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sábado, junho 6, 2026

Trump Pode Taxar Etanol e Têxteis, Mas Não Toca na Carne Bovina. Quer Saber por Quê?

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O presidente americano que chegou à Casa Branca com o custo de vida como principal bandeira enfrenta hoje um mercado que não responde a ordem executiva, tarifa ou investigação do Departamento de Justiça. Donald Trump prometeu baixar o preço dos alimentos, mas o mais sensível dos produtos, a carne bovina, não leu o compromisso. A pecuária americana, que por décadas serviu de modelo global de eficiência, acumulou na última década um conjunto de fraturas estruturais que agora convergem para o mesmo ponto: menos animais, menos carne, mais preço e sem nenhuma saída rápida à vista.

A ironia é que os Estados Unidos são um dos países mais tecnologicamente avançados na produção bovina do planeta. Têm genética, infraestrutura de abate, escala de confinamento e logística que nenhum outro país igualou. E mesmo assim importaram 18% mais carne bovina no primeiro trimestre de 2026 do que no mesmo período do ano anterior, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, serviço de pesquisa econômica (USDA/ERS), comprando de Brasil, Austrália, Uruguai, Argentina, Nicarágua e Paraguai para abastecer um mercado interno que o próprio rebanho nacional já não consegue suprir.

No anúncio de 1º de junho, a proposta de tarifa de 25% via Seção 301 deixou a carne bovina de fora não por generosidade diplomática, mas porque ele não tinha outra saída. Os pecuaristas americanos não comemoram a decisão. A National Cattlemen’s Beef Association, a R-CALF USA e a American Farm Bureau Federation convergem no mesmo diagnóstico: importar mais carne resolve o preço no varejo no curtíssimo prazo, mas aprofunda o problema estrutural. Em declaração de 12 de maio, o CEO da R-CALF, Bill Bullard, afirmou que “aumentar temporariamente a oferta de carne importada provavelmente retardará a expansão do rebanho bovino americano”.

O ciclo que ninguém consegue forçar

O rebanho bovino americano acumula o sétimo ano consecutivo de contração. O inventário total em 1º de janeiro deste ano era de 86,155 milhões de bovinos, o menor desde 1951, conforme o USDA/NASS, serviço nacional de estatísticas agrícolas. O número de vacas de corte, 27,6 milhões, não era tão baixo desde 1960. Em relação ao pico de 2019, o país perdeu 4,03 milhões de vacas de corte, recuo de 12,7% na base reprodutiva de toda a cadeia.

O USDA/ERS chama de cattle cycle o período de 8 a 12 anos em que o rebanho nacional oscila entre expansão e contração, respondendo a preços, custos e clima. O ciclo atual entrou em contração em 2019 e nenhum sinal de mercado foi suficiente para revertê-lo no ritmo que a demanda exige. A seca foi o motivo.

Em 2023, quase 93% das vacas de corte americanas estavam em Estados onde as pastagens eram classificadas pelo USDA/NASS como “muito ruins” a “razoáveis”. Os preços do feno bateram recordes nos dois últimos trimestres de 2022 e nos primeiros meses de 2023. Quando o custo de manter uma vaca supera a receita que ela gera, o produtor abate. Foi o que aconteceu em escala nacional.

O rebanho médio de uma operação de cria americana tem cerca de 47 bovinos, conforme o Censo da Agricultura de 2022 do USDA/NASS. Operações com 100 ou mais vacas representam apenas 10,5% das unidades, mas concentram 60,5% do inventário. As pequenas, sem reserva de capital para absorver dois ou três anos de perda, liquidam primeiro.

E na recomposição do plantel não há atalho: nove meses de gestação, e mais entre 18 e 24 meses até o peso de abate. A safra de bezerros de 2025 foi de 32,9 milhões de bovinos, uma queda de 2% em relação a 2024 e 3,39 milhões a menos do que no pico de 2018. O USDA/ERS confirmou em fevereiro deste ano que uma expansão significativa do rebanho não é esperada antes de 2028.

GettyimagesRebanho bovino dos EUA é o menor dos últimos sete anos

Com menos animais, a indústria operou com o único recurso disponível: animais mais pesados. Em 2024, o peso médio de carcaça subiu 11 quilos em relação a 2023, compensação que manteve a produção perto de 12,25 milhões de toneladas. Em 2025, o recurso já não bastou. A produção comercial caiu 4%, chegando a cerca de 11,8 milhões de toneladas, o menor volume desde 2016, segundo o USDA/ERS. Para 2026, a projeção é de 11,76 milhões de toneladas, novo recuo.

Quatro empresas, uma cadeia frágil

Por trás da escassez de animais há uma estrutura de abate que amplifica qualquer choque. Quatro empresas, JBS USA, Cargill, Tyson Foods e National Beef, controlam entre 77% e 85% do abate de novilhos e novilhas nos Estados Unidos, conforme dados do USDA/FSIS, serviço de segurança e inspeção alimentar, compilados pelo USDA Office of the Chief Economist em 2023 e referenciados pela Casa Branca em novembro de 2025.

O índice CR4, que é a participação das quatro maiores empresas no total abatido, saiu de 36% em 1980 para mais de 80% nas décadas seguintes. Nenhum outro setor manufatureiro americano registrou crescimento semelhante no mesmo período, segundo o mesmo levantamento.

GettyimagesUnidade da JBS, planta comprada da Monfort Beef, Greeley, no Colorado

Mas o fato é que essa concentração gera eficiência: plantas maiores reduzem custos de processamento e preços no atacado. Mas tem também um preço estrutural: quando um único evento afeta uma planta relevante, o impacto atravessa toda a cadeia.

O incêndio em 2019 na unidade da Tyson em Holcomb, no Kansas, paralisou 6% da capacidade nacional de processamento. Na pandemia de Covid-19, com o fechamento parcial de plantas, o corte de carne bovina embalada subiu 80% entre o início de abril e meados de maio de 2020, conforme documentado pelo USDA/ERS.

Em 2025, operações de fiscalização de imigração em Nebraska derrubaram a produção de uma planta para 20% da capacidade normal. Mais de 50% dos trabalhadores nos frigoríficos americanos nasceram no exterior, número que sobe a 60% em estados como Nebraska e Iowa, segundo o Center for Economic and Policy Research, centro de pesquisa econômica e política de Washington.

Em novembro de 2025, Trump assinou ordem executiva determinando ao Departamento de Justiça investigar as quatro maiores empresas por suspeita de cartel, fixação de preços e manipulação de mercado. O procurador-geral interino Todd Blanche declarou que o DOJ, Departamento de Justiça, já havia revisado mais de três milhões de documentos.

A indústria respondeu pelo Meat Institute, sua principal entidade de representação: “Os frigoríficos têm operado com prejuízo por mais de um ano em razão da oferta restrita de gado e da demanda forte.” Os dados do USDA sustentam essa versão: preços recordes ao produtor e margens negativas aos processadores não combinam com cartel clássico, combinam com escassez.

Não por acaso, ao longo de 2024, o México funcionou como alívio parcial para o mercado americano. Nos primeiros dez meses do ano, as importações de gado mexicano totalizaram 1,24 milhão de bovinos, alta de 21,3% em relação ao mesmo período de 2023, segundo o USDA. Em novembro de 2024, o USDA/APHIS, serviço de inspeção animal e fitossanitária, fechou a fronteira: a New World Screwworm, a mosca-da-bicheira, erradicada dos EUA nos anos 1960, havia sido detectada em bovinos no México e avançava para o norte. Em setembro de 2025, casos foram confirmados em Sabinas Hidalgo, Nuevo León, a menos de 110 quilômetros da fronteira texana.

Neste 3 de junho, o USDA/APHIS confirmou o primeiro caso em solo americano desde 1966: um bezerro de três semanas no condado de Zavala, Texas. “Todos os modelos mostravam a entrada da NWS no país em 2025; graças ao trabalho de toda a administração Trump e de nossos parceiros, conseguimos comprar tempo para esse momento”, disse Brooke Rollins, secretária de Agricultura, em uma coletiva de imprensa. O USDA estima que a propagação da praga pelo Texas custaria ao estado ao menos US$ 1,8 bilhão e colocaria em risco toda a cadeia bovina nacional.

O Brasil que Trump não pode taxar e que ele precisa

Quando o USTR, Escritório do Representante Comercial dos EUA, propôs em 1º de junho de 2026 uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, a carne bovina foi explicitamente excluída da lista. A decisão, publicada no Federal Register e baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana, lista entre as justificativas práticas comerciais supostamente “irrazoáveis” do Brasil. Mas a carne não entrou e os números explicam por quê.

Sem acordo de livre comércio com os EUA, o Brasil exporta carne bovina para o mercado americano sob a cota TRQ, cota tarifária, da categoria “Other Countries”, compartilhada com exportadores menores como Japão, Irlanda e Lituânia. Em 2026, essa cota foi reduzida de 65.005 para 52.005 toneladas pelo USTR, conforme publicação no Federal Register de 31 de dezembro de 2025: 13.000 toneladas foram transferidas para o Reino Unido em troca de acesso recíproco da carne americana ao mercado britânico. Ou seja, o Brasil perdeu espaço dentro de uma cota que já era pequena.

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O fato é que o mercado respondeu com velocidade que os próprios analistas americanos definiram como sem precedente. Segundo o relatório do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, o CBP, citado pelo USDA/ERS no Livestock, Dairy and Poultry Outlook de janeiro de 2026, em 5 de janeiro a cota “Other Countries” já estava 91% preenchida. Em 6 de janeiro, o Brasil esgotou integralmente sua cota tarifária em seis dias de ano comercial.

Em 2025, o mesmo ponto havia sido atingido em 17 de janeiro. Em 2024, em março. Em 2023, em maio. Para comparação: a Austrália, com cota bilateral de 378.214 toneladas, sete vezes maior, havia utilizado menos de 1% do seu volume no mesmo período.

A partir de 7 de janeiro, toda a carne bovina brasileira exportada para os EUA passou a ser tributada pela tarifa fora de cota de 26,4%. E o mercado americano absorveu a tarifa sem reduzir a demanda. No acumulado até a semana encerrada neste 16 de maio, o Brasil havia exportado 159.729 toneladas de carne bovina para os EUA, alta de 12% em relação ao mesmo período de 2025, conforme o relatório semanal do USDA/AMS, serviço de mercados agrícolas de 22 de maio.

No primeiro trimestre de 2026, o Brasil embarcou US$ 795 milhões em carne bovina para os EUA, alta de 21% em relação ao mesmo período do ano anterior. As importações totais americanas de carne bovina no primeiro trimestre chegaram a 562.000 toneladas métricas, avaliadas em quase US$ 4,5 bilhões, alta de 18% sobre o mesmo período de 2025 e 122% acima do registrado cinco anos antes, conforme a American Farm Bureau Federation, Federação Americana de Fazendeiros, com base em dados do USDA.

Diante dos preços no varejo em níveis recordes, o governo Trump estuda suspender por 200 dias os limites quantitativos do sistema TRQ, o que permitiria volumes ilimitados de carne importada com tarifas reduzidas, segundo a American Farm Bureau Federation. A medida beneficiaria principalmente parceiros com cotas próprias: Austrália, Nova Zelândia, Uruguai e Argentina, cuja cota foi ampliada de 20.000 para 100.000 toneladas por ordem de Trump em fevereiro de 2026. O Brasil, sem cota própria nem acordo de livre comércio, continuaria competindo no espaço restante e pagando 26,4% acima da cota, como já faz desde 6 de janeiro.

O fato é que o preço de varejo composto da carne bovina vem registrando novos recordes histórico desde junho de 2025, segundo o USDA/ERS. A inflação geral de alimentos nos EUA rodou 3,2% em doze meses. A carne bovina subiu 14,8% em abril de 2026 em relação ao mesmo mês do ano anterior. Para o restante de 2026, a projeção da mesma agência é de mais 12,1%.

Em 2025, pela primeira vez na história, o Brasil superou os EUA na produção global de carne bovina, conforme o USDA. Para 2026, a projeção americana é de 12,370 milhões de toneladas brasileiras contra 11,741 milhões americanas. O país que por décadas exportou modelo agora compra carne do país que aprendeu com ele e paga tarifa extra para garantir o abastecimento.

[Fonte Original]

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