Ao anunciar recentemente novas projeções para o comércio internacional, a Organização Mundial do Comércio (OMC) destacou como o Brasil tem sido um dos fatores importantes para manter o abastecimento mundial de petróleo neste ano, em meio à queda de fornecimento causada pela guerra no Golfo Pérsico.
Nesse cenário, sem surpresa, a expansão da indústria petrolífera brasileira foi um dos destaques no ‘’Brazil Commodities Forum Geneva’’, realizado esta semana na cidade suíça que é um dos principais centros mundiais de trading de matérias-primas.
No fórum que reuniu cerca de 220 representantes de instituições financeiras, tradings internacionais, produtores, investidores e organizações empresariais, projeções apresentadas apontam que a produção brasileira de petróleo, atualmente próxima de 4,6 milhões de barris por dia, poderá saltar para 5,2 milhões de barris diários em 2027, impulsionada pela entrada de novas unidades de produção em Búzios.
Com turbulências de fornecimento do Oriente Médio, compradores recorreram ao Brasil. As exportações, hoje superiores a 2,6 milhões de barris por dia, poderão atingir 3,2 milhões de barris diários no mesmo período. As exportações brasileiras para a Europa aumentaram 70% comparado com a média pré-guerra e para a India cresceram 30%. Nada menos de 50% de todas exportações de petróleo bruto brasileiro vão para a China.
Recentemente, no Valor, José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), estimou que a exportação de petróleo este ano atinja US$ 59,96 bilhões, com aumento de 34,2% contra 2025. A soja deve vir em segundo, com US$ 53,25 bilhões, com alta de 22,3%.
Essa situação, na avaliação de certos participantes, ilustra o posicionamento do Brasil como fornecedor seguro de petróleo, em meio aos conflitos geopolíticos. Uma vantagem apontada é a localização geográfica do país no Atlântico Sul. O petróleo brasileiro não enfrenta ‘’chokepoints’’, podendo acessar a Ásia pelo Cabo da Boa Esperança e Europa e Américas pelo Atlântico, portanto sem depender de estreitos estratégicos ou rotas marítimas diretamente expostas a conflitos.
Um relato destacou que produtoras independentes transformam campos maduros em oportunidade de crescimento e com aumento na produção reduzindo custos de extração (lifting cost). O fator médio de recuperação de petróleo no Brasil ainda é de 21%, comparado com cerca de 35% no mundo e 47% na Noruega.
Uma pequena produtora independente relatou que seu custo de extração do petróleo por barril (lifting cost) é de 7,8 dólares.
O entusiasmo no setor parece ser grande com chamadas novas fronteiras exploratórias, como na Faz da Amazonia, e tecnologias que podem aumentar a recuperação das reservas brasileiras.
Em meio ao aumento da produção e das exportações, também cresce a discussão sobre instrumentos financeiros específicos para o petróleo brasileiro. Hoje, a maior parte das operações internacionais utiliza como referência os benchmarks Brent e WTI, com diferenciais de preço relacionados às características e condições comerciais de cada tipo de petróleo.
Uma avaliação foi de que a ampliação da liquidez no mercado físico brasileiro poderá favorecer, no futuro, a criação de referências de preços mais específicas e instrumentos de proteção financeira adaptados às características do petróleo nacional. São mecanismos que poderiam contribuir para reduzir riscos de preço e facilitar o acesso dos produtores a financiamentos internacionais.
Apresentações destacaram também os efeitos da volatilidade energética sobre o agronegócio. Foram apresentados cenários nos quais o petróleo WTI estava próximo de US$ 103 por barril, enquanto os preços do diesel atingiam valores equivalentes a US$ 200 por barril.
O aumento dos custos energéticos representa uma pressão significativa sobre a produção agrícola, especialmente nas despesas com combustíveis, transporte e logística.
A constatação é de que os preços das safras não estão acompanhando os custos dos insumos. Os preços dos óleos vegetais estão entre as poucas commodities agrícolas cujos preços têm acompanhado o aumento do custo do diesel.
Embora commodities como milho e soja tenham registrado valorização, os aumentos não acompanharam integralmente a elevação dos custos dos insumos.
O mercado de fertilizantes também permanece exposto às oscilações internacionais dos preços do gás natural e às possíveis restrições de abastecimento.
Grande parte do fórum focou na transformação da agricultura brasileira. Entre 1977 – 2025/26, a área plantada aumentou 125%; o crescimento da produção foi de 869% (de 37 milhões de toneladas para 358,6 milhões de toneladas); o ganho real de rendimento foi de 330% (o número de toneladas colhidas por hectare mais que quadruplicou durante o período).
O potencial continua enorme, mas há desafios à frente: O envelhecimento da população, aliado à desaceleração — ou, em alguns casos, ao declínio — do crescimento e do consumo per capita de grãos e carne; a demanda por alimentos e rações, por si só, não é mais suficiente para absorver os ganhos contínuos de produtividade — um desvio fundamental dos padrões históricos que coloca a agricultura em uma encruzilhada. Os biocombustíveis são vistos como um catalisador para a preservação da agricultura e a transição energética global
As transformações da economia chinesa e seus impactos sobre os mercados de mineração também estiveram entre os assuntos debatidos.
Uma projeção é de que os preços de minério de ferro enfraqueçam mais até o final do ano. Os preços médios para produto de grau médio podem ficar em US$ 90/dmt no 4º trimestre, em meio a uma demanda moderada, margens das siderúrgicas em queda e estoques portuários historicamente altos, mantendo uma trajetória de baixa até o final do ano, com média anual de US$ 99/dmt.
A enorme desaceleração do setor imobiliário chinês trás um desafio para a demanda por minério de ferro. Ao mesmo tempo, a expansão de veículos elétricos, das energias renováveis e de centros de processamento de dados impulsiona o consumo de vários minerais estratégicos.
A mudança de composição da demanda internacional poderá criar novas oportunidades para o Brasil, incluindo na atração de investimentos. Outra análise aponta o Brasil posicionado para se beneficiar da descarbonização do aço, por exemplo como fornecedor estratégico para a Europa e a Índia devido à qualidade superior de seu minério.
No geral, a mensagem no fórum foi de que a transformação do ambiente geopolítico abre efetivamente uma possibilidade nova. O Brasil, um país antes percebido sobretudo como conrrente agrícola, pode ser a ser reconhecido também como parceiro essencial para a segurança alimentar. Um produtor de energia pode tornar-se parceiro para a resiliência industrial. Um fornecedor de minerais críticos relevantes para as tecnologias do futuro pode participar de uma relação mais ampla envolvendo tecnologia, processamento e investimento.
Para Heloisa Slav, fundadora da Sla Law e criadora do fórum em Genebra, diante da importância estratégica do Brasil para a segurança das cadeias globais de abastecimento, uma questão é sobre qual o custo de ficar de fora desse mercado.