Nesta quinta-feira, 18, a Vib3, joint venture criada pelo Mercado Bitcoin e pela Sportheca, anunciou uma oferta de R$ 526 mil para tokenizar parte da carreira do lutador brasileiro André “Mascote” Lima, peso-mosca invicto que volta ao octógono do UFC neste sábado, 20, em Las Vegas, contra o peruano Kevin Borjas.
A operação transforma receitas futuras do atleta em um ativo digital negociado na plataforma do Mercado Bitcoin. Desse modo, quem comprar os tokens terá direito a receber uma fatia de 20% das premiações, patrocínios e valores ligados a eventos obtidos por Mascote ao longo dos próximos oito anos.
A iniciativa marca a estreia pública da Vib3 e inaugura um modelo que tenta aproximar investimento, esporte e engajamento de fãs. A empresa nasceu da união entre a Sportheca, especializada em inovação no esporte, e o Mercado Bitcoin.
A oferta segue as regras da Resolução CVM 88, que regula o financiamento participativo de investimento no Brasil. Segundo a Vib3, a captação começou em maio e pode permanecer aberta por até 180 dias, prazo que se encerra em novembro. A expectativa, no entanto, é alcançar o valor-alvo antes da data-limite.
O lançamento ocorre em um momento importante para a carreira de Mascote. O brasileiro soma 11 vitórias em 11 lutas profissionais e fará sua quinta apresentação no UFC. O combate contra Borjas pode ampliar sua sequência invicta e fortalecer seu valor comercial dentro da principal organização de MMA do mundo.
Tokenização financia preparação e equipe de apoio
A Vib3 estruturou a oferta para antecipar recursos que permitam ao atleta dedicar mais tempo e energia à preparação. O dinheiro captado deverá financiar treinos, camps, equipe multidisciplinar, acompanhamento médico, nutrição, preparação física e outros custos ligados à carreira profissional.
Para organizar a operação, o projeto criou uma Sociedade de Propósito Específico, a SPE, que tem André Mascote como titular. Essa empresa concentrará os contratos do atleta, incluindo acordos com o UFC, patrocinadores e eventos. Depois de receber os pagamentos, a SPE fará a distribuição da parte devida aos investidores.
“A captação é para que o atleta não faça nada além de treinar. Esse recurso é para fazer justamente que o atleta chegue à competição com mais condição do que um outro atleta que não tenha o apoio”, afirmou ao Valor Econômico, Adriano Ferreira, CEO da Vib3.
Ferreira afirma que a Vib3 quer mudar a forma como fãs se relacionam com atletas. Além do possível retorno financeiro, investidores que aplicarem valores maiores poderão receber experiências ligadas à carreira de Mascote, como ingressos para lutas e participação em eventos exclusivos.
“Nossa proposta é transformar muito a relação do fã com o atleta. Queremos trazer uma proposta e conectar esse fã com o atleta”, disse.
Embora o primeiro produto esteja ligado ao MMA, a Vib3 já avalia expandir o modelo para outras modalidades. A empresa estuda atletas de surfe, skate, boxe e automobilismo. Ferreira também vê espaço para levar a tokenização a outros segmentos do entretenimento, como música.
“A Vib3 hoje é esporte, mas queremos transformá-la em uma plataforma de entretenimento”, afirmou o executivo. Segundo ele, a plataforma pode, no futuro, trabalhar com direitos musicais e receitas vindas do Ecad e de serviços de streaming.
Projeções estimam até R$ 1,5 milhão para investidores
A Vib3 apresentou três cenários para a carreira de André Mascote ao longo dos próximos oito anos. No cenário mais otimista, que considera uma trajetória de campeão e vitórias consistentes, o atleta poderia gerar cerca de R$ 7 milhões em receitas. Nesse caso, os dividendos aos investidores chegariam a aproximadamente R$ 1,5 milhão.
No cenário base, a empresa projeta receita total de R$ 3,9 milhões no período, com distribuição entre R$ 880 mil e R$ 900 mil aos investidores. Já o cenário pessimista considera lesões, pausas longas e uma evolução mais lenta da carreira. Nessa hipótese, Mascote geraria R$ 2,2 milhões, com dividendos de cerca de R$ 545 mil.
Apesar das projeções, a oferta carrega riscos. O retorno depende diretamente do desempenho esportivo do lutador, da permanência no UFC, da capacidade de atrair patrocinadores, da agenda de lutas e da saúde física do atleta. Diferentemente de investimentos tradicionais, o resultado da operação acompanha uma carreira sujeita a vitórias, derrotas, lesões e mudanças contratuais.f
A gestão dos recursos ficará sob responsabilidade da All In Sports Management, agência indicada por Mascote e comandada por Stefano Sartori, empresário do lutador. A empresa atua na administração de carreiras de atletas de MMA, boxe, jiu-jitsu e outras modalidades.
Sartori afirma que o modelo pode preencher uma lacuna histórica no esporte brasileiro: a falta de capital para atletas em fase de crescimento. Segundo ele, muitos competidores dependem de estrutura limitada justamente no momento em que precisam profissionalizar a preparação.
“É muito importante para os atletas ter um acompanhamento multidisciplinar nesse ponto da carreira. Não apenas um acompanhamento técnico, como eles têm com os treinadores, mas também multidisciplinar, com preparadores físicos, médicos e nutricionistas”, disse.
Para Sartori, a tokenização pode abrir uma nova frente de financiamento para o esporte nacional. Em vez de depender apenas de patrocínios tradicionais, atletas poderiam captar recursos diretamente com fãs e investidores interessados em acompanhar sua evolução.
“Podemos estar vendo o surgimento de um movimento inovador, da maneira como tratamos o financiamento de carreiras de atletas. Estamos fazendo uma fusão entre o investimento, a engenharia financeira, e a possibilidade de o investidor se engajar mais na carreira do atleta”, afirmou.