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quinta-feira, maio 28, 2026

Horta em áreas urbanas melhora clima e nutrição

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Quem passa pelo centro velho da cidade de São Paulo talvez nem imagine, mas, no meio do caminho entre a praça da Sé e a praça da República, uma horta produz cerca de 700 kg de alimentos por mês. Inaugurada há um ano e meio, a Horta da Cidade ocupa uma área de 2,1 mil m2 no estacionamento da Câmara Municipal e é uma das 472 áreas de produção agrícola na área urbana ou periurbana (na transição entre a mancha urbana e a zona rural) do município.

Parte do projeto Sampa + Rural, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho do município, a iniciativa ilustra o potencial da estratégia de reduzir a distância entre a produção de comida e a população. A agricultura urbana é vista por especialistas não apenas como um modelo de produção de alimentos, mas também como uma forma de mitigar efeitos localizados das mudanças climáticas, além de ser instrumento de educação nutricional e de reforço dos laços comunitários.

Segundo o secretário Rogério Goulart, atualmente, das 473 hortas urbanas cadastradas na cidade, 225 são de responsabilidade direta da prefeitura e 248, de produtores independentes. “Nós temos outros 184 projetos em andamento e deverão ser implantados em breve”, diz Goulart. O número total é bem maior, porque há várias iniciativas individuais que não entram na conta da administração municipal.

Boa parte da produção do projeto ocorre em áreas disponíveis de instalações públicas, como escolas e postos de saúde. Mas também há a ocupação, por exemplo, dos terrenos que ficam embaixo das linhas de transmissão de energia elétrica. Mais de 120 tipos de alimentos orgânicos são produzidos. Entre os produtos cultivados estão alface, couve, beterraba, repolho, tomate, temperos diversos e plantas alimentícias não convencionais (pancs).

O potencial, porém, é muito maior. De acordo com um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em parceria com o Instituto Escolhas, a conversão de terras improdutivas em fazendas orgânicas dentro da cidade de São Paulo poderia fornecer vegetais para 13 milhões de cidadãos. Outro trabalho do Pnuma, em parceria com a Unicamp e com o governo do Rio de Janeiro, mostrou que a mesma estratégia poderia criar 4 mil empregos e adicionar cerca de R$ 65 milhões ao PIB do Estado.

O incentivo à produção agrícola nas cidades é também uma política federal desde 2018, quando foi criado o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana. A iniciativa prevê a capacitação técnica e de gestão, o mapeamento de áreas disponíveis nas grandes metrópoles e o uso de instalações e terrenos federais. Um mapeamento do programa identificou 16 experiências do tipo em andamento em áreas da saúde e 27 em áreas de assistência social.

Como parte do programa, no mês que vem a Embrapa lançará um curso de capacitação em hortas urbanas. “A gente está colocando nessa capacitação todo nosso conhecimento técnico de produção de hortaliças no sistema orgânico e de base ecológica, utilizando elementos naturais, como bioinsumos e biofertilizantes, sem uso de defensivos ou agrotóxicos”, diz Guida Gorga, analista da Embrapa Hortaliças.

Para a especialista, as hortas urbanas são uma ferramenta pedagógica importante na busca da segurança nutricional, por aproximar as pessoas de alimentos não processados que estão desaparecendo da dieta dos brasileiros. “É mais do que segurança alimentar. Segurança alimentar é ter alimentos que você possa consumir todos os dias. Segurança nutricional significa que são alimentos saudáveis”.

A avaliação é compartilhada por Marcos Flávio Godoy de Oliveira, professor do curso de agronomia do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte. Ele vê um caráter didático nas hortas urbanas, que muitas vezes funcionam em terrenos de escola ou mantêm programas de visitação para estudantes. “A qualidade da alimentação significa também variabilidade da dieta. Isso passa pela educação alimentar. A horta urbana me dá a chance de variar os vegetais que eu vou ofertar”.

Outro impacto positivo da implantação de hortas urbanas é na mitigação de áreas de calor nas cidades. “A literatura sugere uma redução em torno de 3 a 6 graus na temperatura no entorno das hortas”, diz Oliveira. Apesar de o benefício ser localizado, o professor afirma que essa redução já é suficiente para melhorar a sensação de conforto. “Por isso, o ideal é que as hortas fiquem perto das pessoas e, se possível, se multipliquem pela cidade.” O desafio para essa expansão, segundo Oliveira, é que os terrenos que ficam nas áreas de maior densidade populacional nas cidades tendem a ser caros.

[Fonte Original]

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