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terça-feira, abril 14, 2026

Cenário de inflação acima da meta em 2026 ganha força

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O susto com o desempenho do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em março aumentou a probabilidade, na avaliação de economistas, de a inflação brasileira encerrar 2026 acima do teto da meta, de 4,5%, podendo se aproximar ou até superar 5%, segundo algumas projeções.

O IPCA de março, divulgado na sexta-feira, subiu 0,88%, a maior taxa para o mês desde 2022, quando avançou 1,62%, e ficou bem acima da mediana e do teto das projeções colhidas pelo Valor Data, de 0,76% e 0,82%, respectivamente.

Na pesquisa Focus, do Banco Central com agentes financeiros, a expectativa mediana era de IPCA ao redor de 0,55% em março. A mera substituição do dado estimado pelo observado já faria as projeções de mercado subirem, o que de fato aconteceu. Na divulgação desta segunda-feira, a mediana para o IPCA ao fim de 2026 saltou para 4,71%, ante 4,36% uma semana antes e 4,06% no início do ano.

A projeção máxima do Focus para dezembro de 2026 ficou em 5,9%. Após a divulgação do IPCA de março, a XP elevou sua estimativa de inflação ao fim do ano para 5,1%, de 4,8%, enquanto a Terra Investimentos prevê 5,2%. O ASA revisou para 5%, de 4,6%. Abaixo de 5%, mas já acima do teto da meta, o C6 e a Warren Investimentos projetam IPCA de 4,8% em 2026, e a Buysidebrazil, de 4,7%.

Além disso, o cenário ao longo do ano também mudou radicalmente. Se até fevereiro a expectativa era que o IPCA em 12 meses beirasse o centro da meta, de 3%, no primeiro semestre, agora a previsão é que ele exceda 4,5% já em maio ou junho e permaneça assim até o fim do ano, o que forçaria o BC a escrever carta de justificativa para o Ministério da Fazenda.

Desde janeiro de 2025, a meta de inflação perseguida pelo BC se refere ao IPCA acumulado em 12 meses apurado mês a mês, não mais em dezembro de cada ano, e a carta é escrita quando há descumprimento do intervalo de tolerância (1,5 ponto percentual para mais ou para menos) por seis meses consecutivos.

“Não chegamos a projetar 3% para o meio do ano como algumas casas, mas dava para enxergar 3,3%, 3,2% ou, com sorte, 3,1%. De qualquer modo, seria uma inflação em 12 meses bastante benigna. Isso mudou completamente”, afirma Homero Guizzo, economista da Terra.

Faz cinco meses, desde novembro do ano passado, que o IPCA acumulado está abaixo do teto da meta, e ele pode ficar um sexto, segundo economistas, se o índice de abril não exceder 0,77%. Alguns analistas, no entanto, já acham que esse número pode ficar mais entre 0,75% e 0,85%.

Economistas interpretaram que o IPCA de março começou a mostrar os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre os preços domésticos, principalmente commodities e, em especial, o petróleo, o que impôs revisões.

“O mecanismo de transmissão já está em operação: o petróleo mais elevado se traduz diretamente nos preços de combustíveis domésticos, e março deixou isso explícito. Esse choque de combustíveis, por sua natureza, não fica contido no grupo transportes: ele contamina custos de frete, logística e produção agrícola, e começa a aparecer nos alimentos”, escreve Leonardo Costa, do ASA.

O problema maior, dizem economistas, é que há outros vetores de preocupação para a inflação brasileira que independem da geopolítica internacional, como os reflexos do emprego e da renda resilientes sobre preços de serviços.

Segundo a Warren, itens mais sensíveis aos efeitos da guerra entre Estados Unidos e Irã, que representam cerca de 15% da cesta do IPCA, aceleraram mais que o esperado em março: 2,55%, ante 2,36% de expectativa. Mesmo o agrupamento menos sensível, que tende a não responder tão fortemente a choques, porém, subiu mais do que o previsto: 0,67%, ante projeção de 0,53% da Warren.

Choque externo com dinâmica interna pressionada é menos favorável para convergência”

— Leonardo Costa

“Nunca projetamos inflação abaixo de 4% para este ano porque já tínhamos o entendimento da força do mercado de trabalho pressionando preços de serviços e também de aumento nas bandeiras tarifárias”, diz Guizzo.

Ele espera, por ora, uma alta ao redor de 10,5% no preço da gasolina nas bombas em 2026, mesmo que a Petrobras consiga segurar o repasse nas refinarias ou que um aumento seja compensado por mais cortes de impostos. “Esses preços não vão recuar ao longo de abril. Basta que eles continuem andando de lado e já estaria encomendada uma alta adicional de 3% para o mês corrente, além dos 7% até março”, afirma.

No caso da energia elétrica, a expectativa da Terra é que a bandeira tarifária saia de verde em abril (sem cobrança extra na conta de luz) para amarela em maio, o que já colocaria o IPCA de 12 meses em 4,5%, segundo Guizzo. Em junho ela ainda pode saltar para vermelha 2, encerrando 2026 em vermelha 1, ante amarela no fim do ano passado.

Isso, junto com uma expectativa de reajuste total acima de 6,5% nas tarifas em 2026, deve fazer a energia elétrica subir 11% este ano, estima o economista da Terra. “Essa aceleração dos preços de energia se combina a outros elementos, inclusive à expectativa de alta nas carnes, e isso deve manter o IPCA acima de 4,5% ao longo de todo o segundo semestre”, afirma.

Muitas projeções de IPCA ao redor de 5% não contemplam reajustes na gasolina pela Petrobras, o que não pode ser descartado diante de defasagens que superam 40% em relação aos preços internacionais. Ou seja, no geral, o viés das estimativas é de números maiores. Além disso, a probabilidade é crescente de haver um fenômeno climático El Niño forte no segundo semestre, o que adicionaria cerca de 0,2 ponto percentual (p.p.) à projeção já em 5,1% da XP, diz o economista Alexandre Maluf.

Por outro lado, o câmbio representa um risco baixista. Caso o dólar se mantenha próximo aos R$ 5 observados atualmente – ontem, fechou ligeiramente abaixo disso pela primeira vez em dois anos -, o impacto seria um pouco inferior a 0,1 p.p. sobre o IPCA deste ano, segundo Maluf.

Ainda assim, o BC do Brasil “fica com um desafio muito grande”, diz Guizzo. “Esses choques de preços nos combustíveis, principalmente no diesel, em um ambiente de aquecimento da atividade trazem grandes riscos de se converterem em aceleração dos núcleos de inflação, ainda mais com a inércia piorando e as próprias expectativas com uma ancoragem pior.”

Núcleos são medidas para suavizar itens voláteis, e cinco deles são acompanhados de perto pelo BC. Sua média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada – métrica menos volátil que a mensal, mas mais dinâmica do que a em 12 meses – subiu para 4,65% em março, acima do teto da meta, de 4,29%, segundo a Warren.

Se o descumprimento da meta de inflação fosse explicado apenas pelos efeitos do conflito no Oriente Médio, o BC conseguiria justificar que “aconteceu uma coisa totalmente fora do seu controle”, diz Guizzo. “Mas os outros fatores, o espalhamento dessas pressões por toda a economia, isso é um problema para o BC de fato”, afirma.

Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, diz ver “riscos significativos de alta” para a projeção atual do BC de um IPCA de 3,9% em 2026, bem como algum risco para sua estimativa, já em 4,5%. Isso, diz, provavelmente afetará as projeções para 2027. Por enquanto, o Focus reagiu relativamente pouco, com a mediana passando para 3,91%, de 3,85%.

“A combinação de um choque externo de custos com uma dinâmica interna de serviços ainda pressionada é o cenário menos favorável para a convergência da inflação à meta”, diz Costa, do ASA.

[Fonte Original]

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