A Coinbase, uma das maiores exchanges de criptomoedas do mundo, defendeu que o Bitcoin comece imediatamente a se preparar para os riscos da computação quântica. Segundo a empresa, a implementação de novas tecnologias de segurança pode levar anos, e esperar até que computadores quânticos sejam capazes de quebrar a criptografia atual da rede pode ser tarde demais.
O alerta foi publicado na terça-feira (13), em um documento técnico no qual a Coinbase apresenta sugestões para tornar o Bitcoin resistente a possíveis ataques realizados por computadores quânticos. A exchange afirma que mantém sob custódia aproximadamente 5% de todos os bitcoins existentes, principalmente em nome de clientes institucionais, como bancos, gestoras de recursos e fundos de investimento.
A preocupação está relacionada à possibilidade de que computadores quânticos suficientemente avançados consigam descobrir as chaves privadas de carteiras de Bitcoin a partir de suas chaves públicas, permitindo que criminosos movimentem criptomoedas sem a autorização dos proprietários.
Atualmente, o Bitcoin utiliza sistemas de assinatura digital conhecidos como ECDSA e Schnorr, considerados seguros contra os computadores convencionais. Entretanto, essas tecnologias podem se tornar vulneráveis diante de máquinas quânticas com capacidade muito superior à disponível hoje.
Esse possível momento é conhecido no setor como Q-Day, expressão utilizada para descrever o dia em que um computador quântico conseguiria quebrar os mecanismos criptográficos que protegem sistemas financeiros e redes blockchain.
Ainda não existe comprovação pública de um computador quântico capaz de realizar esse tipo de ataque contra o Bitcoin. A Coinbase ressalta, porém, que a preparação não pode depender da confirmação de que a ameaça já se tornou realidade.
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“Mudanças nas regras de consenso do Bitcoin e migrações de todo o ecossistema podem levar anos”, afirmou a empresa no documento.
Por esse motivo, a exchange defende que o desenvolvimento de mecanismos resistentes à computação quântica comece antes do surgimento de máquinas capazes de comprometer a segurança da rede.
O alerta ganha relevância porque a Coinbase é uma das principais responsáveis pela custódia de Bitcoin para investidores institucionais. Segundo a própria empresa, aproximadamente um em cada 20 bitcoins existentes está sob sua responsabilidade, embora esses ativos pertençam majoritariamente aos clientes.
A exchange também informou que já está preparando seus próprios sistemas para um cenário pós-quântico e participando de discussões com desenvolvedores e pesquisadores do Bitcoin.
Como a Coinbase quer proteger o Bitcoin dos computadores quânticos
A proposta da Coinbase não envolve simplesmente substituir a criptografia atual por outra tecnologia. Segundo a empresa, será necessário desenvolver uma estratégia de transição que permita proteger as carteiras existentes, preservar o funcionamento da rede e evitar que usuários percam acesso às suas criptomoedas durante o processo.
Uma das principais sugestões é criar uma estrutura mais flexível para as assinaturas digitais utilizadas pelo Bitcoin, permitindo a adoção de diferentes tecnologias resistentes à computação quântica sem precisar modificar toda a rede a cada atualização.
A Coinbase menciona como exemplo a proposta BIP-360, que está sendo discutida por desenvolvedores e busca criar uma nova forma de proteger transações contra ataques quânticos.
Outra possibilidade envolve a utilização de um sistema híbrido, no qual os bitcoins poderiam ser movimentados tanto com uma assinatura tradicional quanto com uma nova chave protegida contra computadores quânticos.
Nesse modelo, usuários poderiam começar a adotar a nova tecnologia gradualmente, sem precisar migrar todas as carteiras ao mesmo tempo.
A empresa também destaca que novas assinaturas digitais precisam considerar as limitações técnicas do Bitcoin. Como o espaço disponível em cada bloco é restrito, soluções que exijam grandes quantidades de dados poderiam aumentar os custos das transações e reduzir a capacidade de processamento da rede.
Outro requisito é a compatibilidade com sistemas de custódia institucional.
Grandes empresas utilizam tecnologias que dividem o controle das chaves privadas entre diferentes participantes ou dispositivos, reduzindo o risco de roubo. A Coinbase defende que os novos mecanismos criptográficos sejam compatíveis com essas estruturas de segurança.
O documento, entretanto, não representa uma proposta definitiva de atualização do Bitcoin. A exchange afirma que pretende contribuir para o debate, enquanto a escolha das soluções dependerá das discussões e do consenso entre os participantes da rede.
E os bitcoins perdidos ou parados há anos?
Um dos problemas mais difíceis da transição envolve os bitcoins armazenados em carteiras antigas, especialmente aquelas cujos proprietários perderam suas chaves privadas ou deixaram de movimentar os recursos há muitos anos.
Parte dessas criptomoedas está associada a formatos antigos de endereços, nos quais as chaves públicas ficam permanentemente expostas na blockchain.
Em um cenário no qual computadores quânticos consigam descobrir as chaves privadas a partir dessas informações, os recursos poderiam ser roubados mesmo sem qualquer ação de seus proprietários.
O problema também envolve os bitcoins da chamada era Satoshi, incluindo moedas que permanecem paradas desde os primeiros anos de funcionamento da rede.
A Coinbase alerta que um computador quântico suficientemente poderoso poderia ser desenvolvido de maneira sigilosa, permitindo que criminosos começassem a explorar carteiras vulneráveis antes que a comunidade tivesse conhecimento da ameaça.
Diante desse cenário, desenvolvedores discutem alternativas como restringir determinados tipos de transação, criar mecanismos de recuperação ou estabelecer regras para a migração de carteiras antigas.
Essas possibilidades, porém, levantam questões delicadas sobre os direitos dos proprietários e o funcionamento descentralizado do Bitcoin.
Por exemplo, impedir a movimentação de moedas armazenadas em formatos antigos poderia proteger os recursos contra ataques, mas também prejudicar usuários legítimos que não conseguiram atualizar suas carteiras a tempo.
A Coinbase não defende uma solução específica para esse problema. Em vez disso, a exchange considera que o debate sobre bitcoins perdidos ou inacessíveis deve acontecer separadamente do desenvolvimento das novas tecnologias de segurança, para evitar que divergências sobre esses recursos atrasem a proteção das demais carteiras.
A empresa também ressalta que eventuais mecanismos de recuperação precisam ser resistentes à própria computação quântica, caso contrário poderiam acabar criando novas oportunidades para ataques.
Embora a ameaça ainda seja considerada futura, a Coinbase argumenta que a complexidade das mudanças necessárias exige preparação antecipada.
A discussão não significa que o Bitcoin esteja atualmente vulnerável a ataques quânticos, mas mostra que uma eventual atualização de seus mecanismos de segurança poderá exigir anos de desenvolvimento, testes e adaptação de carteiras, exchanges e outras empresas do setor.
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