No cenário aquecido da bioeconomia amazônica, o fluxo do capital começa a olhar para uma nova fronteira: o engajamento de empresas e a construção de startups de alto faturamento como referência de sucesso no mercado. Após o impulso de talentos e negócios inovadores em fase inicial nos últimos cinco anos, a curva de evolução, dizem analistas, chega a um momento-chave para o aumento de escala em bioprodutos, com maior relevância econômica e impactos positivos à floresta.
Investimentos se direcionam à base produtiva nos territórios e às estratégias de colocar a sociobiodiversidade nas vitrines a partir da trajetória de fomento e riscos já percorrida. “Precisamos preparar negócios mais robustos como estímulo para grandes aportes”, diz Victor Augusto Moreira, coordenador da Jornada Amazônia, plataforma da Fundação Certi que mobilizou R$ 50 milhões em quatro anos e acaba de receber novo investimento de R$ 6 milhões do Fundo Vale e do banco Santander.
Com o novo recurso, a plataforma inicia uma fase focada em escala e tração. Nesta nova etapa do programa, as 40 startups mais promissoras receberão suporte customizado em modelagem financeira, mentorias e acesso a mercados. Em paralelo, negócios disruptivos, como o “barco voador” da empresa Aeroriver, que revoluciona a logística nos rios, serão turbinados com recursos de um novo fundo criado pela Jornada Amazônia para atrair outros investimentos.
“O diferencial amazônico está na diversidade produtiva e maior valor agregado, e não propriamente em volumes como na lógica de commodities”, disse Moreira no Bioeconomy Amazon Summit, realizado em maio, em Belém. Há pelo menos 814 startups de bioeconomia ativas na Amazônia Legal, com aumento médio de 30% ao ano, segundo a Jornada. Foram mapeados cerca de 4 mil talentos em inovação, sendo 20% oriundos de comunidades tradicionais.
Precisamos preparar negócios mais robustos como estímulo para grandes aportes”
— Victor Moreira
“Esses avanços demonstram a importância de iniciativas colaborativas e de longo prazo para transformar o potencial amazônico em negócios viáveis, inovadores e conectados a mercados”, enfatiza Márcia Soares, gerente de Amazônia e parcerias do Fundo Vale. Além do suporte a startups, a previsão é investir R$ 24 milhões em cadeias produtivas de 14 Unidades de Conservação até 2027.
Alimentos e bebidas, tecnologias da informação e comunicação (TIC) e cosméticos são os principais segmentos, mas a expansão depende de maior envolvimento de corporações, inclusive no desenvolvimento de novos produtos.
Entre os exemplos, o Grupo Algar, visando explorar cacau, açaí e outros bioinsumos em áreas voltadas ao manejo sustentável de madeira no Pará, interage com a startup Soul Brasil, que produz shots amazônicos de bebidas funcionais no mercado. Spin-off de uma cooperativa, a Agrotec Tauá, por sua vez, desenvolveu maquinário inovador que otimiza o beneficiamento de sementes de tucumã e murumuru, com as quais a Natura produz óleos para cosméticos em Benevides (PA).
Esse cenário estimula novos movimentos na bioeconomia, como a recente criação da Natura Ingredients, fornecedora de bioinsumos a outras indústrias globais com controle de qualidade e de origem da matéria-prima, beneficiando 106 cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
“A tendência é que startups sejam compradas por grandes corporações como é comum no mercado de alimentos”, prevê Daniela Amendola, diretora da RG Futures. A empresa de investimentos aporta recursos na startup Genera, voltada à aplicação de alta tecnologia em agroflorestas, nos arredores de Manaus. Amendola ressalva, porém, que o horizonte de juros altos dificulta o avanço da agenda.
“Falta política de incentivo para a industrialização, além de maior conhecimento sobre a região”, diz Paulo Monteiro dos Reis, presidente da Associação dos Negócios de Sociobioeconomia da Amazônia (Assobio). “Precisamos aprender com grandes corporações para acessar mercados, mas isso precisa partir de interesses comuns e não pode ocorrer à nossa revelia.”
A expectativa é de evolução com o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) e os recentes anúncios de recursos internacionais para clima e natureza, além de políticas estaduais. Em Belém, o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, inaugurado há seis meses após aporte de R$ 300 milhões, tem estrutura para suporte pré-industrial a produtos de startups que já buscam parceiros no mercado.
O quarto edital do programa federal Eco Invest Brasil mobilizará R$ 13,2 bilhões à bioindústria, sociobioeconomia e turismo sustentável na Amazônia Legal. A iniciativa reduz parte da lacuna de financiamento. “O nível de investimento está aquém do necessário para a bioeconomia competir com setores subsidiados que desmatam”, diz Rafael Barbieri, economista sênior do WRI Brasil, coautor de estudo que projeta uma demanda de R$ 40 bilhões, em 25 anos, para esse potencial se transformar em realidade.