Revolução dos vinhos brancos; queda mundial do consumo; a safra espetacular de 2026: leia entrevista exclusiva com enólogo Sebastián Zuccardi

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No Rio de Janeiro pela primeira vez, o premiado enólogo Sebastián Zuccardi veio apresentar seus rótulos e chamar atenção dos brasileiros para os vinhos brancos de seu país. O argentino assina os vinhos da Zuccardi, que mais de uma vez foi considerada a melhor vinícola do mundo. Seus vinhos de montanha arrebatam altas pontuações e críticas elogiosas de especialistas. Em entrevista exclusiva, ele avaliou que é um momento difícil para o vinho no mundo. “Ao viajar para outras regiões vitivinícolas, percebe-se que o consumo de vinho está mais limitado e que há grandes desafios pela frente”, disse ele, que acrescentou que o Brasil é um dos poucos países onde o consumo cresce e tem potencial para continuar subindo.

Zuccardi revelou que busca produzir bebidas que espelhem “a pureza e a transparência do lugar”. Ele destacou ainda a qualidade da safra 2026 da Argentina, que ele acredita que será “memorável; daquelas que a gente realmente aproveita, sentindo que tudo flui em harmonia, sem calor excessivo ou chuvas”.

“Na minha família, eu cuido do vinhedo e da vinícola; ou seja, minha vida está ligada ao campo e à produção de vinho. Mas, hoje em dia, também precisamos divulgar o que fazemos; é preciso fazer um trabalho de “evangelização”, de contar a história do lugar onde vivemos. Por isso, viajo para trabalhar com nossos importadores. Estive em Fortaleza, depois em Recife e agora no Rio. A ideia é realizar degustações e apresentar o nosso trabalho.

Nesta viagem, não incluí São Paulo; o roteiro é focado em cidades litorâneas. Eu nunca tinha vindo ao Rio; foi a minha primeira vez. Já ​​estive no Brasil muitas vezes, inclusive de férias, mas ao Rio eu não tinha tido a oportunidade. Fui ao Cristo Redentor, o que foi suficiente para querer voltar. Às vezes, a gente precisa ir a um lugar e pensar: Tenho que voltar aqui.”

O enólogo argentino Sebastián Zuccardi e a vinícola no Vale do Uco, em Mendoza — Foto: Divulgação / Zuccardi

2026; expectativa de grande safra na Argentina

“A safra de 2026 foi maravilhosa, uma das melhores que já realizei em termos de volume e qualidade; foi boa em todos os aspectos, mas, qualitativamente, os vinhos refletem um ano de clima mais fresco, apresentando muita energia e pureza — será uma das grandes safras da Argentina.

O primeiro vinho da Zuccardi dessa safra deve sair no ano que vem, ou talvez no final deste ano; sempre quisemos esperar um pouco antes de lançá-los. Será uma safra memorável; daquelas que a gente realmente aproveita, sentindo que tudo flui em harmonia, sem calor excessivo ou chuvas — foi, de fato, uma safra fantástica. Acredito que isso também se alia ao nosso momento pessoal, pois a safra acontece, mas também importa como ela nos encontra.

Sinto que hoje realizamos um trabalho de alto nível nos vinhedos, com uma compreensão profunda dos terroirs e uma filosofia clara na vinícola sobre o que queremos produzir.”

Tempo ajuda a conhecer os vinhedos

“Começamos a plantar uvas no Vale do Uco em 2004. Ou seja, temos vinhedos com mais de 20 anos, não são novos. Além desses, temos vinhedos plantados há 10 anos e outros plantados há 4. Mas não é só a idade — não é que quanto mais velho, melhor —, porque isso depende muito, antes de tudo, do local.

Para mim, o local é mais importante do que a idade do vinhedo. E acredito que hoje temos plantios em locais muito bons e possuímos o conhecimento necessário do lugar para plantar da maneira correta, ou da maneira que desejamos.

Acredito que o tempo é necessário para compreender — ou seja, o tempo de atuação como agricultores —, pois não se entende um local logo no primeiro ano; é uma trajetória que vamos percorrendo. E, como eu dizia, também definimos o nosso estilo como produtores.”

A vinícola Zuccardi no Vale de Uco: aos pés dos Andes — Foto: Divulgação / Zuccardi
A vinícola Zuccardi no Vale de Uco: aos pés dos Andes — Foto: Divulgação / Zuccardi

O estilo Zuccardi: o lugar e o concreto

“Nosso estilo busca a pureza e a transparência do lugar. Por isso, deixamos de pensar que precisamos fazer coisas na vinícola, focando mais em preservar a origem. E, bem, o concreto — o uso do concreto — tem sido um elemento definidor do nosso estilo. O momento da colheita também é fundamental. Mas sinto que o que posso lhe contar hoje, você vê e prova nos vinhos. Há coerência no que estamos fazendo.

O concreto, como material de fermentação, é histórico na região. As vinícolas antigas de Mendoza eram de concreto; quando olhamos para as vinícolas do início do século XX, vemos tanques de concreto. Depois, a Argentina passou por uma fase de muita madeira, em que ela se tornou protagonista nos vinhos.

Hoje, vivemos um retorno ao lugar, buscando que os vinhos expressem o terroir. Nesse contexto, o concreto apresenta quatro ou cinco aspectos muito importantes. O primeiro é que ele não confere aroma nem sabor, permitindo-nos mostrar o lugar em sua pureza.

O segundo é que se trata de um material natural — areia, pedra e água —, proveniente do rio que formou os solos onde cultivamos. Assim, a conexão entre o vinhedo e a vinícola é muito completa. É um material que permite a micro-oxigenação, embora em menor grau que a madeira, por exemplo; como vivemos em um lugar com muita luminosidade, sinto que não precisamos “abrir” os vinhos, mas sim fechá-los um pouco.

Além disso, ele é termicamente muito eficiente devido à espessura de suas paredes. Vivemos em uma região de noites frias e dias quentes, e o concreto suaviza essas variações de temperatura. Agora, há algo muito importante: é possível produzir um grande vinho em concreto, assim como um vinho muito ruim. Não é o concreto; o que vem primeiro é o local onde cultivamos e o tipo de viticultura que praticamos, e o concreto entra mais na definição do estilo de vinho que queremos produzir.”

"O concreto, como material de fermentação, é histórico na região", diz Sebastián Zuccardi — Foto: Divulgação / Zuccardi
“O concreto, como material de fermentação, é histórico na região”, diz Sebastián Zuccardi — Foto: Divulgação / Zuccardi

Vinhos brancos e o Malbec

“Quando falamos de variedades brancas, geralmente trabalhamos com a Torrontés — que é a variedade histórica da Argentina — mas, no Vale de Uco, focamos na Chardonnay e na Semillón, dependendo da zona. A Chardonnay fica, em geral, nas áreas mais altas e frias, e a Semillón, na parte central do Vale de Uco. São duas variedades que, para mim, funcionam muito bem no Vale de Uco e expressam perfeitamente o terroir.

E, quanto às tintas, diria que nosso foco está quase totalmente na Malbec. Estou falando dos nossos vinhos de mais alto nível. A Malbec é cultivada há gerações e gerações de viticultores que vêm selecionando, melhorando, plantando e replantando. Então, quando você percorre os vinhedos, prova a uva e elabora os vinhos, percebe que a Malbec tem uma adaptação maravilhosa ao local.

Gosto de dizer que a Malbec no Vale de Uco é como a Pinot Noir na Borgonha, como a Sangiovese em Montalcino, como a Nebbiolo em Barolo. É uma variedade que faz parte do lugar.

Trabalhamos com outras variedades? Sim. Por exemplo, a Cabernet Franc é uma variedade que se adapta muito bem. A Bonarda é uma variedade histórica da Argentina. E há também variedades interessantes que devem ganhar mais espaço, como a Garnacha. Mas, depois da Malbec, vem mais Malbec — porém, expressa através das particularidades de cada local.”

Uvas tintas colhidas na Zuccardi, em Mendoza — Foto: Divulgação / @zuccardivalledeuco
Uvas tintas colhidas na Zuccardi, em Mendoza — Foto: Divulgação / @zuccardivalledeuco

“É um momento difícil para o vinho no mundo. Ao viajar para outras regiões vitivinícolas, percebe-se que o consumo de vinho está mais limitado e que há grandes desafios pela frente. O Brasil é um dos poucos países onde o consumo cresce e tem potencial para continuar subindo, pois ainda há muito a contar sobre o vinho brasileiro. No entanto, existe uma limitação: o vinho no Brasil é caro devido à estrutura tributária — o que é uma pena, pois isso restringe a possibilidade de ampliar ainda mais o consumo no país.

Sou otimista; é por isso que trabalho com agricultura — não se faz agricultura sem otimismo. Acredito que enfrentaremos um período difícil, mas o vinho está ligado à civilização e é um alimento. Em um mundo onde a solidão e a depressão podem ser grandes problemas, o vinho é uma bebida que nos une e nos reúne, permitindo-nos conversar e estar juntos.

Portanto, acredito que passaremos por um período difícil, mas, se acreditarmos no vinho, divulgarmos seus valores e nos dedicarmos a disseminar a importância que ele teve e tem para as civilizações, superaremos este momento.

Sem dúvida, projetos que não tenham uma razão de ser — que não contem com pessoas que amem o vinho e o produzam para além da simples rentabilidade (já que o vinho pode ser visto tanto como um negócio quanto como um modo de vida) — enfrentarão dificuldades maiores. Aqueles que encaram o vinho apenas como um negócio passarão por momentos muito mais difíceis do que nós, que o vemos como um modo de vida.

Acordo Mercosul-União Europeia

“Estamos em um momento em que as coisas mudam tanto que é difícil prever o que acontecerá no futuro. Acredito que o importante é podermos competir em igualdade de condições, pois, às vezes, o grande problema dos acordos é que eles não levam em conta os subsídios ou apoios governamentais existentes nas regiões produtoras de vinho. Assim, pode-se ter condições iguais de acesso ao mercado, mas, se houver subsídio para o cultivo em outros mercados, as condições deixam de ser iguais. Nesse sentido, gostaríamos que houvesse condições de igualdade; portanto, acreditamos que não seria benéfico enquanto isso não acontecer. Mas, enfim, é preciso manter a calma; ainda falta muito tempo para que isso se concretize totalmente.

Não conheço exatamente as cláusulas detalhadas do acordo. Acredito que, mais do que favorecer nossas vendas na Europa, o acordo facilita muito a entrada de vinhos europeus aqui. Acho que o mercado latino-americano será mais complexo para nós com a chegada de vinhos europeus que podem vir com auxílios governamentais. E não digo que isso seja errado, pois sou um defensor da agricultura e acredito que, em nossos países, devemos incentivar a agricultura, especialmente a de valor agregado. A questão é quando temos de competir em situações de desigualdade, mas entendo que o impacto maior recai sobre os mercados latino-americanos.”

Os desafios do mundo do vinho

“Antes de tudo, o vinho é alimento, não é álcool. Quando analisamos a composição do vinho e como ele esteve historicamente ligado ao ser humano, percebemos que ele é muito mais alimento do que álcool. Se olharmos para o teor alcoólico, ele é, inclusive, baixo.

Quando observamos as “zonas azuis” — regiões do Mediterrâneo onde as pessoas vivem muito, por exemplo —, vemos que o vinho sempre fez parte da dieta. Portanto, reduzir o vinho apenas à dimensão do álcool é injusto; acredito que houve uma campanha contra isso.

Agora, voltando à questão do consumo: não se sabe ao certo se há menos pessoas bebendo ou se as pessoas estão bebendo com menos frequência. Parece que a frequência é que está diminuindo. Acredito que isso será difícil de mudar a curto prazo.

Acho que a moderação é importante. Ninguém é contra a moderação, mas é preciso entender que o vinho faz parte da refeição e que, consumido com moderação, traz benefícios à saúde. O que vai acontecer também? As pessoas vão beber menos, porém melhor. É isso que vai ocorrer.

Assim, nós, como família, sabemos que os vinhos que produzimos precisam ter um certo nível de valor agregado. Porque, quando alguém for beber vinho — talvez não beba todos os dias —, ao escolher uma garrafa, optará por uma que tenha uma história mais relevante ou que tenha sido produzida de uma maneira especial. Então, embora o vinho seja um produto abrangente, haverá categorias que encolherão e outras que crescerão.”

Sebastián Zuccardi: terceira geração à frente de uma das melhores vinícolas do mundo — Foto: Divulgação / Tempos Zuccardi
Sebastián Zuccardi: terceira geração à frente de uma das melhores vinícolas do mundo — Foto: Divulgação / Tempos Zuccardi

Os jovens consumidores de vinho

“A questão dos jovens é complexa, pois hoje esperamos que eles bebam vinho em idades nas quais nós… Bem, eu venho de uma família de viticultores; sempre bebi vinho. Mas havia uma idade em que, ao sair, não bebíamos vinho. Nós o incorporávamos aos nossos hábitos um pouco mais tarde. E hoje se espera que jovens bebam vinho na mesma idade em que nós, talvez, não consumíssemos tanto a bebida.

E veja, hoje há muita informação, não é? E as redes sociais também mudaram a forma como nos vemos, como nos relacionamos e como consumimos. Então, acredito que existe uma certa visão fragmentada da saúde — focada em quanto exercício fazemos ou quanto dormimos —, mas a vida é um equilíbrio; precisamos de um pouco de muitas coisas. A parte social — o relacionamento com as pessoas, poder conversar e interagir — é muito importante. Nesse contexto, a alimentação e os momentos de convivência são fundamentais, e o vinho desempenha um papel muito importante, pelo menos nas nossas sociedades, onde ele faz parte da cultura. No entanto, acabamos fragmentando a vida; vivemos sob a culpa de não dormir bem ou de não fazer ginástica, e esquecemos que somos pessoas muito mais complexas.”

“Estamos sempre realizando coisas; sempre temos mais projetos do que dinheiro e tempo — e isso é sinal de saúde. Desde que meu avô iniciou a vinícola, estamos sempre pensando e crescendo — não um crescimento desenfreado, mas sim realizando ações que nos permitam fazer aquilo que fazemos de melhor.

Na família, sempre seguimos quatro pilares: qualidade, inovação, cuidado com o meio ambiente e sendo úteis para a comunidade onde atuamos. Cada decisão que tomamos precisa estar alinhada a esses pilares. Se uma decisão contraria qualquer um deles, não devemos tomá-la.

Por isso, estamos sempre plantando vinhedos e construindo instalações; atualmente, estamos erguendo duas novas vinícolas. Uma no Valle de Uco, para a marca Alambrado — que tem grande volume de vendas na Argentina —, e outra em Maipú, para a Santa Julia, que conta com um centro de enoturismo.

Nós sempre reinvestimos tudo; não retiramos dinheiro do negócio para uso pessoal, pois o vinho é o nosso modo de vida. Assim, mesmo em momentos difíceis como o atual, continuamos plantando vinhedos, porque acreditamos que o cenário vai mudar.

Mas isso não vai acontecer com todo mundo — e isso é importante: o vinho é uma atividade que exige tempo e dedicação. Você não pode abandonar um vinhedo, voltar um ano depois e simplesmente trabalhá-lo; o vinhedo precisa de trabalho constante — quando as coisas vão bem, quando vão mal, quando vão mais ou menos, quando estamos felizes ou tristes. A agricultura exige dedicação às plantas.

O mercado funciona de forma parecida com um vinhedo: não dá para chegar, trabalhar, decidir que não vale mais a pena e parar, para depois querer voltar. Uma marca se constrói, se rega, se cultiva; portanto, é uma atividade de longo prazo. Todo mundo vai se dar bem? Acredito que não. Historicamente, na mesma atividade e na mesma região, há pessoas que prosperam e outras que não vão tão bem. Por isso eu dizia que é preciso distinguir quem faz isso porque é a sua vida de quem faz isso apenas como negócio: quem olha apenas para o negócio terá menos oportunidades do que aqueles que encaram isso como um modo de vida.”

O Zuccardi Serie A Torrontés — Foto: Divulgação / @zuccardivalledeuco
O Zuccardi Serie A Torrontés — Foto: Divulgação / @zuccardivalledeuco

A revolução dos vinhos brancos

“Acredito que uma das grandes revoluções da Argentina são os vinhos brancos. Quando eu comecei a fazer vinho, como não temos influência oceânica — estamos longe do Atlântico e muito perto do Pacífico, mas com a Cordilheira dos Andes pelo meio —, esquecemos que podíamos produzir grandes brancos e nos concentramos nos tintos.

A Argentina achava que, para produzir grandes brancos, era preciso estar perto do mar. Hoje, com o conhecimento que adquirimos e a possibilidade de cultivar em altitudes mais elevadas graças aos sistemas de irrigação, sabemos que temos locais capazes de produzir brancos incríveis.

Portanto, para mim, uma das maiores revoluções que estão acontecendo na minha região diz respeito aos brancos. E, sobre os brancos, gostaria de destacar três vinhos. O primeiro é a Torrontés, uma casta que considero de grande valor. Primeiramente, por ser nativa da Argentina. Ela surgiu do cruzamento de duas variedades: Listán Prieto e Moscatel de Alexandria. A viticultura chegou à América Latina com a conquista. Os jesuítas trouxeram as variedades para a celebração da missa.

As duas variedades trazidas foram a Listán Prieto e a Moscatel de Alexandria. O cruzamento delas deu origem à Torrontés, uma casta que só é encontrada na Argentina. Ela possui uma característica singular: ao prová-la, percebe-se que não é Chardonnay nem Sauvignon Blanc; é Torrontés.

Nós produzimos um Torrontés chamado Serie A — de “Série Argentina” —, que vem do Norte, de Cafayate. Ele está disponível no Brasil e é o único vinho que produzo fora de Mendoza, mas gosto do Torrontés do norte. Outra característica do Torrontés é que ele harmoniza muito bem com a gastronomia; combina perfeitamente com peixe cru, ceviche e frutos do mar.”

O vinho Polígonos Sémillon

O Zuccardi Polígonos Sémillon — Foto: Divulgação / Zuccardi
O Zuccardi Polígonos Sémillon — Foto: Divulgação / Zuccardi

“O segundo branco que eu recomendaria é um Sémillon da linha Polígonos. Porque é uma variedade histórica; todos os vinhedos antigos de Malbec eram plantados com Sémillon. A Argentina já teve 7.000 hectares de Sémillon nos anos 1950 e hoje restam apenas 700 porque nos esquecemos dos vinhos brancos. Mas há uma grande recuperação; hoje existem muitos produtores fazendo Sémillon. Nós devemos ter cerca de 2 hectares no Valle de Uco. E é uma variedade que funciona muito bem.

Tem uma ótima adaptação ao local e ao paladar; gosta de solos calcários. Então, o Semillón — tanto pela história quanto pelos vinhos — me agrada muito. E é também uma variedade que envelhece muito bem. São vinhos que você pode guardar por muito tempo.”

O Zuccardi Fósil Chardonnay — Foto: Divulgação / Zuccardi
O Zuccardi Fósil Chardonnay — Foto: Divulgação / Zuccardi

O Fósil e o Botánico Chardonnay

Outro grande vinho branco é o Fósil, que vem de um lugar chamado San Pablo, a 1.400 metros de altitude, no Norte do Valle de Uco. Devido à proximidade com a montanha, é um dos locais mais frios da região. Além disso, possui solos muito particulares, pois são calcários. Ele é um Chardonnay que fermentamos e estagiamos em concreto. Para mim, esse foi o vinho branco que mudou nossa mentalidade; que transformou nossa forma de ver as coisas.

Porque, na Argentina, o Chardonnay passou a ser representado por vinhos como o Fósil e o Botánico. O Fósil mudou nossa perspectiva porque, antes, o Chardonnay argentino seguia um padrão diferente: muita madeira, muita batonnage, vinhos generosos — um estilo mais americano. Nós começamos a focar na textura e na tensão, deixando de lado a doçura; nesse aspecto, o uso do concreto nos ajudou muito, realmente muito.

É interessante provar tanto o Fósil (de San Pablo) quanto o Botánico (de Gualtallary). São dois vinhos da mesma casta, produzidos a apenas 8 quilômetros de distância, mas que diferem porque a zona de Gualtallary tem um ciclo de maturação mais precoce que a de San Pablo. Colhemos as uvas 25 dias antes do que em San Pablo.

Mas, em Botánico, os solos são extremamente calcários. Se você observar, não coloco a uva na frente do rótulo. Por quê? Porque queremos falar sobre o lugar. A uva fica indicada no verso do rótulo. Encaramos a variedade como um veículo de expressão do lugar, e não como o elemento mais importante. É uma filosofia. Porque você pode plantar Malbec na Argentina, na Nova Zelândia ou nos Estados Unidos e colocar Malbec no rótulo. Se a única informação que fornecemos é que se trata de Malbec, estamos criando uma commodity. Quando você diz que aquele vinho vem de Gualtallary, lá existem condições climáticas, de solo e culturais que são únicas, e ele é feito com Malbec.

“A Argentina representa 4,8% do mercado mundial de vinhos. Ainda somos muito pequenos. É muito pouco em relação à produção e à qualidade. Pense que 80% do vinho argentino é consumido na própria Argentina; exportamos apenas 20%. Ou seja, a Argentina tem potencial de crescimento, pois há muito a ser contado. E existem duas dimensões: uma é falar sobre a Argentina e a outra é mudar a imagem que as pessoas tinham do país.

Durante muitos anos, o Malbec era muito concentrado, muito alcoólico e com muita madeira; hoje, o Malbec é diversidade, dependendo do local de origem e do produtor. Portanto, há também um trabalho de mostrar essa diversidade — é algo muito interessante de se falar. Por isso digo que, hoje, não basta fazer um bom vinho; é preciso sair e contar a história dele. E isso faz parte do meu trabalho.

Quando começamos esta entrevista e você perguntou por que estou aqui, eu digo que é necessário contar o que estamos fazendo. Hoje, quando mostramos os vinhos que estamos produzindo, as pessoas ficam muito surpresas; e, quando nos visitam e percebem o conhecimento e a profundidade que temos em relação ao local de cultivo, a surpresa é ainda maior.

Por isso, é preciso realizar um trabalho de “evangelização” que levará muitos anos — não é algo que acontecerá em apenas um ano, é um trabalho de gerações. Nesse contexto, o turismo e a hospitalidade são fundamentais: quando alguém do Brasil vai a Mendoza, fica diante da montanha e vivencia uma bela experiência cultural — o que significa comer e beber vinho em Mendoza —, a pessoa acaba se apaixonando, talvez para a vida toda. É por isso que levar pessoas-chave aos nossos locais é tão importante; se querem falar de Malbec, eu quero ouvir sobre isso.”

Sebastián Zuccardi com os vinhos Fósil e Botánico — Foto: Divulgação / Zuccardi
Sebastián Zuccardi com os vinhos Fósil e Botánico — Foto: Divulgação / Zuccardi

Três Malbecs da Zuccardi

O Zuccardi Q Malbec — Foto: Divulgação / Zuccardi
O Zuccardi Q Malbec — Foto: Divulgação / Zuccardi

“Vamos começar com o Q Malbec, que é um vinho importante para mim porque conta uma história. O Q Malbec é a nossa expressão do Vale de Uco. Se eu tiver que mostrar o que penso sobre o Malbec, vou apresentar o Q Malbec. Além disso, foi o primeiro vinho que minha família lançou com o rótulo Zuccardi, tem um grande valor emocional para nós. É um Malbec elaborado a partir de diferentes vinhedos que possuímos no Valle de Uco. É quase um blend de locais, mas o rótulo indica Vale de Uco e, novamente, é feito à nossa maneira — com o nosso estilo —, sendo vinificado e estagiado em concreto.

O Zuccardi Concreto — Foto: Divulgação / Zuccardi
O Zuccardi Concreto — Foto: Divulgação / Zuccardi

O segundo vinho é o Concreto. Ele é especial porque mudou as nossas vidas. Foi o primeiro vinho que produzimos na vinícola Piedra Infinita e marcou a decisão de seguir esse caminho, em 2014. Acredito que também tenha sido um vinho importante para a Argentina, pois revelou uma faceta diferente do que se podia fazer com a uva Malbec. É um vinho que gosto muito de beber e que, na minha opinião, tem um excelente potencial de guarda.

E o terceiro vinho é o Piedra Infinita, produzido no vinhedo onde fica a nossa vinícola. O Piedra Infinita representa, creio eu, o mais alto nível de conhecimento e precisão que conseguimos alcançar em um determinado local. É uma propriedade dividida em parcelas, das quais selecionamos as melhores para elaborar este vinho. Ele também é fermentado e estagiado em concreto.”

“Existem desafios em muitos níveis. O desafio nunca é único; são todos desafios paralelos. Acho que um desafio é continuar aprendendo com os locais onde cultivamos. A agricultura é uma atividade que exige atenção aos detalhes.

Tenho formação universitária em engenharia agronômica, mas também tenho diploma de enólogo do ensino médio. No entanto, sou engenheiro agrônomo. O que acontece é que existe o termo winemaker — muito melhor do que engenheiro agrônomo ou enólogo —, que significa “fazedor de vinhos”. Então, sim: minha formação é em engenharia agronômica, mas sou um fazedor de vinhos. Cuido tanto do vinhedo quanto da vinícola; trabalho em ambos os lugares, mas minha vida é o vinhedo. Gosto de dizer que nós cultivamos vinho; o mais importante que fazemos é o vinhedo. Portanto, há desafios — os desafios do vinhedo, onde observamos as mudanças climáticas.”

“Hoje não notamos uma mudança climática tão evidente por estarmos em uma região de altitude. Quando olhamos para o que está acontecendo na Europa, vemos a mudança climática mais evidente. Na nossa região — o Hemisfério Sul tem mais oceano do que terra —, aparentemente há uma maior moderação das temperaturas. E, quando olhamos para as montanhas, não percebemos tanto.

É verdade que houve menos neve nas montanhas nos últimos anos, mas, por exemplo, este ano estamos vivendo um ano histórico de neve. Começou a nevar em julho e não parou mais. A quantidade de neve é ​​enorme. A mudança climática é um tema em pauta, algo sobre o qual precisamos continuar aprendendo.”

Zuccardi: vinícola premiada da Argentina — Foto: Divulgação / Zuccardi
Zuccardi: vinícola premiada da Argentina — Foto: Divulgação / Zuccardi

Mudanças e instabilidades na Argentina

Acredito que também existam desafios próprios do país. A Argentina é um país economicamente desafiador, com muitas mudanças e instabilidades, mas aí também reside uma força: temos um mercado local muito forte. As pessoas bebem vinho na Argentina. Depois, há o cenário mundial, que é desafiador; acho que aquela tranquilidade acabou — não falo de guerra, mas quem espera ficar sossegado e que nada mude vai se frustrar muito no futuro; isso não existe mais. É preciso aproveitar o que nos cabe em meio às mudanças e não desanimar.

E há o desafio de tornar a Argentina conhecida, por exemplo. Parece-me, então, que existem desafios em muitas frentes e que nós, como agricultores e produtores de vinho, precisamos estar preparados para atuar do vinhedo até o mercado, lidando com tudo o que há pelo caminho.

Se há algo de bom na Argentina, é que estamos acostumados a mudanças; a resiliência ou a capacidade de adaptação são fatores importantes. No Brasil, é igual. Somos países latino-americanos.”

“Primeiro, por definição, o que fazemos é uma atividade agrícola que, em geral, atravessa gerações. Portanto, entregar o local igual ou melhor do que o recebemos é uma responsabilidade, não uma questão de opinião. É aí que entra a palavra sustentabilidade: como fazemos para que os locais onde cultivamos sejam preservados ou melhorados, não apenas do ponto de vista agrícola, mas também em relação ao desenvolvimento da região?

O vinho é lugar e gente; para que um vinho atinja um certo nível, precisamos de pessoas conectadas ao lugar e capazes de realizar nosso trabalho com a máxima excelência. Assim, encaramos a sustentabilidade não apenas como o cultivo orgânico, mas também como desenvolvemos o local e tornamos nosso negócio sustentável ao longo do tempo. Acredito que a sustentabilidade é uma condição essencial. Em um momento em que o negócio se torna desafiador, aqueles que não compreenderem os valores de longo prazo do vinho não terão chances de sobreviver.

As mudanças climáticas são um fato evidente. Embora as sintamos menos, há pequenas ações que podemos adotar para ajudar, mas, acima de tudo, teremos de nos adaptar. E adaptar-se a essas mudanças exige diversas medidas: desde a altitude do plantio e a forma como plantamos até a maneira como irrigamos o vinhedo.

Temos a possibilidade de adaptação pela altitude — quanto mais alto, mais fresco o clima — e pelo manejo da irrigação; se irrigarmos de forma mais eficiente, teremos mais água disponível. Os momentos de colheita também mudarão. É algo que já percebemos; não dá para negar a existência das mudanças climáticas, embora na Argentina elas não sejam tão evidentes ou marcantes. Nas últimas dez safras, tivemos mais anos frescos do que quentes e menos neve nas montanhas. Por isso, talvez o desafio esteja mais no uso eficiente da água do que no aquecimento em si, mas é difícil prever exatamente como nós, agricultores, teremos de nos adaptar.”

“Temos uma área de pesquisa e desenvolvimento que, na verdade, é mais desenvolvimento do que pesquisa. Isso porque não temos condições de realizar pesquisas de base científica — o que chamamos de “pesquisa dura” — a partir da nossa própria estrutura. Esse é um papel para universidades ou institutos de tecnologia, com os quais, aliás, trabalhamos em parceria. O nosso foco é, essencialmente, o desenvolvimento.

A questão é: o que nos interessa aprender ou desenvolver em relação aos nossos terroirs? Sempre, porém, norteados pelo estilo de vinho que queremos produzir. Não existe “o melhor vinho”: três produtores diferentes, trabalhando no mesmo vinhedo, podem elaborar três vinhos completamente distintos.

Assim, em que a área de pesquisa e desenvolvimento deve nos auxiliar? A tomar decisões melhores em relação ao nosso estilo. Costumamos dizer que os lugares não nos pertencem; o que nos pertence é a interpretação que fazemos deles. Essa é uma frase do Martín, um agrônomo da nossa equipe, e é uma expressão muito bonita. Portanto, nossa área de pesquisa e desenvolvimento foi concebida para continuarmos aprendendo e aprofundando nossos conhecimentos, mas sempre mantendo o foco no estilo de vinho que desejamos criar.”

Sebastián e José Alberto Zuccardi — Foto: Divulgação / Zuccardi
Sebastián e José Alberto Zuccardi — Foto: Divulgação / Zuccardi

Terceira geração no vinho

“Pertenço à terceira geração de uma família do vinho. Cresci em uma família que fazia vinho, falava de vinho e respirava vinho. No início, a relação era mais lúdica: íamos para a propriedade rural para brincar, andar a cavalo, andar de bicicleta, pescar… Enfim, crescemos em uma fazenda.

Era o lugar, o centro da família. Em casa, falávamos de trabalho à mesa. Sabe como há muitas famílias que dizem “à mesa não se fala de trabalho”? Na minha família, falávamos de vinho à mesa. Então, o vinho estava presente também nas conversas sobre as dificuldades.

Porque, na agricultura, você enfrenta geadas, granizo, dificuldades de mercado. Falávamos sobre esses desafios… Mas nunca com desânimo; nunca se falava mal do trabalho. O trabalho era a nossa paixão. Com o tempo, fui percebendo que gostava daquilo e que queria me dedicar ao que a família fazia.

Frequentei uma escola de ensino médio com orientação agrícola por volta dos 15 anos. Foi nessa idade que comecei a perceber que queria seguir esse caminho. Depois, tomei uma decisão importante: estudar agronomia. Para mim, foi uma decisão estratégica — eu não sabia disso na época, mas comecei pela terra, e isso é um valor fundamental para mim, pois hoje elaboramos nossos vinhos a partir do vinhedo. A sequência foi natural; houve liberdade na minha família. Empresas familiares podem ser complexas se não houver liberdade de escolha; as imposições familiares podem realmente acabar com a alegria de uma pessoa e, se a alegria da pessoa acaba, acaba também a alegria de fazer vinho e, consequentemente, a empresa. Na minha família, não houve imposição. Se estou aqui no Rio hoje, sentado conversando com você, é porque eu escolhi estar.

Meu pai e minha mãe não me obrigaram a fazer o que faço hoje. E isso foi muito importante. Além disso, tive liberdade. A maneira como fazemos vinho hoje não era a mesma que a minha família usava antigamente. Os locais onde cultivamos hoje não são exatamente os mesmos onde minha família cultivava. Houve, então, uma vocação — não uma imposição familiar — e, depois, a liberdade para trilharmos o nosso próprio caminho. Comecei a trabalhar com a família aos 18 anos e hoje tenho 46. Ou seja, são muitos anos. Quase 30. Mas comecei aos poucos; fui aprendendo e assumindo responsabilidades. Na minha família, também existe uma trajetória de aprendizado a ser percorrida; o vinho exige humildade.”

[Fonte Original]

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