pela falta de leitura profissional e também pelo excesso de informação nas redes sociais. Às vezes, a gente percebe uma dificuldade grande quando trabalha com exercícios que saem do nível básico de entendimento — relata.
O problema não fica restrito às aulas de português. No pH, a interpretação dos enunciados é trabalhada também em outras áreas.
— Muitas vezes os alunos sabem a parte matemática da questão, por exemplo, mas não entendem o que precisam fazer por não saberem interpretar o enunciado — explica Braga.
Para auxiliar nessa compreensão, o pH vem aumentando o uso de livros relacionados a outras áreas do conhecimento, com narrativas que permitam trabalhar conteúdos de matemática, geografia e ciências ao mesmo tempo em que as habilidades de leitura são desenvolvidas.
O hábito de ler construído fora da escola também pesa na compreensão leitora. Quando o contato com livros e outros textos no ambiente doméstico é limitado, dizem especialistas, a escola passa a ter papel ainda mais importante na formação do aluno.
Entender o sentido do que se lê depende também do vocabulário, da linguagem oral, do conhecimento prévio e do contato do estudante com diferentes gêneros textuais. E o conhecimento de mundo é especialmente importante, salienta Teca Pontal.
— Um aluno pode ler fluentemente um texto sobre beisebol, por exemplo, mas ter dificuldade para compreendê-lo se não souber as regras das partidas ou quem são os jogadores envolvidos. A leitura das palavras acontece; o sentido, porém, não se completa — aponta.
Essa diferença ajuda a explicar por que melhorar a interpretação não se limita a aumentar a carga de exercícios de perguntas e respostas. É preciso construir repertório e ensinar estratégias de leitura, diz a educadora.
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Muito o que avançar no Pisa
Outra avaliação internacional que permite observar o desempenho brasileiro ao longo do tempo, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), aplicado a jovens de 15 anos, mostra um cenário de pouca mudança de um ano para o outro no que se refere a leitura e interpretação.
Na pesquisa de 2025, cujo resultado foi divulgado este mês, cerca de 49% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, considerado o patamar mínimo pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No nível 5 ou acima, reservado aos estudantes capazes de compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos e distinguir fatos e opiniões a partir de pistas implícitas, o Brasil teve apenas 1%, contra 6% na média da OCDE.
A comparação com os anos anteriores não aponta melhora recente. O resultado médio brasileiro de 2025 foi semelhante ao de 2022 e permaneceu próximo dos níveis observados nas avaliações desde 2015. A proporção de estudantes abaixo do nível 2 também não apresentou mudança significativa entre 2015 e 2025.
O Pisa 2025 mostra como a tecnologia já faz parte da relação dos estudantes com os textos: 48% dos brasileiros de 15 anos disseram usar inteligência artificial pelo menos semanalmente para ajudar a aprender, enquanto 31% afirmaram utilizá-la para resumir textos que precisavam ler.
Atentas aos novos hábitos dos estudantes, escolas já usam textos de internet nas aulas de interpretação. Na Cubo Global School, o projeto “Ler além do texto” trabalha com alunos do ensino médio a leitura de propostas de redação, questões discursivas, textos opinativos e publicações de redes sociais.
Nas aulas, a professora de português Alessandra Ferreira propõe que os alunos diminuam o ritmo da leitura para observar não apenas o que está escrito, mas também elementos como título, imagem, autoria, contexto e informações implícitas.
— Uma leitura eficaz exige perceber nuances, contexto, ironias, subtextos e a lógica de uma ideia. Em sala, buscamos fazer o aluno sair do “eu acho” para o “eu interpreto porque o texto me dá elementos para isso” — diz.
A aluna Julia Mares, da 1ª série do ensino médio, afirma que as atividades estão impactando positivamente no seu processo de leitura, escrita e interpretação:
— Passei a ler com mais calma e a refletir mais sobre o que estou lendo. Hoje, procuro questionar mais, observar diferentes lados de uma informação e pensar sobre um assunto a partir de várias perspectivas antes de chegar a uma conclusão.
Na Eleva Barra, a leitura de obras literárias é associada a músicas, imagens, pesquisas, debates e produção de conteúdo para incentivar que os alunos não apenas compreendam o texto, mas estabeleçam relações, levantem hipóteses e sustentem interpretações com base no que leram.
Em uma atividade recente, alunos do 9º ano relacionaram a leitura de “Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela ONU, por meio da produção de infográficos e de trabalhos artísticos. Em outra frente, os estudantes analisam sambas-enredo relacionados a obras da literatura africana e discutem temas como a crise migratória e a realidade dos refugiados a partir da leitura de “Refugee”, de Alan Gratz.
A interpretação também aparece nas rodas de leitura e debates, nas quais os alunos são estimulados a defender suas leituras e sustentar argumentos com elementos encontrados no próprio texto. As atividades incluem ainda leitura de imagens, fotografia e memória, além da produção escrita.
Iniciativas na rede pública
Na rede municipal do Rio, a professora Gisele Ramos adaptou um projeto de leitura às mudanças no perfil dos estudantes. No GET Rodrigues Alves, na Barra, ela retomou este ano a iniciativa “Faça a vida valer — Vá ler” com uma turma de 7º ano e duas de 8º, trabalhando um livro por bimestre. Em grupos de seis a oito alunos, os estudantes alternam momentos de leitura individual ou coletiva com atividades de análise e debate sobre o contexto das obras, relacionando os temas às próprias vivências. No formato original do projeto, os estudantes deviam ler um livro por semana, mas, na prática, não conseguiam cumprir o prazo, percebeu a professora.
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Já a professora de português Ana Paula Portella, do Colégio Estadual Maria Terezinha de Carvalho Machado, na Praça Seca, passou a incluir jogos interativos nas aulas como estratégia para melhorar o desempenho dos alunos em interpretação de texto. A proposta é que os próprios estudantes criem os jogos, que podem ser físicos ou on-line, sempre relacionados aos conteúdos trabalhados em sala.
Ana Paula indica-lhes plataformas com versões gratuitas que podem ser usadas na produção. Ao cumprir corretamente a missão proposta pelo jogo, o aluno recebe uma recompensa, geralmente de um a três pontos na média da disciplina.
— Fui observando os alunos em sala, e professores de outras disciplinas também sinalizavam que eles sabiam a matéria, mas não compreendiam as questões. A partir disso, dei prioridade à leitura e à interpretação. A leitura está no nosso dia a dia, no nosso cotidiano, e procuro levar para a sala de aula diversos gêneros textuais. Eles realizam atividades para identificar as diferenças e semelhanças entre esses gêneros e, assim, vão desenvolvendo também senso crítico — diz.
Enfrentar as dificuldades na compreensão leitora, destaca a especialista Teca Pontual, não deve se restringir a estimular o pensamento crítico do aluno. É preciso investir na formação dos professores, acompanhar de perto a aprendizagem das turmas e usar os resultados para ajustar as estratégias de ensino. E que os docentes conheçam técnicas de fomento à leitura, tenham tempo para planejar as atividades e acompanhem sistematicamente o desenvolvimento dos alunos. Avaliação e monitoramento servirão para identificar onde estão as dificuldades e orientar mais estrategicamente a intervenção pedagógica.
— Precisamos de crianças com cada vez mais fluência e de professores que conheçam boas estratégias para trabalhar a interpretação em sala. Para isso, a formação continuada é fundamental. E é preciso acompanhar os resultados das turmas, para que o professor tenha tempo de rever o planejamento e ajustar as estratégias de acordo com o que os alunos estão mostrando — diz. — Esse acompanhamento também precisa acontecer nas redes de ensino e nas secretarias de educação, que devem estar próximas das escolas, monitorando os indicadores e identificando o que está avançando e o que não está.
*Esta matéria integra o Especial Educação publicado em 27/09 no GLOBO-Barra