Eu tenho muita sorte de contar com filhos e irmãos com seus próprios filhos que ajudam nos cuidados da minha mãe. Ela chega aos 96 anos com relativa autonomia e ainda muito curiosa e atenta ao que o filho médico escreve em suas colunas e nas redes sociais. Me dá bronca quando não concorda com algo, inclusive. Mas logicamente precisa de cuidados.
Falo em sorte porque cada vez mais adultos de meia-idade relatam que os cuidados dos pais se sobrepõem à demanda dos filhos. São responsabilidades que se empilham e que quase sempre deixam pouco espaço para o cuidado de si. Não por acaso, uma parcela de adultos entre 35 e 50 foi apelidada de “sanduíche”, justamente porque ficou comprimida entre a responsabilidade com os pais que envelhecem e com os filhos que ainda crescem. Isso sem falar nos netos.
Um dado do Instituto Brasileiro de Economia ajuda a entender quem são essas pessoas no Brasil: em 2023, havia 955 mil pessoas entre 35 e 49 anos vivendo em lares com filhos de até 24 anos e idosos com 65 anos ou mais. A maior parte dos chefes desses lares eram mulheres — 60,2%.
Se antes cuidar dos pais era um gesto episódico da vida adulta, a transição demográfica acelerada mudou isso profundamente. Com o aumento da expectativa de vida e a queda da taxa de natalidade, essa responsabilidade pode durar anos, às vezes décadas.
Uma pesquisa de 2026 feita na Austrália, portanto recente, mostra os contornos reais dessa sobrecarga, que quase invariavelmente recai sobre as mulheres, ainda vistas como cuidadoras naturais. Mais da metade dos cuidadores dorme mal, quase dois terços se dedicam quase 11 horas semanais a esses cuidados, e 44% admitem que há um impacto direto no trabalho, mostra o estudo.
Aqui mora um dos grandes nós centrais da nossa era: cuidar é um ato de amor, mas esse amor tem um custo que a sociedade não visibiliza. Quem cuida continua tocando a própria vida — trabalha, paga contas, resolve problemas —, mas frequentemente faz tudo isso emocionalmente exaurido, com a sensação de que o próprio tempo ficou suspenso, em pausa.
É profundamente humano cuidar de quem cuidou de nós, um ato de gratidão pelo que se recebeu dos pais. O peso, porém, raramente é dividido de forma justa, porque tende a recair sobre quem tem mais disponibilidade, e não necessariamente sobre quem tem mais condições. Muitos se irritam, querem um momento para si, e por sentirem isso surge culpa. E ela cobra seu preço: 1 a cada 5 adultos nessa situação convive com ansiedade, depressão ou estresse crônico.
Nossa sociedade que envelhece a passos rápidos depende cada vez mais do cuidado, e não apenas do cuidado prestado a quem perdeu autonomia, mas especialmente daquele exercido no dia a dia, sem nome e sem reconhecimento, por pessoas que têm pouco tempo e energia para cuidarem de si.
Ainda assim, existe um caminho possível, que começa quando o cuidado deixa de ser uma responsabilidade solitária e passa a ser partilhado. Na minha família, membros de diferentes gerações se revezam. Ninguém carrega sozinho. Para muitas outras, porém, dividir tarefas é difícil ou impossível por falta de condições, por trabalho, por distância geográfica. É aí que o Estado precisa atuar com mais força, com políticas de apoio aos cuidadores, licenças que reconheçam essa realidade e serviços públicos que não deixem o cuidado virar um fardo exclusivamente privado.
Cuidar bem começa quando quem cuida aprende a reconhecer seus limites sem transformar isso em culpa e a pedir ajuda sem ver nisso sinal de fraqueza. E quando a sociedade decide enxergar algo que há muito prefere ignorar: que quem cuida dos outros de vez em quando também precisa encontrar onde descansar. Uma das frases de novelas é “quem ama cuida”. O que esquecemos de dizer é que quem cuida também precisa ser cuidado.