Entre a falta de tempo para garimpar novidades, a dúvida sobre o que é adequado a cada idade e a vontade de estimular a leitura desde cedo, escolher livros para os filhos virou também tarefa de curadoria. Os clubes de assinatura — usados por 22% dos brasileiros que compram livros, segundo a Câmara Brasileira do Livro e a Nielsen BookData — prometem facilitar a escolha das famílias. No segmento infantil, a Leiturinha, líder do mercado, tinha cerca de 280 mil assinantes em 2025 e registrou crescimento de 20% na base de clientes no último ano. No Quindim, as entregas até setembro de 2026 superaram as dos seis primeiros anos de funcionamento.
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A expansão do modelo, porém, levanta questões sobre acesso, qualidade da curadoria e autonomia das crianças. Especialistas ressaltam que a indicação precisa levar em conta o interesse dos pequenos e que a leitura compartilhada é fundamental para aproximá-los dos livros.
Dezesseis anos após o nascimento do primogênito Pedro, a advogada carioca Thaís Mattos, de 40 anos, teve a caçula, Maria Flor, que herdou a coleção do irmão, mas não se interessava pelos mesmos livros. Com a rotina corrida, Thaís recorreu a um clube.
— Tínhamos muitos livros guardados, mais literários, sem tantas imagens, e a Maria Flor, que tem 1 aninho e 4 meses, não se interessava. Como considero a leitura muito importante para o desenvolvimento da criança e sempre incentivei o meu mais velho, assinei um clube de livros infantis por conta da curadoria por faixa etária e seleção de obras que podem despertar mais o interesse dela — conta.
Clubes como o Leiturinha e o Quindim tem planos iniciais entre R$ 62 e R$ 97. O segundo seleciona obras de autores, ilustradores, pesquisadores, livreiros e mediadores de leitura. Prestes a completar dez anos, já entregou mais de 1 milhão de livros e atendeu mais de 70 mil crianças.
— Para nós, a idade funciona como ponto de partida. Cada faixa está relacionada a um perfil leitor, ou seja, ao tipo de experiência que aquele livro pede. Uma criança que ainda não lê o texto escrito pode ser uma grande ouvinte, observadora e intérprete das imagens — explica Renata Nakano, diretora-geral do Quindim.
Para Susana Reis, especialista em clubes de leitura e doutora em Comunicação, os clubes ajudam pais com pouco contato com a literatura, mas é preciso acompanhar a reação da criança:
— Muitas vezes, os pais têm dificuldade para escolher o que a criança vai ler, e o clube de livros serve como apoio. O mais importante na curadoria é perceber se aquela criança está se sentindo bem com o livro, se a obra provoca debates, faz pensar, mas também permite que ela se divirta ao ler.
A especialista recomenda observar as propostas: há clubes mais conservadores, com obras religiosas, e outros de viés progressista, inclusive dedicados à literatura feminista.
Nakano observa que o objetivo é ampliar as possibilidades, e não substituir as escolhas da família:
— A cada mês, nossa curadoria apresenta livros que talvez não chegassem aos pais por outros caminhos. Alguns vão encantar de imediato, outros podem surpreender, provocar perguntas e até causar estranhamento. Não se trata de escolher pela família, mas de abrir outras portas para que cada criança construa seu próprio caminho como leitora.
Thaís Mattos mantém a assinatura também por praticidade, recebe dois livros por mês e lê para a filha diariamente.
— Hoje tem cada vez menos livrarias. Não é como antigamente, quando tinha uma a cada esquina — explica.
A editora baiana Juliana Medeiros, de 41 anos, cancelou o clube quando as filhas Beatriz e Luiza, hoje com 11 e 16 anos, passaram a escolher os próprios livros.
— Cancelei o clube porque elas agora já pedem livros para crianças maiores. As assinaturas também limitam os livros que a gente pode escolher, então, os responsáveis devem complementar e ir às livrarias fazer as próprias escolhas. Sempre incentivei o hábito de leitura nas meninas e condicionava a compra de novos livros ao bom desempenho na escola — diz Medeiros, para quem os livros também ajudaram as filhas a passar menos tempo diante das telas.
Autor de “Desligue a tela e se ligue no seu filho”, Ilan Brenman vê a leitura como contraponto às telas:
— Conseguir oferecer isso para os seus filhos é maravilhoso. O mundo das telas é o do desencontro. O dos livros é o do encontro. Quando o livro que a curadoria do clube faz não agrada, isso pode virar um diálogo entre o pai e a criança, e ainda ajuda os pequenos a lidarem com a frustração, que faz parte da vida.
O avanço do mercado contrasta, porém, com a realidade do país. Segundo o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância, desenvolvido pela OCDE e divulgado em maio, 53% das famílias brasileiras relataram nunca ler para as crianças ou fazê-lo menos de uma vez por semana. Os clubes não estão ao alcance de todos, conclui Susana Reis:
— Mas a promoção da leitura infantil não pode depender só do consumo, também precisa envolver políticas públicas de acesso ao livro — diz.
Mas o que é um bom livro infantil? Para a especialista em leitura Suzana Vargas, um bom livro para criança não precisa ser “infantil”, pleno de clichês e diminutivos, abusando da paciência da criança:
— Um bom livro infantil eu leio e releio como se não tivesse esse adjetivo.
Para Brenman, subestimar as crianças é um erro.
— A literatura de qualidade nomeia sentimentos, fortalece a criança de uma forma que nenhuma outra ferramenta faz, porque trabalha com linguagem, arquétipos e símbolos. É preciso não subestimar a inteligência da criança. Ela é capaz de muito mais do que imaginamos — afirma.
A autora Emília Nuñez destaca a importância da mediação adulta.
— Tão importante quanto um bom livro é uma boa mediação. Ler com uma criança é uma declaração de amor. A leitura compartilhada é capaz de transformar livros e histórias em vínculo — afirma.
Brenman recomenda adequar os livros à idade, do formato à complexidade das narrativas.
— Para crianças de 0 a 2 anos, que são vistas como “pesquisadoras”, o ideal é oferecer livros com formatos diferentes, capas com texturas e histórias ritmadas. Conforme crescem, as narrativas podem se tornar mais sofisticadas.
Literatura por faixa etária
- 0 a 2 anos – Para essa faixa etária, especialistas recomendam livros com diferentes formatos e texturas, com ilustrações e ritmados.
- 2 a 5 anos – Obras com narrativas mais sofisticadas, que valorizem as surpresas, os animais e o inusitado já despertam a atenção.
- 5 a 8 anos – Publicações com mistérios, fantasias, medos (histórias de lobos e de bruxas) e obras que fazem os pequenos rirem são indicadas.
- 8 a 12 anos – Livros com mais capítulos já são adequados; podem ler os primeiros romances ou apostar em histórias em quadrinhos e mangás.
*Estagiários sob supervisão de Daniela Dariano